sábado, 30 de abril de 2011

Energia; RJ, 0130701981

Energia, virilidade, força, carisma, magnetismo,
Potência, agilidade, coragem, imagem, identidade,
Presença, personalidade, autoridade; são para o
Audacioso, impetuoso, destemido; não para o
Reprimido, preso, amarrado, fechado, preconceituoso,
Complexado, medroso, covarde; não são para quem
Tem liberdade, é livre, solto; recalcado, acorrentado
Neurótico, psicopata, hipócrita, idiota: absurdos; é
Até difícil de imaginar; mas há pessoas iguais assim;
Não têm luz, vida, amor, paz, valor, calor: só o
Sangue frio de réptil, cheio de veneno, ódio, rancor.

E o aprender; RJ, 080601981.

E o aprender a ter coragem e ação,
A fazer o que quiser, e de se meter
De todo jeito, em todo lugar, fazer
De tudo e sem medo de nada; sem
Medo de falar; e quem não aprende,
Não tem coragem, ousadia, audácia
E é inibido, tímido e medroso; treme
À toa ao fazer uma revolução, e ao
Ser um grande líder para restabelecer
A democracia, falar a verdade, pregar
A justiça, a igualdade e a união; mas
Quem não nasce pra isso e nem tem
Raça e nem honra ou fé, não tem
Esperança, não tem paixão, passa por
Moleirão; um infrutífero, inútil, um tolo;
Não tem voz que seja ouvida por todo
O povo, que levantasse o povo, e o
Levasse a uma revolução.

Eu crio; RJ, 070601981.

Eu crio as maiores obras da literatura universal,
Sou universal, da humanidade, mundano; nem
Camões, Pessoa, Goethe, Neruda, Rilke, creio,
Ninguém; e creio no que crio; eu sou eu e o
Licuri é coco; sou meu e boi não lambe; a
Simplicidade, a verdade e a realidade; a liberdade
E o amor, a felicidade; a rebeldia e a revolução,
E a transformação; crio, independente de qualquer
Fator circunstancial, que gira ao meu redor; meto
O pau e crio mesmo; quando acordo o caso é outro.

Língua solta; RJ, 080601981.

Tenho a língua solta
E sei que peixe morre pela boca;
Mas não estou nem aí,
Falo mesmo e meto a língua,
E meto o pau, e não tenho medo
Do que vai me acontecer;
Não gosto de covardia
E nem de injustiça;
Sou do povo e
Pelo povo e para o povo;
Não paro o povo
E nem deixo o povo;
Alerto o povo
E não iludo o povo;
Não minto e nem engano
E não tenho freio na goela;
Denuncio e grito,
Mato a cobra e mostro o pau;
Sou contra a opressão,
E a exploração;
Sou a favor da emancipação do proletariado
E do povo humilde e fraco, desamparado
E abandonado e sem uma
Chance, opinião, nada;
Eu sou livre, falo o que penso, não
Tenho cabresto e nem freio na boca,
Tenho a garganta dilacerada
E nem mesmo a morte pode me calar.

Rolling Stones, Lady Jane; BH, 030402011

Tom: D

D                       C                              G                
My sweet Lady Jane, when I see you again
D                  C                               G  D
Your servant am I and will humbly remain
E7/G#     Am                D/7              G
Just heed plea, my love on bended knees, my love
C              Am                       D                      C
I pladge myself to Lady Jane, my dear Lady Anne
                       G  D                         C
I've done what I can, I must take my leave
                       G D E7/G#  Am
For promised I am this play is run my love
D/F#               G                  C                        Am                    D
Your time has come my love I've pledged, my troth to Lady Jane
D                     C                         G  D
Oh my sweet Marie I wait at your ease
                           C                                  G D
The sands have run out for your lady and me
E7/G#         Am              D/F               G
Wedlock is night my love her station's right my love
C            Am
Life is secure with Lady Jane

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Rolling Stones, Angie; BH, 0290402011; ouçam, toquem, cantem, dancem, coladinhos.

     Tom: A                                                                        Introdução: A-  E  E3b  G F  C G3b  A-

A                 E   G                           F4    F          C     G3b
   Angie, Angie, when will those clouds all disapear
A-            E         G                   F4 F              C
   Angie, Angie, where will lead us from here
                    G                                      D                  A
   With no loving in our souls and no money in our coast can't
C             F                        G
   You say we're satisfied
      A           E       G             F4   F                   C   G3b
  But Angie, Angie you can't say we never tried
A                E                G                F4    F                     C  G3b
   Angie, you're beatiful but ain't it time we said goodbye
A-        E                      G                 F4  F                         C
   Angie, I still love you, remember all those nights cried
                   G                                              D-                  A-
   All the dreams we held so close seemed to all go up in smoke
C                      F                 G
   Let me whisper in your ear
A         E       G                   F4   F                C    G3b
   Angie, Angie where will it lead us from here
          G                                         D                   A
   Oh Angie don't you weep all your kisser still tast sweet
C                        F                     G
   I hate that sadness in your eyes
         A          E      G               F4    F                  C
   But Angie, Angie, ain't it time we said goodbye
                  G                                      D-              A-
   With no loving in our souls and no money in our coats
C                     F                       G
   You can't say we're satisfied
        D-                            A-     D-                                         A
   But Angie, I sitll love you baby, everywhere I look I see your eyes
   D-                                                 A-             C                   F                    G
   There ain't a woman that comes close to you, come on baby dry your eyes
           A        E        G         F4F             C
   But Angie, Angie, ain't good to be alive
   A          E         G             F4  F               C
   Angie, Angie, they can't say we never tried

Desilusão (Modinha XVIII)

Noite vai e noite vem e como sempre
Estou sozinho e sem ninguém: como é
Triste a minha vida e amarga como fel;
Vou sem rumo e sem destino, sem um
Amor e sem um céu; dia vai e dia vem,
E ninguém me chama de meu bem; ando
Triste e deprimido, e sou sempre desiludido;
Vida vai, vida vem, um dia eu sei que
Vou também; mas não queria, ir sem
Amor, por que lá eu sei, que sentirei
Dor; e só o amor, pode acabar com a
Dor que quer me matar.

Madalena (Modinha XVII)

Madalena, o dia em que foste embora,
E não mais voltaste, minha vida mudou,
O meu mundo acabou, e a toda hora, eu
Chorava, e até não vivia mais; o sol para
Mim apagou, e o mar secou, e a única
Coisa que me restava, era a minha dor;
Dor aguda e infinita, chamada Madalena;
Tu não sabes e nem me conheces, e só
Pensas em ir embora, e me dizes adeus
A todo hora; não deixes morrer, o mundo
Foi feito para nós, e a nossa vida, foi feita
Para a gente viver; não quero nem pensar, de
Novamente te perder; se estás com a ideia
De partir, antes acabes comigo; mas com
Amor, para eu ser feliz, pelo menso uma vez
Na vida; Madalena, se fores, e um dia voltar,
Não me procures, por que não vais me
Encontrar; mas minha alma pelos cantos do
Mundo, vai sempre pairar; se queres ir, então,
Adeus, Madalena.

Uma vez (Modinha XVI)

Uma vez, uma morena olhou para mim,
Com olhos de luar, um olhar manso, e
Cheio de paz; me deixou encabulado, e
Sem saber o que fazer; uma  vez, uma
Morena, com corpo de deusa do mar,
Veio a andar sobre estrelas, e na boca
Um sorriso do tamanho do universo; e no
Peito um amor, de uma beleza infinita;
A pele da cor da tarde, tarde mansa de
Verão; uma vez, uma morena veio me
Dar a sua mão, e me beijou a boca, com
Um beijo leve, que acariciei seu corpo;
Era macio como a noite, lindo como a
Lua, que fiquei junto a ela, e lhe dei o
Meu amor: nunca mais ela foi embora,
Nunca mais ela me deixou; e posso dizer
Que sou feliz, e que tenho, e que sou amor;
Morena da cor da tarde, da alma cheia de
Calor; uma vez, vieste no caminho, a
Caminhar para mim, uma vez, talvez, quem
Sabe a morena, nunca mais voltou.

Preciso (Modinha XV)

Preciso estar contente e ser necessário,
Fazer falta e existir; preciso demonstrar,
Estar presente, ou do contrário, sei que
Realmente, não conseguirei mudar;
Mudar tudo em minha vida e ser igual;
Eu preciso de amor de mulher, e de
Carinho, e de acreditar, e confiar em
Mim mesmo; pois tudo na minha vida
Depende de mim; preciso ter paz, e
Ter pureza, e para isso encontrar, tenho
Que saber procurar, e conhecer; amanhã,
Posso morrer, por isso, quero ao menos
Viver; eu preciso ser, pensar e construir;
Compreensão e compreender, para perdoar
E pedir perdão e crer, e ver; preciso de uma
Alma, de ajudar, preciso muito de ti.

(Modinha XIV)

Não tive ninguém que me ajudasse,
Não tive ninguém que me apoiasse,
E que me ensinasse; tudo que sei, eu
Aprendi sozinho, e não sei de nada;
Não tive ninguém para me amar, para
Me ajudar e compreender; não tive
Liberdade, e nunca tive dinheiro, e
Por isso sou tão triste, sou tão só,
Sozinho, mas não desistirei de
Procurar; e um dia sei que vou encontrar,
Um alguém que vai me ensinar, a viver,
A amar, e a existir; não tive ninguém
Para pedir socorro, e para me dar coragem,
Um sorriso ou uma flor; sei que ninguém,
Tem nada com isso, mas sinto mal em
Ficar calado; por isso tento esquecer
Minha dor, ao por em minha vida inútil,
Um pouco mais de amor.

Eu não quero ser um soldado (Modinha XIII)

Eu não quero ser um soldado, meu povo,
Eu quero carregar uma flor; e não quero
Ser um aviador, minha gente, os céus foram
Feitos para os pássaros; e não quero ser
Um marinheiro, minha mãe, os mares foram
Feitos para os peixes; e não quero ir para a
Guerra, e nem para o mar, poluir os céus, e
Nem voar; eu não quero ser um soldado meu
Povo, quero é viver em paz e não espantar os
Pássaros e nem os peixes; quero é vida, amar,
Amor, e ver todo mundo viver seu resto de
Vida em paz; eu não quero ser um soldado,
Meu pai; e nem um aviador, minha mãe, meu
Povo e minha gente; quero dar é descanso
À minha mente, vida à minha alma e cor à
Minha vida; quero ter amigos, irmãos, ser
Feliz, com minha mulher e os meus filhos;
Ajudar mais, e ser um alguém, e demonstrar
E fazer o bem.

Sem esperança (Modinha XII)

Não tenho mais espeança de um dia te ter;
Sei que já sabes o que sinto por ti, mas não
Queres me amar; não queres ser minha, e sei
Que vai ser difícil, encontrar outra igual a ti;
E vai ser mais difícil ainda tentar te esquecer;
Vou ter que sofrer muito para poder aprender a
Não amar a mais ninguém, igual eu te amei;
Agora tenho a certeza de que não serei teu dono;
Mas não faz mal, depois que tudo passar, outro
Alguém eu consigo encontrar.

Se quiseres saber (Modinha XI)

Se quiseres saber o que quero de ti,
É te ver aqui, agora comigo; nesta
Vida, só amo a ti, só desejo a ti e só
Preciso de ti; se quiseres saber o que
Quero de ti, é o teu amor, nada mais;
É que me fazes tanta falta, que sem ti,
Sou uma alma sem corpo, e só tu, me
Fazes ficar de alma sossegada; e se
Quiseres saber por que te perturbo
Tanto, é por que és só minha.

Angela (Modinha X)

Angela, não sei por que,
Falo tanto em ti; não sei
Por que, tremo tanto,
Quando me aproximo de ti;
Falei disso contigo,
E tu não me disseste nada;
Mas um amigo me disse,
Que isso era amor; e se for
Amor, Angela, quero que
Confies em mim, acredites
Em mim e me conheças, pois
Sou a única pessoa que gosta
De ti; não tenhas medo e nem
Deixes que eu tenha medo; só
Desejo o teu bem; não posso
Dar nada a ti, pois não tenho
Nada; só tenho a mim, e quero que
Tenhas prazer ao meu lado,
Sintas felicidade e alegria, de
Estar comigo; Angela, não sei
Por que falo isso contigo, mas
Se for amor, digas alguma coisa,
Por favor, me mostres o por que
De tudo isso, senão vou enlouquecer,
E ao ficar louco, acabo por não
Ter a ti; por favor, Angela,
Sejas meu desejo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Olho de vidro (Modinha IX)

Meu olho de vidro quando te viu,
Quebrou em mil pedaços, pois tua imagem,
Era tão bela, que refletida em meu olho,
Ele ficou louco, e foi tanta a emoção,
Que ele quebrou, e caiu no chão;
Minha garganta muda, num esforço tremendo,
Pronunciou teu nome, e minha boca seca,
Tornou-se molhada, só em pensar de te beijar;
Minhas grossas mãos começaram a tremer,
Com vontade de te acariciar; e meu corpo,
Para dentro do teu, logo quis entrar; minha
Alma ardente de amor puro, beijou tua alma,
Que alegre ficou, e de mãos dadas, fomos
Pelo mundo, a andar e cantar, a amar e a
Beijar; meu olho de vidro, quando te viu,
De emoção ele riu; minha alma se abriu e
Iluminou em meu peito a alegria que entrou;
E todo eu, era tudo amor; com um gesto de
Santa tu me abraçaste, e nos teus jeitos de
Amar, nos cacos do meu olho de vidro,
Vi o mundo parar.

Beatles, Octopus's Garrden; BH, 0280402011; ouçam, cantem, dancem.




Tom: E

E                C#m
I'd like to be under the sea
    A                                         B7
In an octopus's garden in the shade
E            C#m
He'd let us in, knows where we've been 
      A                                       B7
In his octopus's garden in the shade 
C#m
I'd ask my friends to come and see
A                     B7
An octopus's garden with me
E               C#m
I'd like to be under the sea
    A                     B7               E
In an octopus's garden in the shade
                          C#m
We would be wam below the storm
      A                                         B7
In our litle hideaway beneath the waves
E                    C#m
Risting our head on the sea bed
A                                       B7
In a octopus's garden near a cave
C#m
We would sing and dance around
A                                    B7
Because we know we can't be found


Estribilho


E                       C#m
We would shoult and swin about
         A                                 B7
The coral that lies beneath the waves
(Lies beneath the oceans waves)
E               C#m
Oh what joy for every girl and boy
   A                                        B7
Knowing they're happy and they're safe
(Happy and they're safe)
C#m
We would be so happy, you and me
A                                          B7
No one there to till us what to do
E               C#m
I'd like to be, under the sea
             A                B7         C#m
In an octopus's garden with you
                A         B7       C#m
In a octopus's garden with you
               A          B7            E
In a octopus's garden with you

Giração (Modinha VIII)

A roda girava e o vento ventava e
A chuva caía, o céu se abria, a flor
Sorria, a noite veio clara com as
Estrelas mansas, e uma lua calma;
As nuvens foram dormir e os ventos
Se esconderam; só as flores continuavam
A sorrir, naquela noite de flores; tu toda
Enfeitada de rosas, na paz de nosso quarto:
Tu e eu, amei-te, tu me amaste; eu estava
Em cada célula do teu corpo, e beijei tua
Alma; o mundo ao nosso redor, girava
Sem parar, mas nós não víamos nada;
Logo mais veio o dia, um dia claro e
Pacífico; o sol bateu de leve em nossa
Porta, e perguntou se podia entrar; tu
Ainda sonolenta, abriste a janela para a
Natureza entrar; um ar mais leve, me
Encheu os pulmões: e a roda começou
A girar: o vento ventava calmo e o sol
Iluminava devagar.

Amor de Sol (Modinha VII)

Dentro do sol que brilha no céu,
Vi uma imagem de uma mulher de neve,
Que olhava para mim, e meu pensamento
Não voou, pois não precisou, e tive teu
Amor brilhante, teu amor de fogo, teu
Amor de sol; que beleza que é o sol que
Brilha em teus olhos; que forte é a luz
Do teu amor; e fui a andar e a subir para o
Céu; e tu estás ao meu lado, e entramos
Pra dentro do sol, e teus olhos foram
Meus, não precisei gritar, chorar, e
Quando choveu, não me molhei, pois
Não estava sozinho; e tu eras de neve,
E nem o sol te derreteu; ainda hoje eu
Lembro-me com alegria dos bons tempos
Do nosso amor.

Criancice (Modinha VI)

Eu nasci criança,
O tempo pode passar,
Os anos podem voar,
E tudo pode correr,
Nasci criança
E criança vou morrer;
Se todo mundo fosse criança,
Que alegria,
Que explosão de risos,
Escutaríamos a
Toda hora,
Como se fosse uma música,
A mexer de leve
Com os nossos ouvidos;
É preciso saber,
Para ser igual
A uma criança;
Que não vê maldades,
Sabe olhar para as coisas,
E vê beleza em tudo;
Sou uma criança,
Sempre serei criança,
E não há
Nada mais bonito,
Do que uma criança feliz;
E quero ser feliz,
Quero ser criança,
Quero ser bonito,
Mas quero que
Minha beleza,
Venha do fundo,
Da minha alma
Infantil.

Uma vida (Modinha V)

Uma vida para muitas pessoas não é nada,
Mas, estão enganados; uma vida sem amor,
É sempre uma vida, imagine uma vida com
Amor, e que bom seria se todas as vidas do
Mundo tivessem amor; mas por nada eles
Chegam à conclusão, que só o amor é a razão;
É por isso que muitos idiotas saem por aí a
Quebrarem a cara pelo mundo a fora; a falar
Que não têm valor e nem são capazes de fazer
O bem, viver em harmonia e irmandade com
Os seus; o que faltava para esses idiotas era
Compreensão, amor puro, muito amor; é isso
Que falta e precisamos; uma vida sentada
Num banco, banco de prisão, a querer liberdade,
E talvez a se arrepender dos atos que fez, mas
Para muitos, essa vida não presta, tem que viver
Na prisão, longe do mundo, longe da vida, sem
Amor e calor ou uma palavra de apoio; talvez
Até choram em silêncio, mas choram; vamos
Nos unir e levar amor a essas vidas fracas que
Não o sabem encontrar, por que estão sempre
Sozinhas, e não olham o caminho, e caem no
Abismo; uma vida sem amor num abismo,
Sem fundo e sem cor: não deixemos.

Olha (Modinha IV)

Olha o sol, o mar, o céu, o ar: que vida,
Que beleza e que amor eles têm para dar;
Olha a criança, o sorriso, e a cor brilhante,
A querer nos devorar; veja as borboletas,
E os pássaros, não te dão coragem de viver,
Então não sabes olhar, ver as coisas, as
Árvores; sinta o cheiro doce, o orvalho a
Te molhar a pele, e o vento leve a te acaríciar
O corpo; olha a vida que tem em tudo, olha o
Amor, que tudo quer dar, e também quer
Receber; olha a mulher, que coisa linda, e só
De pensar em ter uma mulher, e saber que
Será so minha, e que poderei vê-la todo dia,
Sinto vontade de viver.

O amor (Modinha III)

O amor excede e é profundo,
Supera tudo em um segundo,
Acaba a crise, e acaba a guera,
O amor encerra em eterna paz e
Alivia a dureza do caminho, torna
Mais leve a vida da gente, ao
Aumentar os dias de vida, acaba
A dor, acaba o sofrer, deixa o
Amor arder; o amor excede, e é
Agudo, arde como o fogo, e
Erradia tudo, ensina o que é bom,
Transforma o coração reprimido,
Abre qualquer boca em um sorriso;
Faz cantar, e a quem cai, ajuda a
Levantar; o amor explode com uma
Potência que nem a bomba atômica
Tem igual; faça amor, é bom, e vai
Ajudar a não sentir o mal.

Uma canção (Modinha II)

Eu vou fazer uma canção bonita e diferente,
Que sirva para alegrar a vida da gente,
E fazer um novo amor, com o brilho do sol
E a pureza da flor; e inventar uma outra paz,
Que seja capaz de acabar com a guerra; e
Vou ser um novo ser, que todo mundo possa
Ver, o puro amor irradiador em minha alma;
E então, cantar a linda canção, que acabei de
Inventar, para quem sabe ouvir e sabe entender,
O que vou dizer, pois o silêncio será completo
E ficarei perplexo e boquiaberto com tanta
Beleza que vai me elevar, e me deixar solto
No ar, no novo modo de pensar, para que o
Pensamento tenha verdadeira liberdade de voar.

Quem quiser (Modinha)

Quem quiser na vida subir,
É preciso ter amor;
E quem quiser na vida vencer,
É preciso saber viver;

Quem quiser na vida ser alguém,
É preciso fazer o bem;
E na vida não chorar,
O bom é saber cantar;

E sorrir tem que florir e não sofrer,
Saber olhar, e ver, para ser feliz;
E para ter paz, deixar a guerra
Para atrás;

Mas quem quiser ao mundo ajudar,
O certo é saber sonhar;
E o sonho realizar; e para não ter dor,
Fazer tudo com profundo amor.

Olhai o tempo; BH, 0240402011.

Jesus ensinava: olhai os lírios do vale;
Eu ensino: olhai o tempo; dai tempo
Ao tempo; isso é sabedoria, fica mais
Fácil a vida, e a vitória não será
Vencida; olhai o tempo da janela, da
Torre da igreja, da cerca, da cancela,
Da chancela, enquanto é tempo, pois
Somos nós que passamos; o tempo existe
Há bilhões de tempos, e nós nem sabemos
Se existimos ainda, e talvez, nem saibamos
Existir; olho o tempo e pergunto: quantos
Beijos terei que dar para ser alguém?
Quantas carícias terei que fazer em
Sobrancelhas para existir de fato? o tempo
Não nos faz de boato; ele pega nossa
Garupa, o levamos no cangote ou no
Cacaio; ele curva nossas costas, sem
Piedade, é nitiniano puro, verga
A mais viril coluna, tira a virilidade
Do mais potente, e acaba com a libido
Da nossa fonte e deixamos de ser; e
Ele continua, domina a todos, mas,
Mesmo assim, eu gosto dele, olho para o
Tempo, e o quero em minha companhia,
Quero-o junto a mim, lado a lado,
Carrego-o nos ombros, para onde
Eu for; levo-o nos braços, e não
Consigo abraçá-lo, não consigo nem
Segurá-lo, e nada posso fazer para
Prendê-lo num aconchego; aí, vou aí, e
Bebo todas, e depois ai, o tempo deixa-me
Embriagado também, com todas as
Dores, qual Drummond, com todos os
Sentimentos do Carlos, e quero imitar
Os dois, o Carlos e o tempo; mas,
Quem sou eu, ninguém sei bem
Que sou, o tempo não deixa, ele
Quer enterrar-me nas suas obras,
Quer emoldurar-me, e em confronto
Com ele, não duro um dia, quanto mais
Uma eternidade; e o tempo é eterno;
Olhai-o enquanto ele para nesta tarde de quintal.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Salmo ao deus desconhecido; BH, 0220402011.

Este salmo vai para o deus desconhecido,
Pois o Deus conhecido, nós já sabemos tudo
Dele, e Ele sabe tudo de nós; e o deus
Desconhecido, nem temos consciência
De que ele seja deus, se está vivo,
Ou se está morto; mas este salmo
É para ele , e para todos aqueles esqueletos
E caveiras enterrados antes da pré-história,
Esquecidos, e que só são incomodados,
Quando algum arqueólogo os desenterram
Para as nossas luzes ou trevas; Nietzsche já
Fez uma oração ao deus desconhecido; e o
Saramago fez outra aos deuses sem fieis; eu
Faço este salmo ao deus desconhecido, mas
Sem muita ênfase, sem muita questão de querer
Conhecê-lo, como penso que ele também não
Se move para ser conhecido; prefere ficar lá
No seu escombro, no manto a espiar pelo seu
Retrovisor, para ver se enxerga alguma sombra
Na escuridão, pois, apesar de ser dia, e com o
Sol quente, é penumbra a habitação predileta, o
Latejar vegetativo, e a única luz que o alimenta, são
Os spots, os reflexos dos flashes, as luzes dos
Holofotes, dos faróis, que cegam mais do que
Iluminam; e são nestas parcas palavras, este
Salmo, nestas pobres e profanas letras, para
Esse deus pobre, sem céu e sem inferno, sem
Vida e sem morte; este salmo para esse deus
Desconhecido, que não nos absolve e também
Não nos condena; não nos pede penitência,
Sacrifícios, derramamento de sangue, dízimos,
Ofertas, cultos, orações, louvores, nada, não
Nos pede absolutamente nada: nem alma e nem
Espírito; só o silêncio das nossas vozes, os
Vazios das nossas cabeças e o endurecimento de
Nossos corações, e o embotamento de nossos
Sentidos e sentimentos hipócritas: Israel mata
Palestinos e balança a cabeça de Leviatã,
Diante do Muro das Lamentações, amém.

Estou só; BH, 0220402011.

Estou só e não sabem que estou só, e
Não sabem que quero estar sozinho, e
Não sei para que fazem tanta questão,
De incluírem-me em algum contexto,
Se estou fora de todos os contextos;
Não me incluam em nenhuma tese;
E para que querem que eu os
Inclua em alguma tese? se não
Sei teorias, não defendo teorias;
Para que querem teorias? deixo
As teorias para quem serve; para
Mim não serve nada e não
Sirvam-me de nada; não
Quero ser servido e nem faço
Questão de ser servido, ouviram,
Ou querem que eu grite bem
Alto? mas não vou gritar bem alto;
Vejam aquelas folhas a balançarem
Ali pelo vento; falarei assim, tal
Qual o vento fala com aquelas folhas;
Com as roupas nos varais e com
As palhas espalhadas nos quintais;
Com o cisco levantado junto com
As poeiras movidas pelo abanar das
Asas das moscas e dos mosquitos,
Que infestam as toalhas e as mesas,
Os restos das refeições e os olhos
Remelentos das crianças de aldeias
Africanas ou das nossas tabas indígenas;
Nas nossas reservas invadidas e
Desrespeitadas, cujas terras são griladas;
E o poder público, por não ser
Incomodado, e a justiça, por não ser
Acionada, cruzam os braços, e inda
Querem que eu esteja com eles; eu que
Quero estar distante deles; eu que
Quero estar justamente com aqueles
Que eles não estão com eles; quero
Estar justamente com os que eles
Desprezam e ignoram e tratam
Com toda indiferença.

Beatles, Drive my car; BH, 0270402011; ouçam, cantem, dancem.





Tom: D

D7/9+                               G
Asked the girl what she wanted to be
D7/9+               G
She said baby, can't you see
D7/9+                       G
I wanna be a famous star on the screen
       A
But you can do somthing in between
Bm                               G
Baby you can drive my car
Bm                            G
Yes, I'm gonna be a star
Bm                                 G
Baby you can drive my car
          A                    D      A
And maybe I'II love you
D7/9+                             G
I told that girl that my prospect were good
D7/9+                    G
She said baby it's understood
D7/9+                            G
Working for peanuts is all very fine
    A
But I can show you a better time
  Bm
Baby you can drive my car
Bm                           G
Yes, I'm gonna be a star
Bm                                G
Baby you can drive my car
          A                  D        A
And maybe I'II love you
A                           D
Bip, bip, bip, bip, yeh
D7/9+                             G
I told that girl I could star right away
D7/9+                                      G
She said listen, baby I got something to say
D7/9+                      G
I got no car and it's breaking my heart
     A
But I found a driver and that's start
  Bm                               G
Baby you can drive my car
Bm                           G
Yes, I'm gonna be a star
A
Bip, bip, bip, bip, yeh

A morte; BH, 0250402011.

A morte faz parte da vida,
Uns vão no nosso lugar e
Depois nós vamos no lugar de
Uns; mas se não preservarmos
E nem respeitarmos o meio
Ambiente, todos vamos de uma
Vez só; e não restará ninguém
Para cupar o nosso lugar; com
O fim das árvores, com o fim
Das águas, virá o fim do ar, e
Os pulmões secarão, e a Terra
Vagará desabitada, no planeta
Só pedra, e nada mais; isso
Está para ser contado, agora, pois,
Na época não estará um para
Testemunha, nem as de Jeová;
A hora é de acordar, e renovar
O amparo à natureza, renovar
A proteção a quem nos garantirá
No nosso futuro tão incerto.

Senador Roberto Requião; BH, 0250402011.

Lamentável a atitude do
Senador Roberto Requião,
Que roubou o aparelho de
Gravação de entrevistas, do
Repórter da Band TV; fez-me
Lembrar do assombroso e tão
Famigerado Antônio Carlos
Magalhães, o de triste lembrança
Toninho Malvadeza, que governava
A Bahia com mão de ferro, onde nem
Repórter e nem a liberdade de imprensa
Tinham vez; e dentro do território da
Bahia, ninguém tinha a coragem de falar
Do Toninho Malvadeza; nem os novos
Baianos, nem os doces bárbaros ou os
Deslumbrados do axé; se falassem o que
Não fosse do agrado do ACM, corriam o
Risco de perder a vida e de encontrar a
Morte; eu nem me lembrava mais desse
Toninho, mas, a atitude monstruosa do
Requião, me traz de volta à memória,
Essa figura desprezível, desabonadora
Para o Brasil e para a Bahia, o que foi o
Malvadeza, e o que estar a ser o Requião;
Mas no Brasil, com esse Congresso tão
Mal representado, que faz até parecer que,
Quem foi eleito pelo voto do povo, tem
Saudade da ditadura; vergonhoso senhor
Senador Roberto Requião; o Paraná,
Estado tão moderno e avançado, não
Merece do senhor, práticas brutais; e se
Recebes a aposentadoria como ex-governador,
Mais vergonhoso ainda; é daí que vem a falta
De saúde, educação e segurança do povo.

Antônio Nobre, Poentes de França ; BH, 0260402011.

 - Ó Sol! ó Sol! ó Sol! poente de vinho velho!
Enche o meu copo de S. Graal (deu-me a balada...)
Ó Sol da Normandia! Ocidente vermelho,
Tal o circo andaluz depois de uma toirada!

 - Vós sois estrangeiros, vós sois estrangeiros,
Ó poentes de França! não vos amo, não!

 - Ó Sol, cautela! já a noite se avizinha,
O Padre-Oceano vai, em breve, comungar:
Ó hóstia vesperal de vermelha farinha,
Que o bom Moleiro mói, no seu moinho do Ar!

Ó Sol, às Trindades, atrás dos pinheiros,
A hora em que passam branquinhos moleiros,
Levando farinha pra cozer o pão!

Ó fôrca do Sol-pôr! Ó Inferno de Dante!
Açougue d'astros! ó sabat de feiticeiras!
Ó Sol ensanguentado! ó cabeça falante,
Que o funãmbulo Poente anda a mostrar nas feiras...

 - Que paz pelo Mundo, nessa hora ditosa!
Ó poentes de França! não vos amo, não!

 - Arco-da-Velha, a rir risos de sete côres!
Ó Lua na ascensão! Ó Sol! ó Sol! ó Sol!
Cabeça de Iscariote, entre águias e condores!
Ó cabeça de Cristo, impressa no lençol!

Que paz pelo Mundo nessa hora saudosa
Quando fecha a lojinha da Sra. Rosa,
Quando vem das sachas o Sr. João...

 - Ó Sol! ó Sol! Titã dêste bloco da Terra!
Ó Sol em sangue que ainda pula e arde e cintila!
Ó bala de canhão, tu vens dalguma guerra:
Varaste os corações dum exército em fila!

 - Ó hora em que as águas rebentam das minas...
Ó poentes de França! não vos amo, não!

 - Ó poente verde-mar! ó pôr-do-Sol de azeite!
Ó longes de trovoada! ó Céu dos ventos suis!
Vaca do Ar, a mugir crepúsculos de leite
E roxos e cardeais e amarelos e azuis!

 - Ó hora em que passam môças e meninas
Que, em tardes de Maio, vão às Ursulinas,
Com rosas nos seios e um livro na mão!

 - Ó Sol! ó Sol! Trágico, aflito, doido, venho
À tua saúde erguer a minha taça ardente!
Meus grandes olhos são dois bêbados, e tenho
Delirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

 - Eu amo os poentes, mas sem agonias,
Ó poentes de França! não vos amo, não!

 - Adeus, ó Sol! chegou a Noite na fragata,
À tua porta os Marinheiros vão bater:
Lá vejo os astros por seus cálices de prata,
Na Taverna do Ocaso, a beber, a beber.

Ó céus tísicos, cuspindo em bacias!
Ó céus como escarros, às Ave-Marias!
Ó poentes de França! não vos amo, não!

                                                               (Paris, 1891.)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Gonçalves Dias, Leito de Folhas Verdes; BH, 0260402011.

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as fôlhas,
Já nos cimos dos bosques rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de fôlhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flôres.

Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.

Brilha a lua no céu, brilham estrêlas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flor que desabrocha ao romper d'alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.

Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive, és meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arazóia na cinta me apertam.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flôres,
Melhor perfume ao pé da noite exala!

Não me escutas, Jatir! nem tardo acordes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as fôlhas!

Mário Quintana, Da Paginação; BH, 0260402011.

Os livros de poemas devem ter margens largas e
Muitas páginas em branco e suficientes clarões nas páginas
Impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos
 - Gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores,
Luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças,
Estrelas - que passarão também a fazer parte dos poemas.

Paul Éluard, A Curva de teus Olhos; BH, 0260402011.

Laça-me o coração a curva de teus olhos,
Um grito de dança e doçura,
Berço noturno e firme, auréola do tempo,
E se já não sei mais o que foi a minha vida
É que teus olhos não me viram no passado.

Folha de luz, musgo de orvalho,
Ervas do tempo, risos perfumados,
Asas cobrindo o mundo de clarões,
Barcos cheios do céu e do oceano,
Caçadores dos sons, manancial das cores,

Perfume que nasceu em ninho de alvoradas,
E que escondido está na palha das estrelas,
Como da inocência depende a luz
Depende o mundo de teus olhos puros
E em seu olhar corre meu sangue.

Charles Baudelaire, Spleen; BH, 0260402011.

Quando o céu carregado é uma tampa cobrindo
O espírito que geme em profunda aflição,
E do horizonte em derredor nos faz chegar,
Mais triste do que a noite, um soturno clarão;

Quando, úmida prisão a terra se tornou,
Onde a Esperança qual um morcego aturdido,
Com suas asas vai de encontro aos paredões
E a cabeça batendo em forro apodrecido;

Quando a chuva, seu rasto imenso desenrola
E de vasta enxovia imita a sua grade,
E muda profusão de sórdidas aranhas,
Tecendo sua teia, os cérebros invade,

Se agitam de repente enfurecidos sinos
E mandam para o céu um bramido estridente,
Lembrando espiritos errantes e sem pátria
Que se põem a chorar, gemer teimosamente.

 - E um longo funeral, sem tambor e sem música,
Andando devagar, me invade o coração;
Triste, a Esperança chora, enquanto a Angústia planta
No meu crânio, cruel, seu negro pavilhão.

Victor Hugo, A Festa de Teresa; BH, 0260402011.

...Veio a noite, o silêncio;
As tochas se apagaram;
Na escuridão do bosque as fontes se queixaram;
Na treva, o rouxinol, em seu ninho abrigado,
Cantou como um poeta e como um namorado.
Cada um se dispersou sob as ramas frondosas,
As loucas a sorrir, puxando as cautelosas;
E vão, em direção das sombras, os amantes;
Como num sonho, se pertubam, hesitantes,
Aos poucos percebendo interferir na mente,
Na conversa furtiva, em cada olhar ardente,
Nos sentidos, no peito e na mole razão,
O luar azul que iluminava a imensidão.

Babilak Bah, Dom; BH, 0260402011.

Boneco de barro,
Com lágrimas de menino.
Intui a criação do som
Proveniente da queda d'água.
Alimenta a avidez das letras
Contidas nas partituras dos rouxinóis.
Girassóis abrem um canto de pétalas
No coração ausente da loucura oculta

Pássaros tecem parábolas
Na literatura das águas.

Eça de Queirós, Um Por de Sol; BH, 0260402011.

A tarde descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem...
Do lado do mar, subia uma maravilhosa cor de ouro pálido, que ia no
Alto diluir o azul e lhe dava um branco indeciso e opalino, um tom de
Desmaio doce, e o arvoredo cobria-se todo de uma tinta loura, delicada e Dormente.
Nenhum contorno se movia, como na imobilidade de um êxtase.
E as casas voltadas para o poente, com uma ou outra janela
Acesa em brasa, os cimos redondos das árvores apinhadas, descendo a
Serra numa espessa debandada para o vale, tudo parecia ficar de repente
Parado, num recolhimento melancólico e grave, olhando a partida do sol,
Que mergulhava lentamente no mar.

Glauber Rocha, Armas e Povo, Revolução dos Cravos; BH, 0260402011; assistam.

Álvaro de Campos/Fernando Pesssoa, Ode Marcial; BH, 0250402011.

                                                                                                  (A Raul Leal)

I

Clarins na noite,
Clarins na noite,
Clarins subitamente distintos na noite...

(É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?)

O que é que estremece de diverso pela erva e nas almas?
O que é que vai alterar e já lá longe se altera -
Na distância, no futuro, na angústia - não se sabe onde -?

Clarins na noite,
Clarin... na noite,
Clari-i-i-i-ins...

É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
E de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.

Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
São uma grande sombra - conjunto de sombras pegadas que mexe na noite.
Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes,
E o coração como a terra estremece duas vezes também.

Vêm do fundo do mundo,
Vêm do abismo das coisas,
Vêm de onde partem as leis que governam tudo;
Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres,
Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer,
E só a guerra e o mal são dentro e fora do mundo.

Hela-hô-hôôô... helahô-hôôôôô......

                                                                                                                         2/8/1914

II

O#h¬

Ruído longínquo e próximo não sei por quê
Da guerra europeia...
Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-às, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora?
Que amos saúdas agora
Qual sol de sangue no azul pálido matutino?
Por que atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada noturna
Donde tiram o ponto-de-apoio

E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não há luz sobre as indecisões...

Deus seja conosco...
Chora na noite a Senhora de Misericórdia,
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo

Deus seja conosco no céu e na terra,
Ó Deus Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja conosco e, não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trêmulo e frio na noite profunda...
E o quê?
Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre o quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins subitamente mais perto na Noite...
O Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, por que caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé de quem, clarins anunciadores de quê?
Títiro, a tocar flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do atual e do futuro,

Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Títiro a tocar flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri...
Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila...
Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...

Oh o maior horror de terem cessado os clarins,
Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento
Nesta profunda palidez dos que mataram?
Quem é que vem?
O que se vai dar?
Quem começa a soluçar na calma noite intranquila,
Meu irmão?
A irmã de quem?
Ó anos de infância
Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes
E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!...

Choque de cavaleiros onde?
Artilharia, onde, onde, onde?
Ó dor da indecisão com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas...
Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens...
Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos...

(Lágrimas nas tuas mãos
E plácido o teu olhar
E tu, amor, és uma realidade também...
Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer...
E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria
E a incerteza e o terror
Coisas, meras coisas, nada senão coisas sem aonde, mas que percebemos

Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha
E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas
E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...)

A guerra, a guera, a guerra realmente.
Excessivamente aqui, horror, a guerra real...
Com a sua realidade de gente que vive realmente,
Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real
E as suas consequências, não coisas contadas em livros,
Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,
E o sol também real sobre a terra também real
Reais em ato e a mesma merda no meio disto tudo!

Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,
E os sons florescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria,
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...

O corpo...
E os outros corpos não muito diferentes deste,
A morte...
E o contrário disso tudo é a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado, não me mexo e sofro.

III

Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa marcha triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,

Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.
E tudo é uma poeira incerta, uma nuvem de gente anônima
Que o vento da estratégia levanta em formas diversas,
E em ondas sopra entre os meus olhos atentos
E o Sol da verdade eterna, e a encobre sinistramente.

Marcha triunfal, onde a um tempo e não a um tampo,
Onde numa simultaneidade por transparências uns de outros,
Surgem, aparecem, aglomeram-se em minha consciência,
Os guerreiros de todos os tempos, os soldados de todas as raças,
A couraças de todas as origens,
As armas brancas de todas as forjas,
As hostes compostas de usos marciais de todos os exércitos.

IV

A Guerra!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
As civilizações de todos os tempos e lugares...
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quadras
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo,
Passam...
Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E só os carros passam, passam - cessam depois para nós mesmos
Vejo-os e o meu espanto nem se sente calmo nem interessado,
Nem os vê nem os deixa de ver,
E eles passam por mim como uma sombra pelas águas.

Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra,
A fúria eterna e irremediável dos combates
Os mortos sempre a mesma misteriosa morte - o corpo no chão ( e o que é o
Mundo, afinal, e aonde?)
Os feridos gemendo do mesmo modo em corpos os mesmos
E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo!

V

Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras
Dos grandes olhos incompletos dos arcos das pontes
Enormes escaladas medievais dos altos muros do castelo
(Luzem como escamas os aços dos elmos e das couraças)
E os escudos deitados clamam como goelas fumegantes dos que assaltam
E o súbito desabrochar aéreo das grandes flores amarelas e violentas das granadas.
(Onde o teu cavalo pôs a pata, Átila, torna a crescer erva
E tudo renasce e a vida da natureza cobre
O que fica das conquistas)
Antenas de ferro - capacetes em bico - de Bismarck

VI

As mortes, o ruído, as violações, o sangue, o brilho das baionetas...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...

VII

Inúmero rio sem água - só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,

E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogava os velhos,

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.

Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chora a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trêmulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que não a tive de ninguém!

VIII

Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha?
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja da mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?

Se eu tirar com uma pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto

Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequena alegria legítima da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...

Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo,

IX

Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha...
Dlôn - ôn - ôn - ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn - ôn - ôn - ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn - ôn - ôn - ôn...
Sete vezes sete murcharão as flores no jardim
Dlôn - ôn - ôn - ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anônimo
Dlôn - ôn - ôn - ôn...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos, com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn - dlôn - dlôn - dlôn - dlôn - dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cômoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France.

Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn - dlôn...
Dlón - dlôn - dlôn - dlôn...
Dlôn - dlôn - dlôn - dlôn...
Dlôn - dlôn - dlôn - dlôn - dlôn - dlôn...

X

Ai de ti, ai de ti, ai de nós!
Por detrás destas leis inflexíveis e ferozes da vida
Haverá alguma ternura divina que compense isto tudo?

Ainda tens o berço dele a um canto, em casa...
Ainda tens guardados os fatinhos dele, de pequeno...
Ainda tens numa gaveta alguns brinquedos partidos...
Agora, sim, agora, vai olhá-los e chorar sobre eles...
Não sabes onde é a sepultura do teu filho...
Foi o nº qualquer coisa do regimento um tal,
Morreu lá pra Mame em qualquer parte...
Morreu...
O filho que tu tiveste ao peito, que amamentaste e que criaste...
Que remexera no teu ventre...
O rapazote feito que dizia graças e tu rias tanto...
Agora ele é podridão...
Bastou em linha alemã
Um bocado de chumbo, do tamanho dum prego, e a tua vida é triste...
Receberás um prêmio do Estado.
Dirão que o teu filho foi um herói...

(Ninguém sabe, de resto, se ele foi herói ou não)
É um anônimo pra a história...
"Morreram 20 mil homens na batalha tal."
Ele era um deles...
E o teu coração de mãe sangrou tanto por esse herói de que a história não dirá nada...
O acontecimento mais importante da guerra foi aquele para ti...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mário Quintana, Parece um Sonho...; BH, 0250402011.

"Parece um sonho que ela tenha morrido!"
Diziam todos... Sua viva imagem
Tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
Passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
E logo fosse regressar da viagem...
 - Até que em nosso coração dorido
A Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
Menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
"Parece um sonho que ela tenha vivido!"

                                                        1953

Nietzsche, Os maiores acontecimentos; BH, 0250402011.

Os maiores acontecimentos e os maiores pensamentos - mas os
Maiores pensamentos são os maiores acontecimentos - são os
Últimos a serem compreendidos: as gerações que lhes são
Contemporâneas não vivem esses acontecimentos, vivem ao lado.
Aqui ocorre algo de análogo com o que se observa nos astros.
A luz das estrelas mais distantes chega em último lugar até os
Homens; e antes de sua chegada, os homens negam que haja lá... estrelas.
"Quantos séculos necessita um espírito para ser compreendido?" - isso
Também é uma medida, um meio de criar uma hierarquia e uma etiqueta,
Que faz falta: para o espírito e para a estrela.

Nietzsche, Os Tiranos do Espírito; BH, 0250402011.

A marcha da ciência já não é contrariada, como o foi
Durante muito tempo, pelo fato acidental de que o homem viva
Aproximadamente setenta anos.
Outrora se pretendia chegar ao topo do conhecimento durante esse
Espaço de tempo e os métodos de conhecimento eram apreciados
Em função desse desejo universal.
As pequenas questões e experiências especiais eram consideradas
Desprezáveis, buscava-se o caminho mais curto, acreditava-se, uma
Vez que todo esse mundo terreno parecia organizado em função do
Homem, que a perceptibilidade das coisas estava adaptada a uma
Medida humana do tempo.
Tudo resolver de imediato e com uma só palavra - esse era o desejo
Secreto: o problema era representado sob o aspecto do nó górdio ou
Do ovo de Colombo; estava-se persuadido que era possível, no domínio
Do conhecimento, atingir o objetivo, à maneira de Alexandre ou de
Colombo e elucidar todas as questões com uma só resposta.
"Há um enigma a resolver": assim é que a vida se apresentava aos olhos
Do filósofo; era preciso primeiro encontrar o enigma e condensar o
Problema do mundo na fórmula mais simples.
A ambição sem limites e a alegria de ser o "decifrador do mundo" preenchiam
Os sonhos do pensador; nada lhe parecia valer a pena neste mundo se não
Fosse encontrar o meio de tudo conduzir a bom termo para ele!
A filosofia era assim uma espécie de luta suprema pela tirania do espírito -
Ninguém duvidava que esta não fosse reservada a alguém muito feliz, sutil,
Inventivo, audacioso e poderoso - a um só! - e muitos, o último entre eles
Shopenhauer, imaginaram que eram esse só o único.
 - Disso resulta que, em resumo, a ciência ficou até agora para trás em
Consequência da estreiteza moral de seus discípulos e que doravante é preciso
Entregar-se a ela com uma ideia diretriz mais elevada e mais generosa.
"Que importa eu!"
 - Isso é que se encontra sobre a porta dos pensadores futuros.

Tomás Antônio Gonzaga, Lira VII; BH, 0250402011.

Vou retratar a Marília,
A Marília, meus amôres;
Porém como? se eu não vejo
Quem me empreste as finas côres:
Dar-mas a terra não pode;
Não, que a sua côr mimosa
Vence o lírio, vence a rosa,
O jasmim, e as outras flôres.
Ah! socorre, Amor, socorre
Ao mais grato empenho meu!
Voa sôbre os Astros, voa,
Traz-me as tintas do Céu.

Mas não se esmoreça logo;
Busquemos um pouco mais;
Nos mares talvez se encontrem
Côres, que sejam iguais.
Porém não, que em paralelo
Da minha Ninfa adorada
Pérolas não valem nada,
E nada valem corais.
Ah! socorre, Amor, socorre
Ao mais grato empenho meu!
Voa sôbre os Astros, voa,
Traz-me as tintas do Céu.

Só no Céu achar-se podem
Tais belezas como aquelas,
Que Marília tem nos olhos,
E que tem nas faces belas.
Mas às faces graciosas,
Aos negros olhos, que matam,
Não imitam, não retratam
Nem Auroras, nem Estrêlas.
Ah! socorre, Amor, socorre
Ao mais grato empenho meu!
Voa sôbre os Astros, voa,
Traz-me as tintas do Céu.

Entremos, Amor, entremos,
Entremos na mesma Esfera,
Venha Palas, venha Juno,
Venha a Deusa de Citera.
Porém não, que se Marília
No certame antigo entrasse,
Bem que a Páris não peitasse,
A tôdas as três vencera.
Vai-te, Amor, em vão socorres
Ao mais grato empenho meu:
Para forma-lhe o retrato
Não bastam tintas do Céu.

Manuel Bandeira, Voz de Fora; BH, 0250402011.

Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...

Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!

A asa do vento aflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das noites cheirosas
O aroma dos mirtais nos céus escampos.

Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs  na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das coisas...

                                                  Teresópolis, 1906