terça-feira, 29 de novembro de 2022

nem sei escrever mais nada não

nem sei escrever mais nada não
era daquele que pensava que
sabia escrever alguma coisa
toda vez que pegava a esferográfica
só deixava registos rupestres sobre
as paredes cavernosas dos escombros
os caracteres não eram gerados pelo fogo
logo eram apagados pelo tempo
espalhados pelo vento
feitos cinzas de restos mortais
de antepassados
de ancestrais
esquecidos em portais
das encruzilhadas da história
então via nas metáforas imperfeitas
dos descendentes que nada sabia
pior do que um sócrates piorado
envenenava-me com a cicuta ardente
nos bares dos baixos das ruas de cantos
ruas de fundos
becos imundos com os
seres mais baixos do submundo subterrâneo
da sociedade apodrecida
tinha um alento
ouvia a voz dos pingos da chuva nas folhas
das plantas
ouvia a voz da aragem
farfalhar a folhagem
a sussurrar na ramagem
linguagens estranhas só entendidas
pelos poetas
fazedores de poemas infinitos
orações eternais
poesias imortais
tudo por mais sujo que seja
se cala diante duma chuva
numa inexplicável reverência
sem limites
que é como se passasse diante
dum monte
há de se elevar o semblante
além das paralelas numa visão de olhar pineal
numa ausculta de sabedoria
engendrada no coração
na força cardíaca intrínseca
que move a razão

BH, 0160402019; Publicado: BH, 02901102022

a obsessão é cega a faca é amolada

a obsessão é cega a faca é amolada
é maior do que a fé que é menor do que
um grão de moscada
corta mais do que o facão
a obsessão sufoca o poeta
afoga o bardo
asfixia o aedo pois todos querem
satisfazer a obsessão
a obsessão quando não é atendida
deprime com depressão deprimente
derruba os assemelhados
mata os semelhantes primatas
os dessemelhantes que
não entendem o desassossego
desrazão
não atendem os subconscientes dos
cérberos que habitam os subterrâneos dos
cérebros
os labirintos que ligavam os
continentes extintos
a vida em exoplanetas
os brilhos das estrelas que morreram em
agonia que quanto mais agonizavam mais
morriam de angústia pela luz perdida em vão
que mesmo quando era captada pelo
buraco negro
transformada em energia
energia era desperdiçada no espaço do
universo pois se essa energia fosse
transformada em poesia
o universo se expandiria cada vez mais
a luz entra em obsessão
a energia entra em obsessão
o universo entra em obsessão
o caos entra em obsessão
pelo fogo da euforia que consome um ser que
escreve poesia com os habitantes da fornalha
que ardia que nem chamuscados foram pelo
fogo aumentando sete vezes que os consumia

BH, 0270402019; Publicado: BH, 02901102022

o que que posso fazer se não sei o que fazer

o que que posso fazer se não sei o que fazer
quem sabe o que fazer não faz
nem ensina a quem não sabe
quer aprender
alguém urgentemente que não sei quem
precisa fazer alguma coisa para
resgatar a dignidade da nação ferida prostrada
humilhada da forma  mais indigna que já se viu
olho as forças armadas
sinto vergonha
medo
nojo
rancor
olho as polícias federal
militar
civil
guarda municipal
tenho horror
terror
são assassinos covardes em série que
não sei como homens que
se dizem com honras servem em tais
corporações que
só perseguem assassinam pretos pobres
ou moradores de áreas desprovidas
das condições do estado
humilham cidadãos
cidadãs
jovens sem esperança duma vida melhor
povo trabalhador brasileiro
a nação indignada brasileira precisam
dar as mãos para vencermos os desafios
do futuro
ou o país não será de todos
ou o brasil só será da elite despudorada
ou da burguesia descarada
a raia miúda precisa ser incluída na sociedade
a raia miúda precisa de moradia de saúde
de alimentação
a ralé de educação
a raia miúda
a ralé precisam de cidadania de soberania
de dignidade
queiramos
ou não a raia miúda
a ralé também fazemos parte do rolê da nação
não podemos abrir mãos
do que é cláusula pétrea
da nossa sagrada constituição

BH, 0140602022; Publicado: BH, 02901102022

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

ainda bem que não tem o que fazer

ainda bem que não tem o que fazer
porque se tivesse alguma coisa para fazer
o que que iria fazer?
nunca soube fazer nada
nem o que os bichos fazem
cantar nadar trabalhar lutar brigar correr esconder viver
tudo que fazia o povo ria
debochava
cismava
estorvava
ficava com raiva
nem jogar pedra iguais aos moleques de rua
sabia jogar
nem bola de capotão
ou bola de meia
ou bolinha de gude
ou estilingue para matar passarinhos
ou armadilhas
arapucas
alçapões
tiravam-lhe o calção de pano de chão
no meio da rua
escondiam-lhe os chinelos
os cadernos
davam-lhe cascudos por tudo
morria afogado no rio de esgoto raso
tinha medo do escuro no claro
não passava rente ao muro do cemitério
passava cosido à parede das casas das putas
da zona para espiar pelas janelas indiscreto
corria de árvore assombrada
que era gameleira onde apareciam
assombrações no que era o maior pecado
da vida dum menino ter medo de árvores
na pura
santa ignorância
estupidez
matava passarinhos
espetava bundas de tanajuras
com a certeza de que não ia para o céu
com tanta ruindade que cometia
agora na rabugice da velhice
vive jogado pelos cantos
do cárcere privado
a pedir a deus perdões pelos pecados

BH, 0270202022; Publicado: BH, 02801102022

sábado, 26 de novembro de 2022

nunca ouviu um conselho do pai

nunca ouviu um conselho do pai
nem nunca ouviu conselho da mãe
pai quis ensinar inglês
colocação num serviço público federal
ou estadual
ou municipal
mãe quis ensinamentos de religião
não deu atenção
torceu o nariz
de frustração atrás de frustração
derrotas
mais derrotas
não tinha com que levar comida à boca dos filhos
a mulher seguiu à igreja
pegou com a fé a acreditar que
com os milagres do céu
a vida poderia mudar
a vida não mudou
nada mudou
todo dinheiro gastou
bebeu
cantou
bebeu mais
cantou mais
ficou para atrás
um peso morto
ou um empecilho
ou um problema atrás doutro
não arranjava soluções
não resolvia nada
não apresentava resoluções
não tinha sonhos
nem utopias
vivia na ilusão a iludir
os assemelhados
os semelhantes
opaco
obtuso
obscuro não entendia
ou interpretava o que lia
mal enxergava um palmo à frente do nariz
tropeçava nas próprias pernas bambas
arriscava o próprio corpo molenga
indolente era um estorvo
enchia o saco
puxava o saco
ninguém aguentava mais
tanta babação de ovo

BH, 060202022; Publicado: BH, 02601102022

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

nome do pobre é problema

nome do pobre é problema
nome do rico é felicidade
outro nome do pobre é fome
outro nome do rico é mesa farta
deus do pobre é deus dará
deus do rico é deus mercado
polícia do pobre é o teje preso
polícia do rico é em que posso ajudar ao
distinto cidadão?
sina do pobre é pagar imposto
sina do rico é a sonegação
outros nomes do pobre são beltrano
fulano
sicrano
outros nomes do rico são doutor senhor
cavalheiro magnata
por aí vai até nunca mais
pobre só tem deveres
rico só tem direitos
garantias
pobre até faz o bem sem olhar a quem
rico toma até de quem não tem bem
pobre só existe para existir o rico
rico existe para fazer o pobre não existir
pobre não tem nem sombra
água fresca
rico tem maracutaias
mordomias
burguesia
a elite
a plutocracia
pobre é bastardo
rico abastado
dai ao pobre o que é do pobre o nada
dai ao rico o que é do rico o tudo até o pobre
pobre sobrevive de esmolas
de restos
o rico vive de heranças
festanças
gastanças
vida do pobre é tempestade
vendaval
vida do rico é bonança
carnaval
pobre rói osso com a corda no pescoço
pobre é só trabalho sem diversão
rico ainda faz do pobre um bobão

BH, 060202022; Publicado: BH, 02501102022

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

vem de lá uma agulha de pedra

vem de lá uma agulha de pedra
que chegou num raio duma tempestade
de trovão
de tarde
a meninada ficou a imaginar
a decifrar
a conjecturar que
pedra era um raio
que o raio era uma pedra
que a pedra era uma agulha
cada um com uma pedrada
na cabeça rachada
que pedra
que nada
que raio
que nada
que agulha que nada
que meninada
que nada
que raio
parta num parto
a meninada encantada na enxurrada
que abria valas nas via
nos morros
nas encostas
as ruas enlameadas
os cachorros molhados
eletrizados arrepiados
a sacudir os pingos nos is
as galinhas nos poleiros
os galos nos terreiros
cada quintal um viveiro universal
com fauna
flora
mundo real a ser explorado
por expedições de fenícios a descobrir
riquezas egípcias que os tios traziam
de viagens ao nilo
ao mediterrâneo
às tumbas dos faraós
às pirâmides
suas assombrações embalsamadas
caravanas de camelos
dromedários com os tesouros que
ficaram guardados nos templos dos tempos
das cristaleiras
dos armários

BH, 0100802022; Publicado: BH, 02401102022

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

ai usas muitas letras muitas palavras aí

ai usas muitas letras muitas palavras aí
aí pareces até um mocorongo genocida que
disse uma vez que não gostava
nem lia livros pois livros eram muitos cheios
de muitas letras
de muitas palavras em páginas repletas
de coisas escritas aí
ai poderias escrever menos frases aí
ai que fazes da vida?
não custa nada perder um tempinho
bem devagar a ler umas laudas
escritas por um velho
que não tem mais nada a fazer na vida
a não ser cronicar
prosear aí
ai se diminuires os períodos
as sentenças
os versos
provérbios ninguém ficaria
tão cansado assim para ler uma poesia aí
ai teus pensamentos me doem
teus argumentos não têm fundamentos
teus fragmentos perderam filamentos
te tornam um balde vazio
ou uma moringa à míngua
ou uma jarra que mesmo vistosa uma negra
elegante não a equilibra na rudia
em cima da cabeça esbelta de rainha
de países mais nobres d'africa aí
ai mal consigo interpretar um haicai
ou um versículo bíblico 
ai imagina então uma parábola parabólica
cheia de metáforas
de linguagens
de discursos figurativos
iguais aos do maior poeta conhecido
jesus cristo aí ai

BH, 0170802022; Publicado: BH, 02301102022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

o coração é capenga só bate dum lado

o coração é capenga só bate dum lado
justamente para o lado de dentro que
é o lado aleijado
o coração é perneta só pula com
uma perna só a parecer um saci pererê
não é coração que suporta rojão
não aguenta um tranco bem dado
não sustenta um trampo para a sobrevivência
é um coração vagabundo de cachorro vira-latas
de cão sem pedigree
de gato que cruza estradas bêbado
de madrugada
é um coração vilão que qualquer puta
o leva pela mão
o arrasta nas sarjetas
nas valetas
nas valas a inferno aberto
nos guetos
nos esgotos esgotados
de tão coração escroto
se perde nas periferias
nas freguesias dos aglomerados das favelas
foge das polícias nas adjacências
para não ser mais um caso esquecido pelas
estatísticas
para não ser mais uma vez humilhado
ou enfim ser assassinado
é um coração de preto fujão desesperado
por que quer ser amado mas como
quer ser respeitado mas
o racismo estruturado
quer ser preservado mas
não tem alicerce
não tem constituição na construção
nasceu na destruição
nasceu na ruína
é um coração de doido doído dolorido
sem analgésico
não tem vacina
não tem remédio
só tem medo
não tem história
só uma herança maldita com engulhos
sacos sem blandícias
sem adornos
com confetes
serpentinas
nos bailes dos inferninhos
saco de pancadas
nas mãos dos leões de chácaras
volta ao jazigo moído
um olho roxo posto para fora
um nariz chato bem mais achatado
um beiço grosso bem mais engrossado
chora num canto um lixo amontoado

BH, 050502022; Publicado: BH, 02201102022

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

é uma guerra entre pai e eu

é uma guerra entre pai e eu
é uma guerra surda
é uma guerra cega
é uma guerra muda
em suma
é uma guerra fria
só não esquenta devido
a intervenção de mãe
eu pai não nascemos
um para o outro
sempre quando posso
quero pegá-lo à unha
quando não fica esperto
acaba por levar umas
outras
fico mais chato quando
aperta a depressão
fujo para o meu quarto escuro
isolo-me
não quero saber de nada
quem chega perto
acaba por levar um safanão do nada
sem dó
mãe é que é o elo
é como se fosse uma escrava minha
que me dá banhos
limpa os meus pés
corta minhas unhas resignada
como a mulher que lavou os pés de alguém
com as lágrimas
enxugou com os cabelos
achei até bonita essa colocação de submissão
uma coisa que não sou
é submisso
só se for com muita força
ou à base de sossega leão
fora disso o meu mundo não cai
sei que ninguém quer saber de mim
das minhas coisas mas
é por culpa de mim mesmo
é que não aceito presenças
nem carinhos
nem amor
ninguém tem consciência da minha existência
não conto nas estatísticas
também mando todo mundo se foder
por qualquer motivo
ou sem motivo não importam a ocasião
a motivação
às vezes até conforto-me quando capto por
alto que um tal de bolsonaro
é presidente do país
pelo que ouço falar do cara
parece que é pior do que sou
isso é um alívio para mim

BH, 0220502019; Publicado: BH, 01801102022

agora não vejo mais o sol

agora não vejo mais o sol
agora não vejo mais a lua
nem as estrelas
até júpiter
vênus
já sumiram das minhas madrugadas
quase manhãs de manhãzinhas
agora não posso mais ficar bêbado
como gostaria para parir poesias
todos os santos dias
os profanos também
agora são só dilemas
não posso mais dar vidas a poemas
é que o hormônio testosterona
não destila mais nos desfiles
dos desfiladeiros virginais
é que a adrenalina
não entra mais em erupção
a fazer pulsar o coração
e a libido esfriou
apagou o fogo do tesão
a brasa do tição que virou carvão
o carvão que era brasa virou cinza
agora jeremias é só lamentações
sem salmos de davi
sem profecias de absalão
penso que também
sem a longevidade de matusalém
nem oração para dizer amém
emparedado a degredado
ando descuidado desgarrado
fico mais calado mesmo sem estar
sob baioneta calada de baixo calão
ou de lâmina de facão mas
sem ter nada para falar ao sol
sem falar à lua
ou a vênus
ou a júpiter
só este boneco de defunto mudo
que perdeu a ternura
à boca voraz da sepultura
a querer devorar carne
em avançado estado de putrefação

BH, 030502022; Publicado: BH, 01801102022

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

de férias da vida porém faz frio às voltas da mesa da cozinha

de férias da vida porém faz frio às voltas da mesa da cozinha
luto contra os jogos mentais
as confabulações espirituais
busco confusões aleatórias
distantes da consciência
lá fora de mim o mundo vive
a chuva parou
só as vibrações naturais teimam em lembrar
que estou também vivo apesar de velho
alquebrado
faz tempo que não pego num livro
pergunto para quê?
tanta gente que pega em livros
levou um fascista ao poder
fico triste com esta alusão
um país que era de ordem progresso
referência de nação
dum dia para o outro
virou um país de desordem regresso
regredimos
ao fascismo literal
ao racismo estrutural
à homofobia genuína
elogios aos torturadores
louvações aos ditadores louvamos aos
misóginos
agressores de mulheres
crianças
compactuamos com os estupros
a pedofilia
a prostituição infantil
sem deixar de frequentar as igrejas católicas
evangélicas em convivência
conivência com esse lado sujo da humanidade
agora será um trabalho árduo
hercúleo para retirar os loucos
suas loucuras do comando da nação
onde estávamos com a cabeça?
quando o povo não pensa o país padece
pagará caro por este erro histórico
o de ficar do lado errado da história
já começaram a aparecer as falcatruas
as mentiras do clã oficial com suas corrupções de corrompidos
de corruptos corruptores
os tráficos de influências
os nepotismos cruzados
os ditos apoiadores de tais farsas
se veem no mato sem cachorro
não têm onde enfiar a cara
morrem de vergonha
de desgostos afogados nos esgotos por
tantos descalabros com o povo
principalmente o povo trabalhador brasileiro
que não merecia tantas tiranias vilanias

BH, 0160502019; Publicado: BH, 01701102022

quero viver pois viver para mim não é comer

quero viver pois viver para mim não é comer
nem beber pois viver para mim é escrever
no sarcófago é escrever nas masmorras
nos calabouços ou em qualquer outro lugar
no qual possa ser encontrado em liberdade
ou preso em correntezas marinhas
ou de cachoeiras de cataratas
ou em correntes de ar pois preciso viver
viver para mim é vasculhar letras
esmiuçar alfarrábios
remexer em alfabetos extintos de línguas
exterminadas
batear palavras de idiomas sobrenaturais
estranhos
quero o meu cadáver bem pesado
com o bojo recheado
com todos os órgãos sobrecarregados
inchados que os tanatólogos deixarão
em seus devidos lugares pois não quero meu
cadáver esvaziado como uma carcaça de
sucata envelhecida arcabouço vazio no vácuo
saberão que ali jaz era um poeta intacto
possuído por seus espíritos
possesso por seus demônios que
tanto o atormentaram em vida
nunca o deixaram ser feliz como uma criança
precisa da necessidade de ser feliz as infelicitamos
com certeza viverei nas minhas letras
minhas palavras me comporão
sobreviverei no meu resistente esqueleto
de marfim de elefante nobre
a minha caveira de diamantes raros
gargalhará da eternidade na cara dos mortos
que ficarão aqui pois não descansarei em paz
no infinito se não tive paz no finito
não quererei o descanso na posteridade
das minhas cinzas universais

BH, 0200502019; Publicado: BH, 01701102022

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

chego cá comigo aos sessenta sete anos

chego cá comigo aos sessenta sete anos
sozinho só a sós solitário me arrastei réptil
serpente sangue frio cobra víbora anfíbio
dinossauro tiranossauro-rex mamute
mastodonte urso pardo preto polar panda bicho
preguiça de estimação desde doutras estações
não vejo opções a não ser desprezar esses
sessenta sete setembros todos os outros
passados os que por acaso vierem a manter o
mesmo desprezo ignorância isolamento a
causar lamento noutras almas imprecações
noutras bocas xingamentos noutras línguas no
mais é o que é demais para um velho rabujo
sabujo mal cheiroso cheio de inhaca bodum
tiririca sebo nas juntas remelas nos olhos
melecas no nariz babas na boca aberta de
lábios pendentes sem dentes que não fecham
mais nem falam gentilezas vive sempre sebenta
sedenta com sede de aguardente cerveja
conhaque outros venenos mais que não pode
mais degustar de tantas que são as proibições
dos médicos dos artesões da saúde doutros
paramentos que querem resguardar os restos
de vida ou de morte do velho jumento rabugento

BH, 0100102022; Publicado: BH, 01601102022

no silêncio da sala do barracão

no silêncio da sala do barracão
não oiço nem os arroubos do meu coração
nem ausculto as equalizações do meu
organismo
os passos ao vento
as tosses
pigarros
escarros
os sons estrondosos das gargantas profundas
alheias dos semelhantes
só de muito distante me vem do além para o
aquém algum augúrio dum alguém
ou dalgum sabe-se lá quem se fantasma
ou ectoplasma se assombração
ou energúmeno se mentecapto
ou espectro dalguma entidade se imagem de anjo
ou de demônio se simulacro não sei
nem sei só movo a mão acorrentada
à está esferográfica
sangro de hemorragia em hemorragia
não estanco o sangue que é desperdiçado
pois não aparece nenhum vampiro desesperado
para aproveitar o sangue coagulado
se o terreno ainda fosse terreiro de terra
massapê
de terra nobre
fértil muitas pérolas raras germinariam à flor
do chão com tema
com lema
sem dilema
ou mistérios
sinistros
ou enigmas que
decifrações causariam mortes
infelicidades
cada gota de sangue seria dum poeta morto
cada flor vermelha seria duma poesia
cada pétala imortalizada seria dum poema
os fósseis resgatados das gavetas dos
tempos pré-históricos seriam relíquias nas
molduras nas paredes
nas pilastras
nos pilares do firmamento do universo
cada um com um silêncio novo de
catacumba de faraó em sarcófago de ouro maciço

BH, 0130102022; Publicado: BH, 01601102022

domingo, 13 de novembro de 2022

ainda devo uma rara obra-prima à humanidade

ainda devo uma rara obra-prima à humanidade
para também poder ser um ser humano
ainda devo uma obra de arte que supere
duma vez por todas as minhas malasartes
maus feitos
mazelas da vida sem vela
de bandeira em fralda
ainda devo
não nego
pago quando puder com uma bela arte para
superar todas as feiuras dos meus tempos
mais nada posso dizer enquanto não pagar
o ar que respiro
o azul do céu do firmamento que olho
a sombra da árvore na qual me assento
a água fresca do riacho no qual bebo
do ribeirão no qual me banho
do açude
do regato
da natureza que maltrato por ser reles
não ser real
por ser ralé anormal
não ser normal mas a poesia cobra de mim
todo dia o vento que me embala
me faz sentir vivo
animado na brisa
no sereno
no orvalho
na névoa
na neblina
poema me acorda com o sol
bate na minha cara
tapa no meu rosto é que sou um nó cego
só causo desgosto
augúrio
minhas premonições abstratas
minhas incoerências
um dia vou
não volto mais
não pago
universo levará a eternidade inteira
a falar mal de mim

BH, 070102022; Publicado: BH, 01301102022

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Pink Floyd - Animals (Full Album) 1977

será que poeta morre mesmo

será que poeta morre mesmo
ou será mais uma enganação do destino?
penso que o que morre não é o poeta
sim o bojo que é o habitat do poeta
o pote que quebra
a talha que racha
a moringa que se parte
o vaso que vaza
todo componente no qual o poeta está inserido morre
o poeta fica fendido no universo com o
alicerce de versos
o testamento com testemunho de versões
de poesias
de poemas que dão gemas no estatuto dos
sonetos de sonhos
ai aí vem um
fala thiago de melo morreu
é pouco
vem outro
fala thiago de melo morreu
ninguém diz que thiago de melo viveu
muito
vive muito mais ainda
ou estarei enganado?
ou será que poeta é menos
menor ainda
é engodo que qualquer coisa mata
qualquer mortezinha chega
abala a fortaleza do poeta?
o poeta é mero
mínimo
ou é superior à morte morta?
o poeta é universal
michelangelo pintou o céu no teto da capela sistina
poeta pinta o firmamento do céu
a cor preferida do poeta é o azul que é a cor
do infinito mas a palheta do poeta é o arco-íris
o pincel é de pestanas
de cílios de sobrancelhas
as telas do poeta são as pálpebras
o óleo é o sangue
a sociedade é a única que mata o poeta
a mídia também adora matar poetas em vida
as academias
os liceus
os ginásios
os colégios
assassinam poetas cotidianamente mas o
poeta teima em vida a latejar nas reverberações
a cavalgar raios de sol a se fazer de girassol a
se transformar em coisas inanimadas
sombrias
o poeta é uma assombração
que despreza o sobrenatural

BH, 0140102022; Publicado: BH, 01101102022

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

não há uma ressonância ou uma reverberação

não há uma ressonância ou uma reverberação
não há nenhum frêmito trêmulo
ou uma flâmula que sejam
não há um eco dum equalizador natural
ou duma resposta dum sobrenatural
não há uma resposta nem do vento
é só o vento a passar incólume entre as coisas
é só a folhagem a vibrar na ramagem
os galhos a balançar
os caules fenderem fendidos
a flor a murchar no fim da tarde
cada um tem um arroubo outro um augúrio
outrem um presságio ou um silêncio de morte
que acompanham os solitários na solidão
não se ouve um arrastar de cadeira
ou um assoar de nariz entupido
ou uma tosse mesmo singela
ou um escarro ou um arroto cavernosos
o domingo parece um morro morto
ao lado dum lago morto
ao longe há uns latidos de cachorros
é o que dizem meus ouvidos ensurdecidos
nas minhas vistas meninas desvirginadas
as manchas nas paisagens
cofio o queixo embranquecido
a cabeça nua já empoeirada que enganava
empoderada leve igual a uma nuvem de pluma
densa igual a uma treva abissínia ou um
toco de ébano abandonado numa esquina
cujos pensamentos abandonaram as moradias
evaporaram nas névoas das flacidezes
flatulências fumaças simulacros ondas
mentais que não encontram onde aportar
voltam vazias aos portos dos cais tais naus
há séculos à deriva em alto mar devido
a calmaria não descobrem continentes
nem fazem histórias das grandes navegações

BH, 0200502019; Publicado: BH, 01001102022