quinta-feira, 3 de novembro de 2022

vivia só às escondidas aos cantos recantos

vivia só às escondidas aos cantos recantos
a entrar pelos canos pois devia a alguns
faltava com a palavra a outros a mentir
para uns a fingir em demasia com falsidade
iludia aos amigos às vezes tinha sempre de
correr com vento em popa para não apanhar
dos mais revoltados de vez em quando ou
em muitas vezes chegava à casa arregaçado
de nariz ralado beiços inchados ossos
quebrados corpo sovado os restos de cacos
de dentes cuspidos ficava de molho para a
procela serenar o vendaval passar as
proezas caírem no esquecimento pois era
pior do que jumento só causava sofrimento
ouvia de todos os amigos assim não
aguento nem mais te defendo não te dou
mais nenhum sustento chega para lá com o
teu bodum vê se tomas um banho de
alecrim come umas folhas de hortelã
mastiga umas de boldo desopila o fígado
toma um chá de ervas de cidreira pelo
amor de deus procura uma igreja fica na
entrada não é possível que não arranjas
alguns trocados mas os mendigos que já
faziam ponto nas portas das igrejas já o
colocavam para correr aos sopapos ou às
bordoadas voltava de calças rasgadas pés
no chão sem um tostão aqui não bastião
que o ponto é meu que deus me deu vai
esmolar noutro lugar lá ia a chorar com a
barriga a roncar estômago a reclamar
mas se ganhava algum para comer a
alegria era tanta que esquecia da comida
da fome corria a beber para fazer da vida
a funesta elegia de cada dia

BH, 0270202022; Publicado: BH, 0301102022

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