segunda-feira, 7 de novembro de 2022

às vezes quero crescer

às vezes quero crescer
captar uma frase celestial
ou divinal
ou universal
às vezes quero agigantar-me
gerar uma obra abissal
ou um soneto infinito
ou uma poesia bendita
ou um poema abençoado mas
tudo passa a voar à minha frente
resigno-me à minha insignificância
às favas os meus intentos
às minhas tentações
fluem-se por entre meus dedos
como anéis largos as letras
as palavras largadas
que o vento em redemoinho
embaralha tudo
o que era doce azeda-se
o sonho torna-se pesadelo
no papel fica-se o desmazelo
dum que tentou se passar por trovador
é só o que o faz lembrar
que não se tira leite de pedra
nem sempre o querer é poder
ainda mais quando
se perdeu de nascença a inspiração
durante a vida a meditação
com o tempo o discernimento
a percepção tornou-se aflição
a intuição uma obscuração
o lirismo diluiu-se
pois as musas esvaneceram-se
com as tempestades
os vendavais de vernáculos
nos cenáculos das expressões idiomáticas
nos mosaicos dos desassossegos
dos desassossegados que não cantam
canções aos pássaros que
não declamam cantigas às flores
que não trovam aos trovões
nem tecem loas
aos lobos solitários das estepes
dos cerrados abandonados
crestados pelo sol inclemente
do dia que não serve para ponte
mata a poesia na fonte

BH, 0140102022; Publicado: BH, 0701102022

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