quarta-feira, 16 de novembro de 2022

no silêncio da sala do barracão

no silêncio da sala do barracão
não oiço nem os arroubos do meu coração
nem ausculto as equalizações do meu
organismo
os passos ao vento
as tosses
pigarros
escarros
os sons estrondosos das gargantas profundas
alheias dos semelhantes
só de muito distante me vem do além para o
aquém algum augúrio dum alguém
ou dalgum sabe-se lá quem se fantasma
ou ectoplasma se assombração
ou energúmeno se mentecapto
ou espectro dalguma entidade se imagem de anjo
ou de demônio se simulacro não sei
nem sei só movo a mão acorrentada
à está esferográfica
sangro de hemorragia em hemorragia
não estanco o sangue que é desperdiçado
pois não aparece nenhum vampiro desesperado
para aproveitar o sangue coagulado
se o terreno ainda fosse terreiro de terra
massapê
de terra nobre
fértil muitas pérolas raras germinariam à flor
do chão com tema
com lema
sem dilema
ou mistérios
sinistros
ou enigmas que
decifrações causariam mortes
infelicidades
cada gota de sangue seria dum poeta morto
cada flor vermelha seria duma poesia
cada pétala imortalizada seria dum poema
os fósseis resgatados das gavetas dos
tempos pré-históricos seriam relíquias nas
molduras nas paredes
nas pilastras
nos pilares do firmamento do universo
cada um com um silêncio novo de
catacumba de faraó em sarcófago de ouro maciço

BH, 0130102022; Publicado: BH, 01601102022

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