quero viver pois viver para mim não é comer
nem beber pois viver para mim é escrever
no sarcófago é escrever nas masmorras
nos calabouços ou em qualquer outro lugar
no qual possa ser encontrado em liberdade
ou preso em correntezas marinhas
ou de cachoeiras de cataratas
ou em correntes de ar pois preciso viver
viver para mim é vasculhar letras
esmiuçar alfarrábios
remexer em alfabetos extintos de línguas
exterminadas
batear palavras de idiomas sobrenaturais
estranhos
quero o meu cadáver bem pesado
com o bojo recheado
com todos os órgãos sobrecarregados
inchados que os tanatólogos deixarão
em seus devidos lugares pois não quero meu
cadáver esvaziado como uma carcaça de
sucata envelhecida arcabouço vazio no vácuo
saberão que ali jaz era um poeta intacto
possuído por seus espíritos
possesso por seus demônios que
tanto o atormentaram em vida
nunca o deixaram ser feliz como uma criança
precisa da necessidade de ser feliz as infelicitamos
com certeza viverei nas minhas letras
minhas palavras me comporão
sobreviverei no meu resistente esqueleto
de marfim de elefante nobre
a minha caveira de diamantes raros
gargalhará da eternidade na cara dos mortos
que ficarão aqui pois não descansarei em paz
no infinito se não tive paz no finito
não quererei o descanso na posteridade
das minhas cinzas universais
BH, 0200502019; Publicado: BH, 01701102022
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