segunda-feira, 30 de abril de 2012

Portal Vermelho: Darcy Ribeiro, introdução de "O Povo Brasileiro"; BH, 0300402012.




A aprovação pelo STF da constitucionalidade das cotas raciais nas universidades suscita acaloradas discussões. O texto de Darcy Ribeiro oferece subsídios teóricos para uma justa compreensão sobre a etnia nacional. Apontando a “estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber”, como um traço da nossa civilização, o mestre da antropologia demonstra como o Brasil é a um só tempo uni-étnico e desigual. 


O Brasil e os brasileiros, sua gestação como povo, é o que trataremos de reconstituir e compreender nos capítulos seguintes. Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.

Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes
raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo (Ribeiro 1970), num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. 

Também novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de quantos existam. Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização sócio‐econômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros.

Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta no país ou importa.

A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. 

O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente.

A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação.

As únicas exceções são algumas microetnias tribais que sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que, vivendo para além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão pequenas, porém, que qualquer que seja seu destino, já não podem afetar à macroetnia em que estão contidas.

O que tenham os brasileiros de singular em relação aos portugueses decorre das qualidades diferenciadoras oriundas de suas matrizes indígenas e africanas; da proporção particular em que elas se congregaram no Brasil; das condições ambientais que enfrentaram aqui e, ainda, da natureza dos objetivos de produção que as engajou e reuniu.

Essa unidade étnica básica não significa, porém, nenhuma uniformidade, mesmo porque atuaram sobre ela três forças diversificadoras. A ecológica, fazendo surgir paisagens humanas distintas onde as condições de meio ambiente obrigaram a adaptações regionais. A econômica, criando formas diferenciadas de produção, que conduziram a especializações funcionais e aos seus correspondentes gêneros de vida. E, por último, a imigração, que introduziu, nesse magma, novos contingentes humanos, principalmente europeus, árabes e japoneses. Mas já o encontrando formado e capaz de absorvê‐los e abrasileirá‐los, apenas estrangeirou alguns brasileiros ao gerar diferenciações nas áreas ou nos estratos sociais onde os imigrantes mais se concentraram.

Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos rústicos de ser dos brasileiros, que permitem distinguí‐los, hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo‐brasileiros, teuto‐brasileiros, nipo‐brasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população.

A urbanização, apesar de criar muitos modos citadinos de ser, contribuiu para ainda mais uniformizar os brasileiros no plano cultural, sem, contudo, borrar suas diferenças. A industrialização, enquanto gênero de vida que cria suas próprias paisagens humanas, plasmou ilhas fabris em suas regiões. As novas formas de comunicação de massa estão funcionando ativamente como difusoras e uniformizadoras de novas formas e estilos culturais.

Conquanto diferenciados em suas matrizes raciais e culturais e em suas funções ecológico‐regionais, bem como nos perfis de descendentes de velhos povoadores ou de imigrantes recentes, os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia. Vale dizer, uma entidade nacional distinta de quantas haja, que fala uma mesma língua, só diferenciada por sotaques regionais, menos remarcados que os dialetos de Portugal. Participando de um corpo de tradições comuns mais significativo para todos que cada uma das variantes subculturais que diferenciaram os habitantes de uma região, os membros de uma classe ou descendentes de uma das matrizes formativas.

Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um
povo‐nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Ao contrário da Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na América, por exemplo, que são sociedades multiétnicas regidas por Estados unitários e, por isso mesmo, dilaceradas por conflitos interétnicos, os brasileiros se integram em uma única etnia nacional, constituindo assim um só povo incorporado em uma nação unificada, num Estado uni‐étnico. A única exceção são as múltiplas microetnias tribais, tão imponderáveis que sua existência não afeta o destino nacional.

Aquela uniformidade cultural e esta unidade nacional ‐ que são, sem dúvida, a grande resultante do processo de formação do povo brasileiro ‐ não devem cegar‐nos, entretanto, para disparidades, contradições e antagonismos que subsistem debaixo delas como fatores dinâmicos da maior importância. A unidade nacional, viabilizada pela integração econômica sucessiva dos diversos implantes coloniais, foi consolidada, de fato, depois da independência, como um objetivo expresso, alcançado através de lutas cruentas e da sabedoria política de muitas gerações. Esse é, sem dúvida, o único mérito indiscutível das velhas classes dirigentes brasileiras. Comparando o bloco unitário resultante da América portuguesa com o mosaico de quadros nacionais diversos a que deu lugar a América hispânica, pode se avaliar a extraordinária importância desse feito.

Essa unidade resultou de um processo continuado e violento de unificação política, logrado mediante um esforço deliberado de supressão de toda identidade étnica discrepante e de repressão e opressão de toda tendência virtualmente separatista. Inclusive de movimentos sociais que aspiravam fundamentalmente edificar uma sociedade mais aberta e solidária. A luta pela unificação potencializa e reforça, nessas condições, a repressão social e classista, castigando como separatistas movimentos que eram meramente republicanos ou anti-oligárquicos.

Subjacente à uniformidade cultural brasileira, esconde‐se uma profunda distância social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de formação nacional produziu. O antagonismo classista que corresponde a toda estratificação social aqui se exacerba, para opor uma estreitíssima camada privilegiada ao grosso da população, fazendo as distâncias sociais mais intransponíveis que as diferenças raciais.

O povo‐nação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas,mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável.

Nessas condições, exacerba‐se o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnico‐cultural e da unidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em conseqüência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente. A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de 160 milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber.

O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, "democracia racial", raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais.

O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô‐lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo‐massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis. Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão.

Depois, somente nas raras instâncias em que o povo‐massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de estruturação social, como ocorreu com os Cabanos, em Canudos, no Contestado e entre os Mucker.

Nessas condições de distanciamento social, a amargura provocada pela exacerbação do preconceito classista e pela consciência emergente da injustiça bem pode eclodir, amanhã, em convulsões anárquicas que conflagrem toda a sociedade. Esse risco sempre presente é que explica a preocupação obsessiva que tiveram as classes dominantes pela manutenção da ordem. Sintoma peremptório de que elas sabem muito bem que isso pode suceder, caso se abram as válvulas de contenção. Daí suas "revoluções preventivas", conducentes a ditaduras vistas como um mal menor que qualquer remendo na ordem vigente.

É de assinalar que essa preocupação se assentava, primeiro, no medo da rebeldia dos escravos. Dada a coloração escura das camadas mais pobres, esse medo racial persiste, quando são os antagonismos sociais que ameaçam eclodir com violência assustadora. Efetivamente, poderá assumir a forma de convulsão social terrível, porque, com uma explosão emocional, acabaria provavelmente vencida e esmagada por forças repressoras, que restaurariam, sobre os escombros, a velha ordem desigualitária. 

O grande desafio que o Brasil enfrenta é alcançar a necessária lucidez para concatenar essas energias e orientá‐las politicamente, com clara consciência dos riscos de retrocessos e das possibilidades de liberação que elas ensejam. O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair, através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas, índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravos. O povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de milhares, foi também sangrado em contrarrevoluções sem conseguir jamais, senão episodicamente, conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso da história. Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da construção da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias.

Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis.

Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força.

Este livro é um esforço para contribuir ao atendimento desse reclamo de lucidez. Isso é o que tentei fazer a seguir. Primeiro, pela análise do processo de gestação étnica que deu nascimento aos núcleos originais que, multiplicados, vieram a formar o povo brasileiro. Depois, pelo estudo das linhas de diversificação que plasmaram os nossos modos regionais de ser.

E, finalmente, por via da crítica do sistema institucional, notadamente a propriedade fundiária e o regime de trabalho ‐ no âmbito do qual o povo brasileiro surgiu e cresceu, constrangido e deformado.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Lá vem Hélio Baleiro; RJ, 02901201998.

Lá vem Hélio Baleiro,
Vulgo Hélio Risadinha,
Sambeiro e sambista,
Cantador e seresteiro,
De primeira linha;
Quando pega no tantã,
Vira Hélio Batuqueiro,
Pagode é vida para ele;
Improvisa com inspiração,
Ri de tudo e de todos,
Com a maior provocação;
Uma toalha no pescoço,
Um sapato branco no pé,
Lá na Penha, no IAPI,
Gosta muito de mulher;
Bom malandro da antiga,
Velha guarda de comissão de frente,
Tio Hélio Baleiro é diferente;
Canta Candeia,
Canta Cartola,
Canta Zeca Pagodinho,
Luiz Carlos da Vila,
Canta Nelson Cavaquinho;
Anda bem devagar,
Pisa de mansinho,
No IAPI da Penha,
É chamado de Helinho;
Quando não gosta de alguém,
É para não gostar;
Quando gosta também,
Ri até chorar.

sábado, 21 de abril de 2012

Paulinho da Viola, Velório do Heitor; BH, 0210402012.


Havia um certo respeito
No velório do Heitor
Todo mundo concordava
Que apesar de catimbeiro
Era bom trabalhador
Houve choro e ladainha
Na sala e no corredor
E por ser considerado
Seu desaparecimento
Muita tristeza causou
Quem mais sentiu foi Nair
Que só falava das virtudes do Heitor
E pelos cantos da memória rebuscava
Todo o tempo
Em que ao seu lado caminhou
Os amigos mais chegados afirmavam
Que não houvera
Outro cara tão legal
E muita gente concordou em ajudar
Uma família que ficara
Num desamparo total
Pode se dizer que aquele velório
Transcorreu na maior tranqüilidade
Até o momento
Em que surgiu aquela dama de preto
Trazendo flores
E chorando de saudade
Como ninguém conhecia a personagem
Nair foi tomar satisfação
E aí chamaram até o Osório
Que é delegado porque o velório
Virou a maior confusão
Porque simplesmente o velório
Virou a maior confusão 

De Paulinho da Viola, Abre os teus olhos, com Cristina Buarque; BH, 0210402012.








Não tenho nada a dizer
E por favor
Não tente me provocar
Vivo em meu canto sozinho
Curtindo meu pinho
Sabendo esperar
Não há mais nada a fazer
Porque já dei de mim
Tudo o que podia dar

Vê se abandona esse orgulho e procura viver
Esqueça esse mal que nos deu tanto sofrimento
Não reacendo outra vez esta chama em meu peito
Felicidade já conheceu seu momento
Abre os teus olhos e veja o que aconteceu
Esqueça tudo
Porque nosso amor já morreu

Escola de Samba Império, Exaltação a Tiradentes; BH 0210402012.



Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela Independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais

Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado

sábado, 14 de abril de 2012

João Cabral de Melo Neto, O ovo da galinha; BH, 0140402012.


I
Ao olho mostra a integridade 
De uma coisa num bloco, um ovo. 
Numa só matéria, unitária, 
Maciçamente ovo, num todo. 
Sem possuir um dentro e um fora, 
Tal como as pedras, sem miolo: 
E só miolo: o dentro e o fora 
Integralmente no contorno. 
No entanto, se ao olho se mostra 
Unânime em si mesmo, um ovo, 
A mão que o sopesa descobre 
Que nele há algo suspeitoso: 
Que seu peso não é o das pedras, 
Inanimado, frio, goro; 
Que o seu é um peso morno, túmido, 
Um peso que é vivo e não morto.
II
O ovo revela o acabamento 
A toda mão que o acaricia, 
Daquelas coisas torneadas 
Num trabalho de toda a vida. 
E que se encontra também noutras 
Que entretanto mão não fabrica: 
Nos corais, nos seixos rolados 
E em tantas coisas esculpidas 
Cujas formas simples são obra 
De mil inacabáveis lixas 
Usadas por mãos escultoras 
Escondidas na água, na brisa. 
No entretanto, o ovo, e apesar 
Da pura forma concluída, 
Não se situa no final: 
Está no ponto de partida.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Carlos Drummond de Andrade, A Máquina do Mundo; BH, 0130402012.




E como eu palmilhasse vagamente
Uma estrada de Minas, pedregosa,
E no fecho da tarde um sino rouco
Se misturasse ao som de meus sapatos
Que era pausado e seco; e aves pairassem
No céu de chumbo, e suas formas pretas
Lentamente se fossem diluindo
Na escuridão maior, vinda dos montes
E de meu próprio ser desenganado,
A máquina do mundo se entreabriu
Para quem de a romper já se esquivava
E só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
Sem emitir um som que fosse impuro
Nem um clarão maior que o tolerável
Pelas pupilas gastas na inspeção
Contínua e dolorosa do deserto,
E pela mente exausta de mentar
Toda uma realidade que transcende
A própria imagem sua debuxada
No rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
Quantos sentidos e intuições restavam
A quem de os ter usado os já perdera
E nem desejaria recobrá-los,
Se em vão e para sempre repetimos
Os mesmos sem roteiro tristes périplos,
Convidando-os a todos, em coorte,
A se aplicarem sobre o pasto inédito
Da natureza mítica das coisas,
Assim me disse, embora voz alguma
Ou sopro ou eco ou simples percussão
Atestasse que alguém, sobre a montanha,
A outro alguém, noturno e miserável,
Em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
Teu ser restrito e nunca se mostrou,
Mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
E a cada instante mais se retraindo,
Olha, repara, ausculta: essa riqueza
Sobrante a toda pérola, essa ciência
Sublime e formidável, mas hermética,
Essa total explicação da vida,
Esse nexo primeiro e singular,
Que nem concebes mais, pois tão esquivo
Se revelou ante a pesquisa ardente
Em que te consumiste... vê, contempla,
Abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
O que nas oficinas se elabora,
O que pensado foi e logo atinge
Distância superior ao pensamento,
Os recursos da terra dominados,
E as paixões e os impulsos e os tormentos
E tudo que define o ser terrestre
Ou se prolonga até nos animais
E chega às plantas para se embeber
No sono rancoroso dos minérios,
Dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
Na estranha ordem geométrica de tudo,
E o absurdo original e seus enigmas,
Suas verdades altas mais que todos
Monumentos erguidos à verdade:
E a memória dos deuses, e o solene
Sentimento de morte, que floresce
No caule da existência mais gloriosa,
Tudo se apresentou nesse relance
E me chamou para seu reino augusto,
Afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
A tal apelo assim maravilhoso,
Pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
A esperança mais mínima — esse anelo
De ver desvanecida a treva espessa
Que entre os raios do sol inda se filtra;
Como defuntas crenças convocadas
Presto e fremente não se produzissem
A de novo tingir a neutra face
Que vou pelos caminhos demonstrando,
E como se outro ser, não mais aquele
Habitante de mim há tantos anos,
Passasse a comandar minha vontade
Que, já de si volúvel, se cerrava
Semelhante a essas flores reticentes
Em si mesmas abertas e fechadas;
Como se um dom tardio já não fora
Apetecível, antes despiciendo,
Baixei os olhos, incurioso, lasso,
Desdenhando colher a coisa oferta
Que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
Sobre a estrada de Minas, pedregosa,
E a máquina do mundo, repelida,
Se foi miudamente recompondo,
Enquanto eu, avaliando o que perdera,
Seguia vagaroso, de mãos pensas.


Carlos Drummond de Andrade, Ser; BH, 0130402012.


O filho que não fiz
Hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
Sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
Num encontro de
Nuvem.
Apoia em meu ombro
Seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
Objeto de ar:
Em que gruta ou
Concha
Quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
Responde-me o hálito,
Não me percebeste,
Contudo chamava-te

Como ainda te chamo
(Além, além do amor)
Onde nada, tudo
Aspira a criar-se.

O filho que não fiz
Fez-se por si mesmo.

João Cabral de Melo Neto, Poema(s) da Cabra; BH, 0130402012.




A cabra é negra. Mas seu negro 
Não é o negro do ébano douto 
(Que é quase azul) ou o negro rico 
Do jacarandá (mais bem roxo). 
O negro da cabra é o negro 
Do preto, do pobre, do pouco. 
Negro da poeira, que é cinzento. 
Negro da ferrugem, que é fosco. 
Negro do feio, às vezes branco. 
Ou o negro do pardo, que é pardo. 
Disso que não chega a ter cor 
Ou perdeu toda cor no gasto. 
É o negro da segunda classe. 
Do inferior (que é sempre opaco). 
Disso que não pode ter cor 
Porque em negro sai mais barato.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Portela, Macunaíma, Herói de nossa gente.


                                   


Portela apresenta
Do folclore tradições
Milagres do sertão à mata virgem
Assombrada com mil tentações
Cy, a rainha mãe do mato, oi
Macunaíma fascinou
Ao luar se fez poema
Mas ao filho encarnado
Toda maldição legou

Macunaíma índio branco catimbeiro
Negro sonso feiticeiro
Mata a cobra e dá um nó

Cy, em forma de estrela
À Macunaíma dá
Um talismã que ele perde e sai a vagar
Canta o uirapuru e encanta
Liberta a mágoa do seu triste coração
Negrinho do pastoreio foi a sua salvação
E derrotando o gigante
Era uma vez Piaiman
Macunaíma volta com o muiraquitã
Marupiara na luta e no amor
Quando sua pedra para sempre o monstro levou
O nosso herói assim cantou
Vou-me embora, vou-me embora
Eu aqui volto mais não
Vou morar no infinito

E virar constelação

Paulinho da Viola, Cantando; BH, 0110402012.


Lembra daquele tempo
Quando não existia maldade entre nós
Risos, assuntos de vento
Pequenos poemas que foram perdidos momentos depois
Hoje sabemos do sofrimento
Tendo no rosto, no peito e nas mãos umas dor conhecida
Vivemos, estamos vivendo
Lutando pra justificar nossas vidas
Cantando
Um novo sentido, uma nova alegria
Se foi desespero hoje é sabedoria
Se foi fingimento hoje é sinceridade
Lutando
Que não há sentido de outra maneira
Uma vida não é brincadeira
E só desse jeito é a felicidade

Paulinho da Viola, Nada de novo; BH, 0110402012.



Papéis sem conta
Sobre a minha mesa
O vento espalha as cinzas que deixei
Em forma de poemas antigos
Relidos
Perdido enfim confesso
Até chorei
Nada mais importa
Você passou
Meu samba sem razão
Se acabou
Um sonho foi desfeito
Alguma coisa diz
Preciso abandonar
Os versos que já fiz
Nada de novo
Capaz de despertar
Minha alegria
O sol, o céu, a rua
Um beijo frio, um ex-amor
Alguém partiu, alguém ficou
É carnaval
Eu gostaria de ver
Essa tristeza passar
Um novo samba compor
Um novo amor encontrar
Mas a tristeza é tão grande no meu peito
Não sei pra que a gente fica desse jeito

Paulinho da Viola, Estou marcado; BH, 0110402012.


Quem sou eu
Pra viver sem madrugada
Quem sou
Pra viver sem violão
Quem sou eu
Pra esquecer o que passei
No tempo em que andei
Com você no coração
Era grande meu sofrer
Mas eu amava
Arranjei um certo dia
Um violão que me ajudava
A cantar os versos
Que fiz pra você
Posso até dizer
Eu era mais feliz
Mas depois do seu amor
Fiquei marcado
Sem viola e madrugada
Eu não vivo sossegado

João Cabral de Melo Neto, A mulher no hotel; BH, 0110402012.


A mulher que eu não sabia 
(Rosas nas mãos que eu não via, 
Olhos, braços, boca, seios), 
Deita comigo nas nuvens. 
Nos seus ombros correm ventos, 
Crescem ervas no seu leito, 
Vejo gente no deserto 
Onde eu sonhara morrer. 
Terei de engolir a poeira 
Que seus cabelos levantam 
E pousa na minha alma 
Me dando um gosto de inferno? 
Terei de esmagar crianças? 
Pisar as flores crescendo? 
Terei de arrasar as cidades 
Sob seu corpo um cemitério 
Onde um seu pé plantarei. 
Vou cuspir nos olhos brancos 
Dessa mulher que eu não sei.

João Cabral de Melo Neto, A Carlos Drummond de Andrade; BH, 0110402012.



Não há guarda-chuva 
Contra o poema 
Subindo de regiões onde tudo é surpresa 
Como uma flor mesmo num canteiro. 
Não há guarda-chuva 
Contra o amor 
Que mastiga e cospe como qualquer boca, 
Que tritura como um desastre. 
Não há guarda-chuva
Contra o tédio: 
O tédio das quatro paredes, das quatro 
Estações, dos quatro pontos cardeais. 
Não há guarda-chuva 
Contra o mundo 
Cada dia devorado nos jornais 
Sob as espécies de papel e tinta. 
Não há guarda-chuva 
Contra o tempo, 
Rio fluindo sob a casa, correnteza 
Carregando os dias, os cabelos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Sim, não tenho razão; BH,090402012.


Sim, não tenho razão… 
Deixa-me distrair-me do argumento mental, 
Não tenho razão, está bem, é uma razão como outra qualquer…
Se nem creio? não sei. 
Creio que sim. 
Mas repito. 
O amor deve ser constante? 
Sim, deve ser constante, 
Só no amor, é claro. 
Digo ainda outra vez…
Que embrulhada a gente arranja na vida! 
Sim, está bem, amanhã trago o dinheiro.
Ó grande sol, tu não sabes nada disto, 
Alegria que se não pode fitar no azul sereno intangível.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Babilak Bah, megarimooV; 050402012.

  megarimooV
       saxirooV
      megaooV
    olucarooV
   arimanooV
       eriatooV
    megarooV
     utmeooV
   megatooV
arianamaooV
  rananriooV
    ratimooV
 adraugooV
   órimooV
     aradooV
ongismeooV
ragnixooV
àlugnixooV
hgoGooV
omsirevooV
ribuècooV
razinrEFneooV
oov, em-looV
emiabooV
oudooV

Babilak Bah, Olho d'água; BH, 050402012.

Olho d'água mira profundo
Minotauro escorre nascendo:
Fluir das sombras.

Tomás Antônio Gonzaga, Lira XXI; BH, 050402012.

Não sei, Marília, que tenho,
Depois que vi o teu rosto:
Pois quanto não é Marília,
Já não posso ver com gosto.
Noutra idade me alegrava,
Até quando conversava
Com o mais rude vaqueiro:
Hoje, ó Bela, me aborrece
Inda o trato lisonjeiro
Do mais discreto pastor.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de Amor?

Saio da minha cabana
Sem reparar no que faço;
Busco o sítio aonde moras,
Suspendo defronte o passo.
Fito os olhos na janela,
Aonde, Marília bela,
Tu chegas ao fim do dia;
Se alguém passa, e te saúda,
Bem que seja cortesia,
Se acende na face a cor.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de Amor?

Se estou, Marília, contigo,
Não tenho um leve cuidado;
Nem me lembra se são horas
De levar à fonte o gado.
Se vivo de ti distante,
Ao minuto, ao breve instante
Finge um dia o meu desgosto:
Jamais, Pastora, te vejo
Que em teu semblante composto
Não veja graça maior.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de amor?

Ando já com o juízo,
Marília, tão perturbado,
Que no mesmo aberto sulco
Meto de novo o arado.
Aqui no centeio pego,
Noutra parte em vão o sego:
Se alguém comigo conversa,
Ou não respondo, ou respondo
Noutra coisa tão diversa,
Que nexo não tem menor.
Que efeitos são os que sinto?
Serão efeitos de amor?

Se geme o bufo agoureiro,
Só Marília me desvela,
Enche-se o peito de mágoa,
E não sei a causa dela.
Mal durmo, Marília, sonho
Que fero leão medonho
Te devora nos meus braços:
Gela-se o sangue nas veias,
E solto do sono os laços
À força da imensa dor.
Ah! que os efeitos, que sinto,
Só são efeitos de Amor.

Nietzsche, O que separa; BH, 050402012.

O que separa mais profundamente dois homens é um sentido e
Um grau diferentes de pureza.
Que importam a honestidade e a utilidade recíprocas, que importa
A boa vontade de um com relação a outro!
O resultado é sempre o mesmo: - "não podem se cheirar"!
O mais sublime instinto de pureza rejeita aquele que o possui
Na mais perigosa e estranha solidão como um santo: de fato é
Precisamente a santidade - a mais alta espiritualização desse instinto.
Há um certo pressentimento singular que leva a provar de antemão
A indescritível felicidade que pode haver em tomar um banho, é
Um certo ardor, uma sede que impele sem cessar a alma para fora
Da noite na manhã, para fora da perturbação, da "angústia" na
Claridade, naquilo que é brilhante, profundo, delicado: - na mesma
Medida em que semelhante inclinação distingue - é uma inclinação
Nobre - também separa.
A compaixão do santo é compaixão pela impureza daquilo que é
"Humano, demasiado humano".
Há graus e alturas onde a própria compaixão é considerada por
Ele como uma impureza, como uma falta de limpeza.

Nietzsche, "O amor torna iguais"; BH, 050402012.

O amor quer poupar aquele ao qual se vota todo sentimento
De estranheza, por conseguinte, é cheio de dissimulação e de
Assimilação, engana constantemente e representa uma igualdade
Que não existe na realidade.
E isso acontece tão instintivamente que mulheres amadas negam
Essa dissimulação e esse doce e contínuo engano e pretendem
Audaciosamente que o amor torna iguais (o que significa que
Faz um milagre!).
 - Esse fenômeno é simples quando uma pessoa se deixa amar e
Não julga necessário fingir, deixando isso à outra pessoa amada:
Mas não existe comédia mais enredada e mais inextricável do
Que quando ambos estão em plena paixão recíproca e que, por
Conseguinte, cada um renuncia a si mesmo e tenta igualar-se ao
Outro, identificar-se com ele em tudo:
Então nenhum dos dois sabe o que deve imitar, o que deve
Fingir, a que se deve entregar.
A bela loucura desse espetáculo é muito linda para este mundo
E muito sutil para os olhos humanos.

Mário Quintana, Tangolo-Mango; BH, 050402012.

                                                                         Para Érico Veríssimo

Tudo como na história dos dez negrinhos:
... e não ficaram senão quatro...
... e não ficaram senão três...
Só que, na nossa história,
Os negrinhos éramos muito mais de dez.
Não, não vou começar a contá-los pelos dedos!
Que adianta?
Outros serão os seus cuidados, outros os seus segredos
Agora...
Outras serão as suas aventuras,
De que ciumentamente me sinto afastado.
E como, na verdade, dizer-lhes
Toda a falta que me fazem
Quando o que eu sinto neles é a falta de mim?!
E depois nem é bem como no caso dos dez negrinhos:
Um dia não haverá ninguém entre nós,
Ninguém no mundo
Para lembrar que não sobrou nenhum!

Mário Quintana, A sesta; BH, 050402012.

O vento cheio de ideias vâs
Põe-se a pensar em outras coisas...
O cão que ao mormaço repousa
Fareja o ar morno.
As venezianas
Listram o silêncio, enquanto em torno
O frescor das jarras e das louças
Espera... enquanto, da parede, olha-me
O gelo do relógio
E um cheiro insistente de maçãs
Convida-me
Como se eu não estivesse deliciosamente morto
E de sapatos sobre
Os arabescos da colcha.

Mário Quintana, De Repente; BH, 050402012.

Olho-te espantado:
Tu és uma Estrela do Mar.
Um minério estranho.
Não sei...

No entanto,
O livro que eu lesse,
O livro na mão,
Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,
Na polpa saborosa do pão...

Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

E só o meu cavalo pasta na solidão.

Mário Quintana, (LXII), Dos Pontos de Vista; BH, 050402012.

A mosca, a debater-se:
"Não!
Deus não existe!
Somente o Acaso rege a terrena existência!"
A Aranha:
"Glória a Ti,
Divina Providência,
Que à minha humilde teia essa mosca atraíste."

Mário Quintana, (XXXIV), Da Perfeição da Vida; BH, 050402012.

Por que prender a vida em conceitos e normas?
O Belo e o Feio...
O Bom e o Mau...
Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do Ser!

Álvaro de Campos, Ah, a frescura; BH, 050402012.

Ah, a frescura na face de não cumprir um dever! 


Faltar é positivamente estar no campo! 


Que refúgio o não se poder ter confiança em nós! 


Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros, 


Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo, 


Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha. 


Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida. 


Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação. 


É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, 


Deliberadamente à mesma hora… 


Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico. 


É tão engraçada esta parte assistente da vida! 


Até não consigo acender o cigarro seguinte… 


Se é um gesto, 


Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.