sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

alguém para dizer alguma coisa

alguém para dizer alguma coisa
num momento de aflição
a rua está vazia
a avenida perdida
a cidade fantasma
rente aos muros as sombras esvanecem-se
não se ouve um assobio de ave
ou um pio dum piado
ou um cicio de serpente
ou um sibilo de víbora
ou um chacoalhar de cascavel
ninguém se apresenta no deserto
nenhuma miragem no oásis
o que resta lamenta
ou chora melancolia
ou implora em preces
não se diz a palavra chave
ou a palavra mágica
ou a senha que num golpe de lucidez
destravou o universo
organizou o caos no organismo
perfilou nos estados da matéria
a esperança de unificar os átomos
acelerar as partículas das moléculas
numa geração de energia nunca vista
nem no sol que de milênios em milênios
preserva a vida onde a morte impera
espera aí parece que agora um ser
foi capaz de dizer a palavra reveladora
a conjectura escancarou a lucidez
as soluções engoliram os mistérios
espatifaram os enigmas
gravou-se no paredão com o fogo do núcleo
o que é o universo para quem pode criar um universo?
as palavras invencíveis
invulneráveis continuam lá para quem
quiser ler
ou gravar outra inscrição com fogo na face
da montanha de diamante
nunca mais se esperou de alguém alguma
coisa para se ouvir pois todas as coisas estão
aí ditas com suas mensagens infinitas

BH, 01601002022; Publicado: BH, 03001202022

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

alguém sabe o segredo duma oração

alguém sabe o segredo duma oração
ou duma prece
ou duma reza simples mas que
sejam perfeitas?
a minha avó sabia
rezava para caxumba
orava para espinhela caída
benzia com arruda de guiné para cobreiro
erisipela
fazia preces para assombrações
mais ladainhas aos santos
santas que
menino desconhecia
hoje ainda desconheço
a minha avó rezava para corpo fechado
para os corpos das putas da rua franisco sá
muitas vezes retalhados às giletadas
às navalhadas
até punhaladas
várias vezes deparei com putas no casebre no qual minha avó morava
malino até bolinava algumas
às escondidas
a minha avó bebia cachaça
fumava cigarro de palha
mascava fumo de rolo
enquanto minha mãe fazia compras
surrupiava alguns produtos dos vendeiros
das feiras
brinquedos para mim
das lojas da rua direita do centro da cidade
não deixava a minha mãe me bater
sempre me levava às procissões
às missas com o padre a me abençoar
várias vezes contrariado
me ensinava a fumar
ao me mandar acender o cigarro de palha
no fogão à lenha
me ensinava a beber
ao me dar o restinho de pinga que ficava
no fundo da canequinha
me ensinou a comer pimenta
da pimenteira plantada à porta do barracão
de pau a pique que ficava à beira da rua do
pau velho sentido baixinha na cidade de
teófilo otoni
não tinha banheiro
as necessidades eram jogadas pela
janelinha do fundo ao lado dum espaço
entre o barraco
o barranco
a água era de pote
ou de moringa
mas era um lugar que mais tarde na
minha adolescência da mocidade
atravessava toda a cidade
satisfeito para visitar

BH, 01401202022; Publicado: BH, 02701202022

um dia ainda hei de viver

um dia ainda hei de viver
nem que seja por um segundo
o mundo então se regozijará
de que vivi um segundo
de novo de geração em geração
louvarei aos antepassados que
sustentaram os meus ombros
aos meus ancestrais que
guiaram os meus passos
aos meus antecedentes que
deram os caracteres
para os meus descendentes
seguirei mesmo que
não seja um valente pois
preciso seguir a poesia
necessito seguir o poema
regar o pomar
molhar o jardim
colher as flores
salvar a flora
abençoar a fauna
da natureza morta fazer uma obra-prima
de natureza viva
mais obras de arte
mais obras de belas artes
pararei numa esquina já livre da mortalha
da encruzilhada
não precisarei de pedir mais licença
se serei o ser
a lei
o áulico
o vassalo bastardo fidalgo herói
sem vitória
sem glória
sem história
ou bastião
ou baluarte
ou panteão
todo o universo será o resumo num ponto
que num caos gerará outro universo
com um ser completo que
se libertou de ser complexo

BH, 01501202022; Publicado: BH, 02701202022

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

tudo o que se faz hoje

tudo o que se faz hoje
se não for o mais superficialmente possível
não há um like
ou uma única curtida
ou um compartilhamento
se for algo que requer raciocínio
ou razão
ou noção
ou discernimento
interpretação
pensamento
aí o certo é passar em brancas nuvens
todos somos contaminados por essa
preguiça moderna
o mais trabalhoso que podemos fazer no
nosso esforço é ver
ver o corpo nu
ver a bunda dum
ver as nádegas doutro
as genitálias doutras
os genitais doutros
as palavras chulas
os comportamentos vis
as atitudes vãs
os gestos vãos
as expressões ocas
os ares de vácuos
duma hora para outra são milhões
de visualizações
dum dia para o outro são mais milhões
de viralizações nas mídias das redes sociais
das vadiagens
das vagabundagens afins
das vergonhas que não envergonham
nem padres
nem pastores
nem homens
nem mulheres
quanto mais explícito o fato
maior é o boato
corre rápido no vazio como um quem que
tem pernas curtas
rápidas
que atingem ao mesmo tempo corações
cérebros aflitos sem sentimentos
sem sentidos
qualquer argumento gera diploma a um 
jumento tanto que temos um na presidência
que se diz a todos pulmões que
é negacionista
terraplanista
antivacina
com o sucesso momentâneo
ajuda na derrocada do país

BH, 0210102022: Publicado: BH, 02301202022

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

o sonho do poeta é a obra-prima que mudará a vida

o sonho do poeta é a obra-prima que mudará a vida
ou é a obra de arte que mudará o comportamento
não é mudar a vida para ganhar dinheiro
nem é mudar o comportamento para se pensar superior
sim a passar a experimentar pessoalmente
o que escreve ao agir com os atos com os gestos
os comportamentos que desenha
que almeja atingir
de que vale a pena o poeta escrever que ama a odiar?
de que vale a pena o poeta escrever paz
a fazer a sua guerra particular?
poeta precisa ser desprendido
livre das materialidades
liberto do desprezo
ao não desprezar os semelhantes
ser um assemelhado
não ser dessemelhante
mostrar nos atos a própria grandeza
banir a pequenez
a mesquinhez que causam vergonha a
quem escreve poemas ou poesias
implora por novas filosofias
sem contra argumentos o indiferente é o
único que merece desprezo
ou os mortos que enterrem seus próprios mortos
ou quem guiará a humanidade com as novas
sociedades conservadoras que surgem com o
velho ódio ou no antigo racismo no xfobismo
ou no misoginismo
pensar num poeta assim misógino
ou racista que tipo de poesia poderá fazer?
que tipo de poema poderá escrever?
o poeta não pode ser um ser dentro do seu ser
ser um ser às vistas doutros seres
ou então deixa de ser poeta
quando o chamarem de poeta chora
como se chora um morto

BH, 0290502019; Publicado: BH, 02201202022

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

nunca mais vou sair por aí a procurar

nunca mais vou sair por aí a procurar
um ponto de apoio
uma alavanca
uma pedra fundamental
ou uma rocha filosofal
ou uma pedreira descomunal
ou um rochedo marco inaugural
sem fé transporei montanhas
pé vencerei cordilheiras
de vertentes em vertentes
de veredas em veredas
a costear as falésias
a ombrear os desfiladeiros
os paredões consagrados serei a ponte no
abismo universal
a gota d'água que transbordará os oceanos
a molécula de ar que sufocará as atmosferas
o grão de areia que desmoronará as dunas
o raio de luz que esgotará os sois
serei o excesso dos excessos
fartarei os famintos famélicos fominhas
darei de beber aos sedentos
pararei num despenhadeiro
nunca mais procurarei agulha no palheiro
nunca mais o eco ecoará a maldição de nunca mais
à beira dos milenares cânions virarei
a estátua de sal por não ter olhado para atrás
em letras de fogo-fátuo escreverei no
pedestal do monumento o fatídico epitáfio
do corvo nunca mais

BH, 01501202022; Publicado: BH, 02001202022

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

o poeta ama ou não é poeta

o poeta ama ou não é poeta
o poeta contesta
como amar em sociedade tão desumana?
como ser humano em humanidade tão
composta de seres desprovidos de amor?
teimam com o poeta
então o poeta não é poeta
mas é só o poeta que tem que amar?
é só o poeta que tem que dar exemplo?
combater o mau?
não fazer o mal?
o poeta pensa que todo mundo deveria agir
igual a um poeta
com filosofia
com psiquiatria
com psicologia
aí sim a natureza viraria um jardim
ninguém a atacaria
nem a queimaria ou destruiria a fauna
ou destruiria a flora ou devastaria
o meio ambiente
o ecossistema
a biodiversidade
a sociedade seria um exemplo para a
humanidade
todo ser vivo que habita a terra seria um poeta
faria poesias
poemas
sonetos
sairiam obras-primas dos guetos
obras de arte das janelas
portas das favelas
este é um sonho dum poeta a luta pelo
direito humano de nos amar uns aos outros
sem precisar nos armar
não o luto causado pelo ódio
do preconceito
o rancor pela cor
a dor do desamor
a raiva que a igualdade causa
a cólera da liberdade
o pavor dos direitos
e o temor das revoluções
o poeta ama
nunca deixa de amar mesmo quando ama
não sabe como demonstrar

BH, 0130602022; Publicado: BH, 01901202022

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

pai é muito chato

pai é muito chato
vive a tentar a me tirar do quarto
a me levantar do chão
veio aqui à porta
bateu palmas de leve
perguntou não quer ir para lá não?
nem respondi só espalmei a mão
para um tapinha
continuei sentado no chão
pai foi à janela
do quarto da irmã mais velha
olhou a rua
olhou a matinha que tem
em frente ao barraco que
a gente mora aqui na boca da favela
a matinha é até muito legal
tem muitas árvores preservadas
moram muitos miquinhos chamados saguis
antigamente apelidados de soinhos
pai vive a me assediar
para que visite esses lugares
não quero nem saber
penso que hoje esteja de bom humor
pois não briguei
nem agredi pai
aproveito o silêncio
fico quieto
pai voltou da janela
se sentou à mesa
antes colocou
dois gomos de linguiça no feijão
mais um pouco d'água que
o almoço se completará com arroz
farofa de ovos
pai fala que por aí
tem gente a comer ossos
pés de galinha
cabeças de peixe
a disputar comida no lixo
a pedir coisas nos semáforos
aí até me sinto um ser no luxo
apesar dum cara que
pai chama de inominável
ter cortado um benefício meu

BH, 040502022; Publicado: BH, 0701202022

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

nem sei o que é que está escrito aqui

nem sei o que é que está escrito aqui
mas sei o que é que está escrito nas estrelas
nas estrias das entranhas dos universos
nem sei o que dizer
ou o que falar
mas sei o que dizem
o que falam os organismos
os órgãos dos infinitos
ouço os gritos dos mundos que são
engolidos pelos buracos negros
assunto o chiar do sol ao se espreguiçar
para nascer
bocejo à boca da noite igual a minha filha
a bocejar para dormir
nem sei o que escuto
nem sei o que ouço
ou ausculto dos zumbidos
dos zunidos normais mas vibro em todas
as vibrações celestiais
os sussurros das fontes nos escuros
os murmúrios dos riachos
dos regatos a espantar os augúrios
sorrio para os rios como se fosse uma fonte
defronte dum monte
não sei se são fiji é que sou sarará ararat
não sei se são sião
é que sou ancião cafuzo caboclo confuso
confúcio
no cio criolo mulato moreno pardo preto
nem sei mais nada que sou mas sou tudo
que sou
até o nada sou
nado no barro branco
na argila
na tabatinga
ando na terra massapê
tenho da caatinga a catinga natural que
exala o vivo
me disfarço com a fragrância da flor do
meu cadáver a se decompor
num canto espanto as moscas
deixo as abelhas na minha pele a captar o
pólen
a sugar o néctar
o leite o que
mais querem do meu teor

BH, 0130602022; Publicado: BH, 0601202022

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

as peles que me cobrem não são só sete peles

as peles que me cobrem não são só sete peles
são talvez até mais do que setenta vezes sete
são couros dos meus tios negros
epidermes das minhas tias negras
pergaminhos escuros
queimados de sois africanos dos meus avôs pretos
das minhas avós pretas
que se transformaram em
papiros de manuscritos de sangramentos
escorridos de pelourinhos
ali a história é contada ao avesso
a cantiga antiga cantada de traz para a frente
a saga da negrada negada
sempre seremos os vilões
nunca os heróis
sempre seremos os escravos
escravizados
da elite
da burguesia representantes dos colonizadores
nunca nos pedirão perdões
nunca nos darão nossas cartas de alforrias
sofreremos escárnios
sofreremos racismos
sofreremos esculachos
demais preconceitos
sem os nossos direitos de sermos
pelo menos seres humanos
respeitados pela humanidade como
componentes exemplos da raça humana
sem despertar suspeitas
lustrarei minhas peles ancestrais
engraxarei os pelos
os cabelos
as dermes as tais epidermes de tudo
dos meus antepassados
donde sou composto com organismo
intestinos
entranhas
tutanos
medula
testosterona
adrenalina
libido
óvulos
espermas
sangue muito sangue arterial
para escrever as linhas trilhadas
as correntes quebradas
os elos despedaçados
os grilhões arregaçados
os precipícios superados
os temores liberados
todas as nossas falas
rezas
orações
preces
serão em nome da liberdade
das nossas gerações em gerações
descendentes livres como a brisa
o vento que nos chama
nos olha nos olhos de livres irmãos

BH, 030401002022; Publicado: BH, 0201202022

o outro nome do país hoje é tristeza

o outro nome do país hoje é tristeza
tristeza que parece não ter fim
nem querer ir embora
nem por favor
mas o que é preciso é que
essa tristeza vá embora
o mais cedo possível
para que o brasil possa voltar a sorrir
a nação virou um túmulo
eternamente em luto
o povo não pode mais lutar pois
não consegue comprar o que comer
o que beber
o que vestir
o homem brasileiro virou esmoler
pelos semáforos
debaixo das marquises
sob os viadutos
crianças nos sinais a fazer sinais
com as mãos a pedir
cada vez mais
a elite fecha os vidros dos carros
a burguesia blinda os automóveis
a polícia protege a plutocracia
o judiciário conivente com a cleptocracia
o povo trabalhador brasileiro
sem emprego 
sem trabalho
sem trabalhismo
com desprezo ao trabalhista
o que se encontra pelas ruas
são os intermitentes
os falsos empreendedores
os chamados escravos modernos que
servem sem direitos
por baixa remuneração
são os sem razão
muitas vezes até sem noção
que ainda justificam o neoliberalismo
capitalismo
falam que coisas de direito
de igualdade
de fraternidade
de liberdade
são coisas do comunismo
do socialismo
que a bandeira nunca será vermelha
que são cristãos armamentistas
seguem um torturador genocida apologista
de todo tipo de violência contra tudo
contra todos que
ainda é negacionista
escarnecedor
néscio
um ser escroto nefasto pernóstico

BH, 0140602022; Publicado: BH, 0201202022

o mundo despreza o imundo jair messias bolsonaro

o mundo despreza o imundo jair messias bolsonaro
o mundo civilizado ignora a pessoa nefasta
que fala que foi batizada no rio jordão
mundo desconfia que o tal foi batizado no rio estige
pelo caronte
o seu cão de guarda cérbero
a filosofia chora
a sociologia chora
história chora
o assassino continua
com a sua gana destruidora
a educação chora
cultura chora
os que não gostam de nada disso
batem palmas para o dromedário
elogiam o mamute
tecem loas ao mastodonte
enaltecem o ogro
aclamam o pitbull
até as mulheres servem ao escroto
o mundo das civilizações conhece a história
que será destruída
sabe dos destinos daqueles que
compõem o séquito maldito
os asseclas do cão que
se apoderou do seio de tão nobre
nação que hoje saúda celeiro de celerados
paiol de desmiolados
ceara de insanos
ou armazém de bestas apocalípticas
de mentes de mefistófeles
de mentecaptos inaptos
energúmenos incorporados de evangélicos
outros religiosos medievais
o mundo globalizado se afasta
do ostomizado jair messias bolsonaro
seu governo lobotomizado
composto de corpos de invertebrados
país governado por um bando de malucos
desce ladeira abaixo locomotiva desgovernada
de loucos sem controle
hospício a céu aberto
só o alienista bruxo do cosme velho
para internar todos esses alienados

BH, 0270280402019; Publicado: BH, 0201202022

terça-feira, 29 de novembro de 2022

nem sei escrever mais nada não

nem sei escrever mais nada não
era daquele que pensava que
sabia escrever alguma coisa
toda vez que pegava a esferográfica
só deixava registos rupestres sobre
as paredes cavernosas dos escombros
os caracteres não eram gerados pelo fogo
logo eram apagados pelo tempo
espalhados pelo vento
feitos cinzas de restos mortais
de antepassados
de ancestrais
esquecidos em portais
das encruzilhadas da história
então via nas metáforas imperfeitas
dos descendentes que nada sabia
pior do que um sócrates piorado
envenenava-me com a cicuta ardente
nos bares dos baixos das ruas de cantos
ruas de fundos
becos imundos com os
seres mais baixos do submundo subterrâneo
da sociedade apodrecida
tinha um alento
ouvia a voz dos pingos da chuva nas folhas
das plantas
ouvia a voz da aragem
farfalhar a folhagem
a sussurrar na ramagem
linguagens estranhas só entendidas
pelos poetas
fazedores de poemas infinitos
orações eternais
poesias imortais
tudo por mais sujo que seja
se cala diante duma chuva
numa inexplicável reverência
sem limites
que é como se passasse diante
dum monte
há de se elevar o semblante
além das paralelas numa visão de olhar pineal
numa ausculta de sabedoria
engendrada no coração
na força cardíaca intrínseca
que move a razão

BH, 0160402019; Publicado: BH, 02901102022

a obsessão é cega a faca é amolada

a obsessão é cega a faca é amolada
é maior do que a fé que é menor do que
um grão de moscada
corta mais do que o facão
a obsessão sufoca o poeta
afoga o bardo
asfixia o aedo pois todos querem
satisfazer a obsessão
a obsessão quando não é atendida
deprime com depressão deprimente
derruba os assemelhados
mata os semelhantes primatas
os dessemelhantes que
não entendem o desassossego
desrazão
não atendem os subconscientes dos
cérberos que habitam os subterrâneos dos
cérebros
os labirintos que ligavam os
continentes extintos
a vida em exoplanetas
os brilhos das estrelas que morreram em
agonia que quanto mais agonizavam mais
morriam de angústia pela luz perdida em vão
que mesmo quando era captada pelo
buraco negro
transformada em energia
energia era desperdiçada no espaço do
universo pois se essa energia fosse
transformada em poesia
o universo se expandiria cada vez mais
a luz entra em obsessão
a energia entra em obsessão
o universo entra em obsessão
o caos entra em obsessão
pelo fogo da euforia que consome um ser que
escreve poesia com os habitantes da fornalha
que ardia que nem chamuscados foram pelo
fogo aumentando sete vezes que os consumia

BH, 0270402019; Publicado: BH, 02901102022

o que que posso fazer se não sei o que fazer

o que que posso fazer se não sei o que fazer
quem sabe o que fazer não faz
nem ensina a quem não sabe
quer aprender
alguém urgentemente que não sei quem
precisa fazer alguma coisa para
resgatar a dignidade da nação ferida prostrada
humilhada da forma  mais indigna que já se viu
olho as forças armadas
sinto vergonha
medo
nojo
rancor
olho as polícias federal
militar
civil
guarda municipal
tenho horror
terror
são assassinos covardes em série que
não sei como homens que
se dizem com honras servem em tais
corporações que
só perseguem assassinam pretos pobres
ou moradores de áreas desprovidas
das condições do estado
humilham cidadãos
cidadãs
jovens sem esperança duma vida melhor
povo trabalhador brasileiro
a nação indignada brasileira precisam
dar as mãos para vencermos os desafios
do futuro
ou o país não será de todos
ou o brasil só será da elite despudorada
ou da burguesia descarada
a raia miúda precisa ser incluída na sociedade
a raia miúda precisa de moradia de saúde
de alimentação
a ralé de educação
a raia miúda
a ralé precisam de cidadania de soberania
de dignidade
queiramos
ou não a raia miúda
a ralé também fazemos parte do rolê da nação
não podemos abrir mãos
do que é cláusula pétrea
da nossa sagrada constituição

BH, 0140602022; Publicado: BH, 02901102022

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

ainda bem que não tem o que fazer

ainda bem que não tem o que fazer
porque se tivesse alguma coisa para fazer
o que que iria fazer?
nunca soube fazer nada
nem o que os bichos fazem
cantar nadar trabalhar lutar brigar correr esconder viver
tudo que fazia o povo ria
debochava
cismava
estorvava
ficava com raiva
nem jogar pedra iguais aos moleques de rua
sabia jogar
nem bola de capotão
ou bola de meia
ou bolinha de gude
ou estilingue para matar passarinhos
ou armadilhas
arapucas
alçapões
tiravam-lhe o calção de pano de chão
no meio da rua
escondiam-lhe os chinelos
os cadernos
davam-lhe cascudos por tudo
morria afogado no rio de esgoto raso
tinha medo do escuro no claro
não passava rente ao muro do cemitério
passava cosido à parede das casas das putas
da zona para espiar pelas janelas indiscreto
corria de árvore assombrada
que era gameleira onde apareciam
assombrações no que era o maior pecado
da vida dum menino ter medo de árvores
na pura
santa ignorância
estupidez
matava passarinhos
espetava bundas de tanajuras
com a certeza de que não ia para o céu
com tanta ruindade que cometia
agora na rabugice da velhice
vive jogado pelos cantos
do cárcere privado
a pedir a deus perdões pelos pecados

BH, 0270202022; Publicado: BH, 02801102022

sábado, 26 de novembro de 2022

nunca ouviu um conselho do pai

nunca ouviu um conselho do pai
nem nunca ouviu conselho da mãe
pai quis ensinar inglês
colocação num serviço público federal
ou estadual
ou municipal
mãe quis ensinamentos de religião
não deu atenção
torceu o nariz
de frustração atrás de frustração
derrotas
mais derrotas
não tinha com que levar comida à boca dos filhos
a mulher seguiu à igreja
pegou com a fé a acreditar que
com os milagres do céu
a vida poderia mudar
a vida não mudou
nada mudou
todo dinheiro gastou
bebeu
cantou
bebeu mais
cantou mais
ficou para atrás
um peso morto
ou um empecilho
ou um problema atrás doutro
não arranjava soluções
não resolvia nada
não apresentava resoluções
não tinha sonhos
nem utopias
vivia na ilusão a iludir
os assemelhados
os semelhantes
opaco
obtuso
obscuro não entendia
ou interpretava o que lia
mal enxergava um palmo à frente do nariz
tropeçava nas próprias pernas bambas
arriscava o próprio corpo molenga
indolente era um estorvo
enchia o saco
puxava o saco
ninguém aguentava mais
tanta babação de ovo

BH, 060202022; Publicado: BH, 02601102022

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

nome do pobre é problema

nome do pobre é problema
nome do rico é felicidade
outro nome do pobre é fome
outro nome do rico é mesa farta
deus do pobre é deus dará
deus do rico é deus mercado
polícia do pobre é o teje preso
polícia do rico é em que posso ajudar ao
distinto cidadão?
sina do pobre é pagar imposto
sina do rico é a sonegação
outros nomes do pobre são beltrano
fulano
sicrano
outros nomes do rico são doutor senhor
cavalheiro magnata
por aí vai até nunca mais
pobre só tem deveres
rico só tem direitos
garantias
pobre até faz o bem sem olhar a quem
rico toma até de quem não tem bem
pobre só existe para existir o rico
rico existe para fazer o pobre não existir
pobre não tem nem sombra
água fresca
rico tem maracutaias
mordomias
burguesia
a elite
a plutocracia
pobre é bastardo
rico abastado
dai ao pobre o que é do pobre o nada
dai ao rico o que é do rico o tudo até o pobre
pobre sobrevive de esmolas
de restos
o rico vive de heranças
festanças
gastanças
vida do pobre é tempestade
vendaval
vida do rico é bonança
carnaval
pobre rói osso com a corda no pescoço
pobre é só trabalho sem diversão
rico ainda faz do pobre um bobão

BH, 060202022; Publicado: BH, 02501102022

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

vem de lá uma agulha de pedra

vem de lá uma agulha de pedra
que chegou num raio duma tempestade
de trovão
de tarde
a meninada ficou a imaginar
a decifrar
a conjecturar que
pedra era um raio
que o raio era uma pedra
que a pedra era uma agulha
cada um com uma pedrada
na cabeça rachada
que pedra
que nada
que raio
que nada
que agulha que nada
que meninada
que nada
que raio
parta num parto
a meninada encantada na enxurrada
que abria valas nas via
nos morros
nas encostas
as ruas enlameadas
os cachorros molhados
eletrizados arrepiados
a sacudir os pingos nos is
as galinhas nos poleiros
os galos nos terreiros
cada quintal um viveiro universal
com fauna
flora
mundo real a ser explorado
por expedições de fenícios a descobrir
riquezas egípcias que os tios traziam
de viagens ao nilo
ao mediterrâneo
às tumbas dos faraós
às pirâmides
suas assombrações embalsamadas
caravanas de camelos
dromedários com os tesouros que
ficaram guardados nos templos dos tempos
das cristaleiras
dos armários

BH, 0100802022; Publicado: BH, 02401102022

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

ai usas muitas letras muitas palavras aí

ai usas muitas letras muitas palavras aí
aí pareces até um mocorongo genocida que
disse uma vez que não gostava
nem lia livros pois livros eram muitos cheios
de muitas letras
de muitas palavras em páginas repletas
de coisas escritas aí
ai poderias escrever menos frases aí
ai que fazes da vida?
não custa nada perder um tempinho
bem devagar a ler umas laudas
escritas por um velho
que não tem mais nada a fazer na vida
a não ser cronicar
prosear aí
ai se diminuires os períodos
as sentenças
os versos
provérbios ninguém ficaria
tão cansado assim para ler uma poesia aí
ai teus pensamentos me doem
teus argumentos não têm fundamentos
teus fragmentos perderam filamentos
te tornam um balde vazio
ou uma moringa à míngua
ou uma jarra que mesmo vistosa uma negra
elegante não a equilibra na rudia
em cima da cabeça esbelta de rainha
de países mais nobres d'africa aí
ai mal consigo interpretar um haicai
ou um versículo bíblico 
ai imagina então uma parábola parabólica
cheia de metáforas
de linguagens
de discursos figurativos
iguais aos do maior poeta conhecido
jesus cristo aí ai

BH, 0170802022; Publicado: BH, 02301102022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

o coração é capenga só bate dum lado

o coração é capenga só bate dum lado
justamente para o lado de dentro que
é o lado aleijado
o coração é perneta só pula com
uma perna só a parecer um saci pererê
não é coração que suporta rojão
não aguenta um tranco bem dado
não sustenta um trampo para a sobrevivência
é um coração vagabundo de cachorro vira-latas
de cão sem pedigree
de gato que cruza estradas bêbado
de madrugada
é um coração vilão que qualquer puta
o leva pela mão
o arrasta nas sarjetas
nas valetas
nas valas a inferno aberto
nos guetos
nos esgotos esgotados
de tão coração escroto
se perde nas periferias
nas freguesias dos aglomerados das favelas
foge das polícias nas adjacências
para não ser mais um caso esquecido pelas
estatísticas
para não ser mais uma vez humilhado
ou enfim ser assassinado
é um coração de preto fujão desesperado
por que quer ser amado mas como
quer ser respeitado mas
o racismo estruturado
quer ser preservado mas
não tem alicerce
não tem constituição na construção
nasceu na destruição
nasceu na ruína
é um coração de doido doído dolorido
sem analgésico
não tem vacina
não tem remédio
só tem medo
não tem história
só uma herança maldita com engulhos
sacos sem blandícias
sem adornos
com confetes
serpentinas
nos bailes dos inferninhos
saco de pancadas
nas mãos dos leões de chácaras
volta ao jazigo moído
um olho roxo posto para fora
um nariz chato bem mais achatado
um beiço grosso bem mais engrossado
chora num canto um lixo amontoado

BH, 050502022; Publicado: BH, 02201102022

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

é uma guerra entre pai e eu

é uma guerra entre pai e eu
é uma guerra surda
é uma guerra cega
é uma guerra muda
em suma
é uma guerra fria
só não esquenta devido
a intervenção de mãe
eu pai não nascemos
um para o outro
sempre quando posso
quero pegá-lo à unha
quando não fica esperto
acaba por levar umas
outras
fico mais chato quando
aperta a depressão
fujo para o meu quarto escuro
isolo-me
não quero saber de nada
quem chega perto
acaba por levar um safanão do nada
sem dó
mãe é que é o elo
é como se fosse uma escrava minha
que me dá banhos
limpa os meus pés
corta minhas unhas resignada
como a mulher que lavou os pés de alguém
com as lágrimas
enxugou com os cabelos
achei até bonita essa colocação de submissão
uma coisa que não sou
é submisso
só se for com muita força
ou à base de sossega leão
fora disso o meu mundo não cai
sei que ninguém quer saber de mim
das minhas coisas mas
é por culpa de mim mesmo
é que não aceito presenças
nem carinhos
nem amor
ninguém tem consciência da minha existência
não conto nas estatísticas
também mando todo mundo se foder
por qualquer motivo
ou sem motivo não importam a ocasião
a motivação
às vezes até conforto-me quando capto por
alto que um tal de bolsonaro
é presidente do país
pelo que ouço falar do cara
parece que é pior do que sou
isso é um alívio para mim

BH, 0220502019; Publicado: BH, 01801102022

agora não vejo mais o sol

agora não vejo mais o sol
agora não vejo mais a lua
nem as estrelas
até júpiter
vênus
já sumiram das minhas madrugadas
quase manhãs de manhãzinhas
agora não posso mais ficar bêbado
como gostaria para parir poesias
todos os santos dias
os profanos também
agora são só dilemas
não posso mais dar vidas a poemas
é que o hormônio testosterona
não destila mais nos desfiles
dos desfiladeiros virginais
é que a adrenalina
não entra mais em erupção
a fazer pulsar o coração
e a libido esfriou
apagou o fogo do tesão
a brasa do tição que virou carvão
o carvão que era brasa virou cinza
agora jeremias é só lamentações
sem salmos de davi
sem profecias de absalão
penso que também
sem a longevidade de matusalém
nem oração para dizer amém
emparedado a degredado
ando descuidado desgarrado
fico mais calado mesmo sem estar
sob baioneta calada de baixo calão
ou de lâmina de facão mas
sem ter nada para falar ao sol
sem falar à lua
ou a vênus
ou a júpiter
só este boneco de defunto mudo
que perdeu a ternura
à boca voraz da sepultura
a querer devorar carne
em avançado estado de putrefação

BH, 030502022; Publicado: BH, 01801102022

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

de férias da vida porém faz frio às voltas da mesa da cozinha

de férias da vida porém faz frio às voltas da mesa da cozinha
luto contra os jogos mentais
as confabulações espirituais
busco confusões aleatórias
distantes da consciência
lá fora de mim o mundo vive
a chuva parou
só as vibrações naturais teimam em lembrar
que estou também vivo apesar de velho
alquebrado
faz tempo que não pego num livro
pergunto para quê?
tanta gente que pega em livros
levou um fascista ao poder
fico triste com esta alusão
um país que era de ordem progresso
referência de nação
dum dia para o outro
virou um país de desordem regresso
regredimos
ao fascismo literal
ao racismo estrutural
à homofobia genuína
elogios aos torturadores
louvações aos ditadores louvamos aos
misóginos
agressores de mulheres
crianças
compactuamos com os estupros
a pedofilia
a prostituição infantil
sem deixar de frequentar as igrejas católicas
evangélicas em convivência
conivência com esse lado sujo da humanidade
agora será um trabalho árduo
hercúleo para retirar os loucos
suas loucuras do comando da nação
onde estávamos com a cabeça?
quando o povo não pensa o país padece
pagará caro por este erro histórico
o de ficar do lado errado da história
já começaram a aparecer as falcatruas
as mentiras do clã oficial com suas corrupções de corrompidos
de corruptos corruptores
os tráficos de influências
os nepotismos cruzados
os ditos apoiadores de tais farsas
se veem no mato sem cachorro
não têm onde enfiar a cara
morrem de vergonha
de desgostos afogados nos esgotos por
tantos descalabros com o povo
principalmente o povo trabalhador brasileiro
que não merecia tantas tiranias vilanias

BH, 0160502019; Publicado: BH, 01701102022