sexta-feira, 29 de abril de 2022

Som Imaginário: - Matança do Porco (1973).

Poesia de Paulinho da Viola: Para não contrariar você.

Quem sou eu
Pra dizer que você fica
Mais bonita desse jeito ou daquele?
Quem sou eu? Quem sou eu?
Pra falar mal do seu gosto
Da pintura no seu rosto
Quem sou eu? Não sou ninguém
Cada um trata de si
Seus olhos parecem dizer
Muito bem, eu prefiro não falar
Para não contrariar você
Fico no meu samba
Se quiser, pode ficar
Vou lá na Portela
Mesmo que você não vá
Não darei ouvidos
Se você me provocar
Mas aceito um beijo
Se você quiser me dar
Se você quiser me dar
Quem sou eu?
Quem sou eu?
Pra falar mal do seu gosto
Da pintura no seu rosto
Quem sou eu? Não sou ninguém
Cada um trata de si
Seus olhos parecem dizer
Muito bem, eu prefiro não falar
Para não contrariar você

quinta-feira, 28 de abril de 2022

se alguém conhecer alguma coisa mais prazerosa

se alguém conhecer alguma coisa mais prazerosa
do que escrever poemas passa para mim poemas
são pequenos romances de marfim ou poesias de
aventuras ou sonetos de desbravadores
descobridores marinheiros de grandes
navegações sou só um pequenino componente
dessa infinita confraria universal dessa
congregação descomunal que busca a
imortalidade a eternidade das coisas posteridade
das letras nos papiros a perpetuidade das palavras
nos pergaminhos cada palavra nos manuscritos é
uma lavra uma mina um veio uma veia de tesouros
boiadas em estouros ou elefantes enfurecidos
cavalos selvagens disparados por pradarias
quando morro de amor ressuscito upoema ou
choro uma canção busco a alegria através da
poesia dou um jeito na vida num viés dum soneto
que deixa o mundo satisfeito a humanidade sem
defeito pois a perfeição é a meta do meu coração
perece ilusão sem razão ideia sem noção ou ideal
sem sustentação sonho sem realização mas
paciência em paz com ciência sabedoria sapiência
de sábio sabiá que sabe voar sem imaginar
amanhã quando acordar de manhã já será
manhãzinha noutro lugar que outrora era noite
agora é aurora do dia pois que todo dia é dia de
poesia sorria quem chora sorridente quem
tristemente não sorria pede bênção à alegria

BH, 0201202019; Publicado: BH, 0280402022.

terça-feira, 26 de abril de 2022

nada vem amenizar a minha dor

nada vem amenizar a minha dor
é uma dor de quem não tem
amor nada vem trazer lenitivo
ao meu coração é um coração
de quem não tem razão aí então
canto uma canção para derrubar
as muralhas das minhas retinas
é apenas uma ilusão já que não
tenho nenhum poder à não as
pedreiras que sustento às costas
não vêm ao chão nem com
dinamites quando derrubo um
simples muro surgem infinitos
donde não sei não deixo sangrar
a seiva deixo a hemorragia das
sementes nas areias quentes
as flores não brotam onde piso
as águas não matam minha
sede me afogo nos pântanos
movediços dos meus pesadelos
esquizofrênicos das minhas
sensações psicopáticas dos
meus comportamentos
neuróticos das minhas psicoses
cotidianas complexos paranoicos
não tenho um único sonho que
poderia ser chamado de meu
não tenho uma única percepção
ou intuição ou talvez um dom que
formassem uma bula ou receita
com soluções de curas para estas
doenças crônicas que são só
curvas que fazem chorar ou que
matam a lucidez na fonte de fome
oh naus que nunca tive oh
caravelas que singram mares
bravios oh marinheiro destemido
que nunca fui oh oceanos trevosos
que o meu medo insano nunca me
deixou navegar.

BH, 0201202019; Publicado: BH, 0260402022. 

sinto as horas passar o tempo encurtar

sinto as horas passar o tempo encurtar
fui pelo vento caí em perigo só me
resta lamentar meus sofrimentos pelos
caminhos choro pelas pedras perdidas
pelas nuvens solitárias as raízes à
mostra que ficam ressequidas pela
inclemência do sol corro com a minha
gota d'água na mão atrás do fogo a
subir a chapada com a velocidade da
luz a terra esturricada me machuca
os pés estorvados a cinza ainda
quente dilacera as solas quando piso
o chão enfumaçado tropeço nos seres
da natureza que agora são torrões de
carvões aquecidos brasas ainda
fumegantes ou tições em fumo
fumacentos nada mais posso fazer
lacrimejo lágrimas secas dos meus
olhos desérticos a minh'alma árida
busca refúgio refrigeração em meu
espírito atormentado no espinhaço
não encontramos justificativas para
os que atiçam chamas contra a
natureza numa violência nunca vista
se não nos amamos nem nos
respeitamos uns aos outros como
teremos amor respeito pelo nosso
sistema ambiental a nossa
biodiversidade dos quais tanto nos
dependemos para a nossa própria
existência? será que seremos tanto
irracionais para todo o sempre? 

BH, 0201202019; Publicado: BH, 0260402022

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Viradouro, E a magia da sorte chegou.

 Uma estrela brilhou

Brilhou, brilhou, brilhou
Tão cintilante e os magos iluminou
Será, será
O novo sol do amanhã (do amanhã)
O arco-íris da aliança
Que não se apagará
Vem do Oriente
Com sua arte de criar
Na palma da mão lê a sorte
Com a magia do seu olhar
Chegando ao velho continente
A marca da desilusão
Castigo, degredo, açoite
Por que tanta discriminação?

A cada passo
A poeira levanta do chão
Ferreiro, feiticeiro, bandoleiro
A liberdade é sua religião

E vem chegando
O dono desse chão
No berço, a mão do menino
Abriu-se ao destino
Eis a nova Canaã

Ê, ê cigano
Bandeirante em busca de cristais
Canta, dança, representa
Dá vida a nossos laços culturais

Cigano-rei, mineiro iluminado
O mundo não vai esquecer
Plantou no solo brasileiro
A realização do amanhecer
É uma nova era, ô, ô
A magia da sorte chegou

O sol brilhará, oi
Surge a estrela-guia
E sob a proteção da lua
Canta Viradouro que a festa é sua.

domingo, 24 de abril de 2022

há uma ave que rompe o próprio peito

há uma ave que rompe o próprio peito
para dar de comer às suas criaturas
tal qual essa ave deve ser um poeta
ao romper o próprio peito ao dilacerar
o coração em busca da letra perfeita
que gera a palavra perfeita juntas
chegam à perfeição que é a meta que
almeja a humanidade o poeta abre as
próprias veias numa hemorragia que
mata a sede de sangue da raça humana
ou que rega os terrenos inóspitos do ser
humano o poeta é desse triunvirato o
poeta é esse cinturão dum centurião o
cetro dum rei dom ou a espada dum
scaramouche mascarado a combater os
seres macabros o ódio do fascista que
se alimenta do fascismo nessa guerra
o poeta é imprescindível com seu
coração inabalável seu espírito reto
tem lâmpadas nos pés seus caminhos
são iluminados tem asas na imaginação
para derrotar o conservadorismo os
preconceitos a imperfeição o
obscurantismo dos corações empedrados
das mentes chumbadas dos cérebros
opacos dos cérberos da sociedade
mesquinha desigual que mata de fome o
semelhante que mata de ódio o adversário
que mata de sede o igual que mata o
pobre como se fosse diversão compartilhada

BH, 02501102019; Publicado BH, 0240402022

sexta-feira, 22 de abril de 2022

a mais perfeita das coisas

a mais perfeita das coisas
não fez só coisas perfeitas
fez também a mais imperfeita
de todas as coisas imperfeitas
chamou de homem o homem
por natureza é realmente o ser
mais imperfeito da natureza
não se pode negar na tentativa
de criar uma obra-prima ou de
eternizar uma obra de arte ou
de imortalizar uma bela arte a
mais perfeita de todas as
coisas errou feio todas as
vezes que tentou corrigir a
emenda saiu pior do que o
estrago feito não há como
revisar esse projeto mórbido
não há como retificar esse
croqui bizarro não há como
ratificar esse processo
bisonho enxertar essa
planta daninha não há como
iluminar esse esboço
medonho segue a maldição
de geração em geração
0cada uma mais imperfeita
do que a outra cada obra
gerada pela mais imperfeita
de todas as coisas imperfeitas
já criadas é mais macabra do
que a outra mais mentecapta
energúmena mais nefasta
pernóstica utiliza de toda
agressividade para pôr fim
a si mesma ao esquecer
os principais princípios
humanos os direitos humanos
a teoria da humanidade a
tese do humanismo todo
homem deve amar um ao
outro como se ama a si próprio
aí poderia prender alguma outra
coisa perfeita para atingir a perfeição

BH, 02501102019; Publicado BH, 0220402022.

terça-feira, 19 de abril de 2022

não aprendi nada nas escolas

não aprendi nada nas escolas
o que queria aprender era como
ser azul nas escolas não aprende-se
a ser azul uma borboleta aprendeu a
ser azul saiu por aí a esbanjar
elegância altivez num voo de
embasbacar testudos casmurros a
vida toda não embasbaquei a não
ser a mim mesmo esse testudo
teimoso a garranchear letras a
cabriolar palavras rupestres em
folhas de cavernas que depois
ficam a amarelecer-se pelos
recantos ou esquecidas como os
ossos são esquecidos nos fundos
das sepulturas ou lixões de aterros
sanitários morrerei sem aprender
a ser azul ou a saber porque o céu
é azul ou o que leva o firmamento
a esse tom de cor azul de doer o
coração nessas lengalengas
penso que deixo poemas nesses
nenhenehenhens penso que deixo
poesias morro de azia devido ao
meu estômago tão maltratado por
gorduras açúcares álcoois olho o
volume da minha pança desisto
de querer ser qualquer tipo de azul 
só fico com inveja com despeito
pelo desprezo recebido parto em
retirada com os meus defeitos entre
as pernas um cão vira-latas a
perambular de calçada em calçada
a ser enxotado chutado por
transeuntes apressados que correm
desesperados em busca do nada

BH, 01901102019; Publicado: BH, 0190402022. 

acabou de acabar agora a cerveja gelada

acabou de acabar agora a cerveja gelada
com certeza não sei o que fazer para
comprar mais já que não posso roubar se
pudesse tivesse a ousadia a audácia a
coragem dum ladrão ou a fé a cara de pau
dalgum cidadão do mal pois cidadão do
bem não presta entraria num
estabelecimento só sairia de lá em coma
alcoólico não teriam como me cobrar as
despesas mesmo que chamassem a
polícia nada poderia ser feito comigo em
coma se um dia voltasse do coma diria a
todos ao redor que estava com amnésia
que não lembrava de nada que não
poderia ter sido o que tivesse cometido o
crime mas sim um dos milhares de
inquilinos que vivem dentro de mim aí
teriam que me mandar para a casa livre
leve solto feito um passarinho azul a voar
no céu azul como uma música soprada
por um trompetista azul alguém dirá que
os poetas não dizem nada que só coçam
o saco na frente das mulheres como um
socó coçador de saco solitário que só
sabem ficar bêbados a gastar algum
dinheiro se tiverem que não gostam de
fazer nada nem de trabalhar o poeta
olha para os lados para as cercas de
arame que cercam as cercanias os
quintais os terreiros dos terrenos
terráqueo deita de costas no capimzeiro
perde o olhar no fim do firmamento

BH, 01201901102019; Publicado: BH, 0190402022.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

há muito tempo que parei no tempo

há muito tempo que parei no tempo
pois o tempo não está ao meu lado
não estou ao lado do tempo mesmo
depois que marcel ensinou a buscar
o tempo perdido não me encontrei
nos caminhos de swan vaguei perdido
por outras estradas vicinais outros
portos outros cais por outros
caminhos de atalhos por outros
tempos que me levaram aos alhos
bugalhos caralhos que merda é essa
de vida sem cerveja como que um
ser humano digno nobre pode
passar a vida sem tomar um belo dum
porre de cerveja? os mentecaptos
energúmenos que habitam as moradas
humanas precisam beber muito
jogo cerveja em cima dos meus ficam
embriagados vão dormir não
fazem maus nem incomodam uns
aos outros o problema é a quantidade
que bebem hajam cifras cifrões
para sustentar seus vícios quanto
mais os sufoco os afogo no álcool
os filhos da puta mais querem beber
os mando às putas que os pariram é
o mesmo que não se falasse nada
querem é nadar nas cervejas geladas
suspiram soluçam não me deixam
em paz têm mais sede por álcool do
que a minha avó velhinha danada para
gostar dumas doutras penso que a
única coisa que herdei dos ancestrais
antepassados foi a sede insaciável da
minha avó os moradores das moradas
cavernosas interiores vieram depois

BH, 01201102019; Publicado BH, 0180402022

sábado, 16 de abril de 2022

Tom Jobim, Poético.

 De manhã escureço

De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando



terça-feira, 12 de abril de 2022

pai estava ao computador a bater

pai estava ao computador a bater
furiosamente no teclado do quarto
estava sentado no chão de frente
ao ventilador mesmo devido à
ventania que balançava as
cousas do puxadinho aquelas
batidas do pai no teclado do
computador me incomodaram fui
lá acabei com a festa pai tentou
dialogar dialeticamente ao falar
que precisava terminar o que
havia começado não regateei
peguei-o pelo braço direito que
sei que sente dores devido uma
queda de bicicleta o retirei de
frente do teclado o mandei para
a cozinha poxa amigão não és
amigo mesmo hein? senta lá no
teu cantinho espera a mãe
chegar da rua enquanto acabo
aqui esta síntese superior não
dei nem nenhuma  bola pegou o
copo com cerveja com ovo cru a
lata o caderno a caneta foi para
a cozinha se sentou à mesa
começou a escrever voltei ao
quarto sentei no chão diante
do ventilador fiquei de cá a
ouvir o ranço da caneta na face
áspera do papel da folha de
caderno do pai silenciosamente 

BH, 01201102019; Publicado: BH, 0120402022

ai que vontade de escrever uma obra-prima

ai que vontade de escrever uma obra-prima
ganhar um prêmio nobel de literatura ou
escrever uma obra de arte ou uma obra
que representasse as belas artes ou a
sétima arte ai que vontade de ser um
artista das artes plásticas de bronzes ou
de ferros ou ouros ou de madeiras
madeira talvez não não teria coragem
de matar uma árvore para fazer uma
obra qualquer as árvores são sagradas
merecem ser preservadas santificadas
viver em santuários para atingir tal
capacidade teria que ser um ser curado
sarado sem todas estas doenças que
acabam com a personalidade deprimem
hoje sou um ser incompleto a faltar-me
alavancas ferramentas profissionalismo
esbanjo amadorismo não me tornarei
excepcional nalguma arte no meu curto
tempo que ainda me resta de vida ou
comprovasse o velho ditado morre o
homem fica o nome gostaria de deixar
meu nome numa ideia à posteridade
meu sobrenome num ideal à imortalidade
meu apelido num sonho à eternidade
porém em mim tudo é o demais comum
do mortal do mortal mais morto que a
morte já matou que terá na lápide da
campa da sepultura aqui jazz o que
sonhou com o prêmio nobel de literatura

BH, 090902019; Publicado: BH, 0120402022. 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

em silêncio a tarde vai à procura do anoitecer

em silêncio a tarde vai à procura do anoitecer
à mesa da cozinha sozinho sondo a tarde a
perscrutar alguma reminiscência ou
reverberação que justifiquem a minha vida
oiço ruídos roídos pela tarde como uma traça
num livro velho oiço tic tic dos pássaros tic-tac
do relógio marulhos dos pombos que chegam
ao pombal algum cachorro late ao longe como
se tivesse sido atropelado por algum automóvel
nenhum galo canta mais nas redondezas das
adjacências olho as janelas de ouros o morrer
lentamente do dia tão saliente que agora
agoniza como se fosse uma gente doente o
vento levanta a toalha da mesa sacode algumas
roupas que ainda estão nos varais umas aves
velozes perdidas buscam seus refúgios lembro
das naus perdidas em altos-mares d'além terras
de detrás dos montes penso em camões seus
mares nunca dantes navegados em caminha que
navegou nos meus mares em calmarias muitas
das naves caravelas que não voltaram aos cais
dos portos? as embarcações que foram a pique
adormecem nas profundezas dos oceanos? nas
cercanias já jazem as penumbras vespertinas as
sombras descem assombram o meu pequenino
coração menino que nunca cresceu fantasmas
ocultos saem das minhas geleiras súbitas mãos
abrem chuvas oblíquas sobre a minha cabeça de
neném com a moleira ainda amolecida aberta a
latejar de ansiedade angústia é a minh'alma a
pedir aos céus alguma lúcida astúcia. 

BH, 030902019; Publicado: BH, 0110402022.

domingo, 10 de abril de 2022

finda-se este dia a findar-me mais um dia

finda-se este dia a findar-me mais um dia
que não sei se terá amanhã manhã quem
saberá? olho o anoitecer meus olhos não
enxergam mais os besouros a voltar às
suas tocas buracos locas perguntam-me
cadê as borboletas dos entardeceres dos
anoiteceres? cadê as mariposas os
pirilampos os vagalumes os cu de luz?
cadê os grilos os gafanhotos rotos as
libélulas? cadê os sapos-bois cururus as
cigarras? meus olhos são olhos de cegos
perguntadores não adianta colocar altares
em frente nem edifícios ou mesmo luxuosos
espigões mansões meus olhos são olhos de 
blimunda mulher de baltazar sete-sóis só
querem enxergar lagartas taruiras lagartixas
só querem enxergar morcegos corujas as
constelações mais distantes os aglomerados
de galáxias mais longínquas conjuntos de
exoplanetas noutros sistemas solares meu
olhar pergunta qual é o olhar que é mais
olhar do que o meu olhar? todos os meus
olhares olham embevecidos para mim com
os fundos dos olhos todos os fundos de olhos
são fundamentos profundos são azuis anis
mergulho nestas profundezas para enxergar
os outros mundos outros universos encontro
meu olhar num espelho polido de diamante celestial

BH, 030902019; Publicado: BH, 0100402022.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

ainda estou a dever ao universo

ainda estou a dever ao universo
um verso alexandrino ou um
clássico camoniano numa estrofe
do luzíadas ainda não surfei nas
ondas dos mares nunca dantes
navegados nas batalhas das
armas dos barões assinalados
nunca fui ao inferno de dante em
companhia de virgílio em busca
da beatriz por um tris continuo
este sancho pança a ser
manteado por todo mundo este
dom quixote a namorar dulcinéias
del toboso a combater moinhos
de ventos como fossem
invencíveis gigantes ainda estou
a dever à história pressinto que
morrerei no débito sem poder
pagar com uma obra-prima ou
com uma obra de arte ou das
belas artes a minha dívida por
minha existência neste universo
infinito que quer fazer-me infinito
não compreendo meu papel nem
compreendo o apel do universo
vem o tempo vem o vento levam
estas letras desfazem estas
palavras mudo amuo-me diante
das forças que me impedem de
voar grávido da gravidade que
não me deixa a atmosfera a
puxar-me para cima não
posso ir lá no cimo daquele
firmamento quitar
pessoalmente a minha conta
atrasada ser envolvido
eternamente pelo azul
mais azul já existente. 

BH, 01º0902019; Publicado: BH, 080402022.

não beijei uma boca hoje

não beijei uma boca hoje
nem a boca da noite beijei
à boca da noite não beijei
uma boca hoje dá cá essa
língua macia salva saliva
esses documentos
cadastrais à minha vida
que no meu peito se
asfixia se esvai numa
vida normal sem um tino
dpoesia ou um tiro de
poema como posso ter
alegria? bicicletei à orla
da lagoa cheguei à beira
quase caí ao dar uma
bandeira meu braço doeu
noite inteira não estou
de brincadeira quem
brinca com fogo mija na
cama rebola bola diz que
dá que dá diz que dá na
bola na bola na hora não
dá a lagoa não tem sapo
boi nem cururu não vi
cobra nem surucucu ou
peba na pimenta ou pisa
na fulô ou quiabo jiló ou
maxixe taioba angu tutu
vatapá bobó mocotó
sarapatel dobradinha
morcela chouriço couve
cortada fininha farofa de
ovos café preto forte
mingau de milho verde
torresmo à pururuca
comida na gamela capitão
feito com a mão para
quem teve vó com todo
mundo sentado no chão
ao redor ou do terreiro ou
do quintal era muito bom
nada fazia mal manteiga
natural no pão caseiro
quentinho leite com nata
nunca mais vi era muita
coisa boa do tempo das
minhas avós nunca mais
vou ver vou ser feliz bem
sei antes de morrer

BH, 0220802019; Publicado BH, 080402022

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Antônio Furtado, "Poesias e Crônicas", Um Fato Comun.

Depois de uma noite
Trabalho cansativo
Corpo esgotado
Caindo de sono
Após rápido banho
Indo em direção ao ponto de ônibus
Um casal passeava
Um vira lata fazia companhia
Repentinamente ele me estranhou
Mordendo a minha perna
Bronqueado, o xinguei
Por pouco, o casal não me bateu
Procurei um médico
Na saúde pública
Tomei a vacina antirrábica
Duas doses da tetânica
Doeu até a alma
Braço inchou
Durante um ano
Dei sequência à dosagem da vacina
No coitado do umbigo
Duas espetadas no local de mês a mês
Enfermeira conversando
 - Doe nada!
Chamando-me de frouxo
Recebi o devido médico (atestado)
Doutor o assina validando-o
Tranquilamente comenta:
 - Você se encontra imunizado
Completando :
 - Podes morder os cachorros 
 - Eles não correm risco nenhum 
Soltando forte gargalhada.  

sexta-feira, 1 de abril de 2022

camaradas quando que o povo varrerá o capitalismo do mapa mundi?

camaradas quando que o povo varrerá o capitalismo do mapa mundi?
porque no capitalismo é tudo de permissivo permitido à elite à
burguesia à cleptocracia à plutocracia aos poderosos capitalistas? o
povo precisa parar urgentemente de defender o capitalismo pregar
exigir o fim do neoliberalismo o povo precisa combater globalização
esse modelo moleque de regime que quer controlar tudo explorar até
às últimas consequências entregar tudo aos ricos ao povo nada para
nós o povo que não temos o direito de nem nos amar uns aos outros
o ódio da sociedade o confinamento nos guetos nos aglomerados de
favelas nas periferias oprimidas dos subúrbios segregados o povo
não é unido nem tem a real noção do poder que tem sempre aparece
um com vãs promessas puxar as rédeas do povo para trás ou para
frear o povo quando povo está embalado em disparada no rumo ao
desenvolvimento ao progresso ao futuro promissor de revolução
infinita contínua revolução evolução são irmãs siamesas progresso
futuro são irmãs xipófagas liberdade cidadania soberania são gêmeas
univitelinas são almas espíritos livres superiores o povo precisa
entender que o capitalismo é corrosivo nocivo pernóstico nefasto que
o capitalismo é exploração opressão geração de miséria pobreza
desastres ambientais guerras campos de concentração de refugiados
de flagelados os donos dos poderes das finanças precisam manter o
povo sob o tabuleiro para isso usam padres pastores suas igrejas
bancos profetas bispos missionários cardeais demais lacaios
capachos vassalos ventríloquos da justiça mesquinha do judiciário
capitulado a peso de ouro para ceifar todos os direitos sociais
populares humanos com corroboração do legislativo do executivo
até de órgãos controladores internacionais camaradas do mundo
capitalista imperialista colonialista unamo-nos contra esse deus
predador ou seremos destruídos

BH, 0140702019; Publicado: BH, 01º0402022