terça-feira, 17 de novembro de 2015

Começarei a despedir-me das coisas; BH, 070702013.

Começarei a despedir-me das coisas,
Das minhas roupas velhas, minhas botas
Furadas e meus casacos surrados; já
Chegou o tempo de começar a dar adeus,
Pendurar as armas, encostar as chinelas
E procurar um canto escuro para encostar-me;
Começarei a preparar-me para a separação,
A quebra dos elementos, tudo acontece
Muito rápido e não quero ser apanhado
Desprevenido, sem despedir-me, na
Partida para o além; meus óculos velhos
E embaçados, que não ajudam-me mais
A ver as letras, a ler as palavras, ficará
No altar da estante enferrujada, junto
Aos livros devorados pelas traças;
Quando precisar mover-me no escuro,
Tatearei, minhas mãos nas sombras,
Apesar de sombrias, enxergam muito
Bem; dinheiro, não necessariamente,
Preocupar-me-ei em esconder, nunca o
Obtive e o pouco que chegou às
Minhas mãos, bebi-o vorazmente; e no
Meu canto lá, ficarei quietinho, não
Aprendi a cantar, não aprendi a orar,
Não aprendi a rezar e xingarei baixinho,
A única coisa que aprendi a fazer e
Reclamarei da morte que não vem e
Da vida que já foi; blasfemarei sem
Remorso e arrependimento e todo
Mundo ao ouvir-me, dirá, esse velho,
Não aguento; despede-se das coisas
E fica aí, esse farrapo que, bem
Poderia ser levado pelo vento.

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