domingo, 9 de setembro de 2012

Noturno Nº 46; BH, 0210702011.

E vou morrer, cambada, mas vou
Deixar meu urro de Zagalo aí, tereis
Que me engolir; deixarei meus ossos
Nos baús para serem mumificados
E levados e estendidos à luz do
Luar, nas madrugadas de lua cheia;
Uivarei nos vossos ouvidos, tereis
Que me engolir, vos engasgareis
Com meus ossos e tropeçareis em
Pedaços de mim quando andareis
Perdidos ao sabor dos Noturnos;
E vou morrer, cambada, mas
Não vos livrarei dos tormentos
Nas noites e das tempestades
Nas madrugadas; vereis meus
Vultos nos vitrais e me identificareis
Nos escolhos negros da imensidão;
E tereis que reconhecer estas letras
Desgarradas do alfabeto; tereis
Que decifrar estas palavras
Expulsas dos dicionários; agora
Passeis por fora, olheis para longe;
Vireis a cara para o horizonte e
O cruzamento das paralelas; mas
Amanhã quebreis as pedras
Que nasceram do meu peito;
Reconheçais o leite emanado,
O suor salgado, a saliva doce
E a coriza caldada, como vestígios
Para reconhecimento, se
Não quiséreis que o cadáver seja
Enterrado anonimamente e
Sem exumação no futuro;
E vou morrer, cambada, mas
Deixarei aqui ancorado neste
Porto, meus navios carregados.

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