sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Não há uma maneira; BH, 0280702013.

Não há uma maneira de ser desenterrado,
E quero ser desenterrado, reencarnar-me 
Em algumas carnes nobres, este meu 
Esqueleto decadente; ando à procura 
Dalgum cadáver fresco, um morto que 
Pareça vivo, para fazer na minha ossada,
A reencarnação; não aguento mais ficar
Enterrado aqui, minha caveira chacoalha-se,
Os ossos vibram como se fossem chocalhos
De cascavéis; psicografo meus pensamentos
Mofados, e a mortalha não sai de cima da 
Minha ossatura envelhecida; e viro-me, e 
Reviro-me nesta sepultura que não é um 
Sepulcro; são minhas memórias póstumas,
São minhas lembranças fúnebres, são 
Minhas recordações funestas, que vêm 
Incomodar-me, a quererem outro encosto,
Para voltarem à vida; e tento dialogar, 
Não há jeito de desenterrar-me, não há 
Mais como voltar-me à luz? sair a escolher
Carne de primeira, carne nova e cheirosa,
Que precisa de beber sangue todo dia; e 
Volto ao meu recanto, e nem um regato 
Para cantar a marcha fúnebre, ou o 
Réquiem; aqui não há riacho, córrego,
Ribeirão; e quando alguém chora, e cai
Uma lágrima aqui, é uma imensa 
Melancolia para nós, a lágrima é 
Imediatamente evaporada, não chega às
Ponta das nossas calcinadas línguas.

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