terça-feira, 24 de julho de 2012

Noturno Nº 1; BH, 060702011.

Não durmais, não durmais, não, nunca, a morte
Pega os que dormem; esses estão mais
Perto dela, são dela, estão com ela;
Sentem no pescoço o frio da lâmina
Certeira, não sonham e vivem pesadelos
Na vida; pensam que vivem, mas são enganos;
Pensam que falam a verdade, mas mentem;
Apresentam-se como heróis corajosos, destemidos,
Infalíveis, mas são covardes, são farsas; não
Os homens mais homens que aparentam ser;
Tirais-lhes as chupetas e choram; tirais-lhes
As mamadeiras e esperneiam; tirais-lhes
Os seios de mãe e pirraçam; tirais-lhes
Os peitos de pai e ficam desprotegidos,
Desgarrados do rebanho, ovelhas perdidas,
Presas em espinheiros, pois dormem;
Todos dormem de bocas abertas, babam,
Roncam, ridículos, polegares, recém-nascidos;
Querem ser eternos e constroem catedrais; querem
A posteridade e erguem pirâmides, cavam
Túmulos nas rochas maciças e sepulcros
Nos mármores mais nobres e dormem; e o
Sono não os deixa; e a morte empoleira-se
Nas pálpebras deles; não os deixa acordados
Nunca; grito-lhes: levanteis, andeis, sejais
Das estrelas; elevais-vos além do além;
Façais das cordilheiras montículos; domeis
Vulcões e bebais-lhe a lava e respondais:
Qual a velocidade suficiente para andar
Sobre as águas? qual a equação que mostra
Como se controla o universo? quem dorme
Jamais conseguirá as respostas; quem dorme
Não vê o que o Borges viu; e fogem da
Realidade no sono; e fazem do sonho
A única maneira de serem felizes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário