terça-feira, 24 de julho de 2012

Noturno Nº 3; BH, 060702011.

À noite os fantasmas saem para caçar; fogem
De museus, mosteiros, fortalezas, castelos;
Cemitérios, tumbas, escombros, galerias,
Bibliotecas, pinacotecas, masmorras, calabouços;
Sanatórios, hospícios, senzalas, aldeias, terreiros, quintais;
Livram-se das peças antigas onde estão
Ligados, das artilharias ultrapassadas; dos 
Corredores por onde vagam, das sepulturas
Esquecidas, das lápides em ruínas, dos entulhos;
Dos espaços vazios, das páginas dos livros
Antigos, das telas e molduras dos quadros;
Das argolas e das correntes, das penumbras
E das trevas, das almas relhadas nos 
Pelourinhos; dos espíritos sacrificados
Nos totens, dos batuques dos atabaques
E ciscos levantados do chão nos redemoinhos
Do pé de vento; e caçam os desprevenidos
E aparecem para aqueles que não podem 
Vê-los; trocam de vestuários nos sótãos, confabulam
Nos porões e escondem-se nos espelhos para 
Assustar as imagens dos imperceptíveis; e bolinam
Os corpos das virgens com seus hálitos
Seculares e soltam suas risadas de auspícios,
Seus risos de agouros, suas gargalhadas alienadas;
E aos primeiros raios que conseguem se desgarrar
Do sol, alucinam-se em suas feridas crônicas,
Suas cicatrizes e tatuagens silenciosas;
E voltam às suas tocas, ocupam seus devidos
Lugares, satisfeitos, saciados, tão naturais,
Que não são nem notados pelos fantasmas
Do dia, que saem a trabalhar, a fazer turismo,
Ao lazer, a estudar, a fazer arte, a ler e a 
Escrever; a rezar missas, a visitar doentes 
Como se não fossem fantasmas; como que
Nem seque têm noção da falta de percepção.

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