terça-feira, 26 de março de 2013

O mentiroso é um farsalhão e a mentira uma farsa grande; BH, 0210702005.

O mentiroso é um farsalhão, e a mentira é uma farsa grande, 
E de pouco mérito; mentira é palhaçada,
Ato burlesco, uma farsada infeliz de quem vive na farsa e
Que tem o destino como uma peça burlesca de teatro e
Faz da vida um ato ridículo, próprio da farsa, da coisa de
Pantomima; mesmo que o fim seja negro, um berço escuro,
Sujo de carvão, coberto de fuligem, o próprio farrusco e a
Verdade estiver escondida lá, atrás dela teremos que
Ir, até a encontrar; a verdade não é ferrugenta,
Corta mais do que a espada imprestável e na
Nossa face, ela não pode se passar por um chanfalho;
E no nosso rosto, ela não pode ser uma máscara e no
Nosso semblante, carranca e nem na nossa cara, farrusca;
A verdade é grande, não é pequena, tal qual
Um farroupo, um porco que não tem um ano; foi
Justamente atrás da verdade, que surgiu a revolução
Federalista gaúcha de 1835, foi ao procurá-la que o
Farrapo foi à guerra; foi a verdade que deu viva à
Farroupilha e fez do farroupa, indivíduo que se passava
Por miserável, desprezível e mendigo, menção de
Herói nacional; a mentira é frágil, de um lado, igual ao
Farro, o bolo de farinha de trigo, e do outro, grossa, tal o caldo
Grosso de cevada; ao debochado, amigo de pândegas, boêmio
E farrista, poucos dão crédito nos dias de hoje; verdade então, aquém,
Aqui, ali, além, apareça sem desdém; que seja vinda do
Farricoco, pessoa que usava hábito e capuz para acompanhar
Enterros, tomar parte em procissões; do fárreo, bolo de farinha
De trigo, o primitivo "bolo de noiva", que em Roma, simbolizava
O casamento; a verdade é para acabar com o farrear da mentira em nossos
Corações; e quem fica a descomedir-se moralmente em patuscadas,
No fim vira um trapo, um mulambo humano, pessoa que,
Mais parece pedaço de roupa esfarrapada e não
É o digno revolucionário gaúcho do período regencial;
Minha gente, já dizia a minha avó: mentira é farraparia,
Falsidade é farrapagem, e ilusão é mulambaria; e a ira é
Que nos faz esfarrapar a nossa fardagem e é o ódio
Que vem farrapar a nossa consciência; só que não se
Preocupa com a consciência é o fascíola, o verme achatado,
Da classe dos Trematódeos, que se encontra sobretudo nos
Canais biliares do carneiro; a espécie de plantas criptogâmicas,
A fasciolária, gênero de conchas univalves, fusiformes, pois
Quem não as têm, não se encontrará nem com a fasciotomia, a
Incisão cirúrgica da fáscia, ou aponevrose; a humanidade,
Desde dos fastos, desde dos anais, registros públicos de fatos,
Obras memoráveis, desde o calendário da Roma Antiga,
Que continha os dias fastos e os nefastos, procura a felicidade,
O conhecimento, e desvendar todos os mistérios;
Aquele que gosta de luxo, é arrogante, pomposo, farto em
Todo o seu físico, fartuoso no vestir, fartoso no andar, e
No sorrir, não passa de uma fataça, uma tainha grande
E acabará, com certeza, numa frigideira de gordura quente
A ferver e depois será servido; cada fatacaz, cada pedaço,
Cada fatia grande, aos famintos e sem o milagre
Da multiplicação; a felicidade agora, meu povo, é
Improrrogável, não é a verdade que acarreta
Desgraças, não é o falso que é nocivo, funesto; é a
Verdade que tem de ser irrevogável, a qual teimo com
Ela, determinado pelo fato, de que é a mentira
Que é fatal para a raça humana; é a fatalidade o que nos
Causará a falta da verdade, é o acontecimento funesto, a
Desgraça, o fatalismo, o próprio do sistema dos que tudo
Atribuem à fatalidade, ou ao destino a negar o livre-arbítrio;
A mentira sim, é que e fatalista, e o homem deve
Ser criador, inventivo, fértil, fecundo de grandes e boas
Ideias para justamente com tanta e busica fecundidade,
Abundância e grande produção, faculdade reprodutora e
Facilidade de proliferação de obras de todos os tipos, afastar
Da arte a densidade conjuntural e estrutural da mentira.


Meu sonho é escrever com fecundidade;
BH, 01º0801101202005;
Publicado: BH, 0260302013.


Meu sonho é escrever com fecundidade 
E quando penso em escrever, penso em James Joyce, penso na qualidade
Dele de fecundo; e quando penso em escrever, penso em Fernando Pessoa
E penso na abundância que ele foi e que ainda é
E continua a ser; e tantos outros de grande
Produção, que se eu fosse pensar neles agora, de
Uma vez só, o meu pensamento seria bem pequeno; e
Não teria eu faculdade reprodutora, facilidade
De produção de obras de arte e nem proliferação
Que me igualasse à fecundez dos nossos grandes
Nomes da humanidade; meu sonho é um escrito
Fecundativo, um manuscrito fecundante, um pergaminho
Composto de teor fertilizante e que servisse para fecundar
Não só a mim, mas a todo representante da raça
Humana; se tivesse o dom de comunicar a um germe,
O princípio, a causa imediata de um desenvolvimento,
Penso que assim saberia fertilizar, desenvolver, fomentar
E concertar as melhores ideias para a felicidade
Dos seres humanos; por isto procuro pensamento fecundante
E espírito fecundador e ser um ser fecundativo e
Aumentar a minha fecundação, para que ela seja
Maior do que a de febo, do que a de febra que me
Compõem, para que não seja simplesmente, uma carne;
Uma carne sem osso e sem gordura e muito menos uma fibra, ou
Só um nervo; e composto de força e de energia,
Um faz tudo nesta arte que amo e poder ser considerado
O indivíduo que exerce variadas indústrias e se ocupa
Em múltiplos misteres, uma leal e real factótum, escrita feita
De ferro, (Fe); meu sonho é um dia ser capaz de ser capaz, ser
Salvo e resgatado pela poesia, mas, ao ser este fato falido, o
Farinhento deste semblante feculento, que se dissolve com qualquer
Favônio e não o vento considerado próprio e que trazia felicidade,
Qualquer outro desmancha meu ar feculoso; já próximo do fateiro
Da morte, sinto que tenho que guardar a alma numa
Fateira, pendurada num gancho, ou num arpão com
Que se tiram objetos do fundo da água; o espírito até
Que já foi uma espécie de âncora para fundear pequenos
Barcos; hoje é só procelas, nenhum gancho de ferro para
Pendurar carnes, segurará a minha, quando a morte
Vier buscá-la; de mim, aqui nesta terra, não restará
Talhada, ou porção, pedaço, fatia; é por isto que deixo a
Minha obra me fatiar, fazer de mim em fatias, a mostrar o
Quanto sou trágico, de aspecto sinistro, de jeito profético
E de fado fatídico e chego a ser fatigador quando falo;
O mundo torna-se cansativo e o destino a fatigante e o caminho
Exaustivo, porém, a luta sem fatigamento, a vida sem fadiga e
Sem o estafante que nos causa prazer no fim da jornada;
Ou o fatigiado que valorizará o nosso pensamento no fim
Do período; foi fatigante, mas valeu a pena, é meu, sou
Meu, sou eu, podeis me fatigar no sofrimento, e na
Injustiça; podeis me importunar, enfastiar e cansar,
Morrerei fatigioso e feliz e cansativo e embriagado
De lucidez; aquele que prediz o futuro, que fala que é
Profeta, vaticinador, fatíloquo infalível, ou fatiloquente,
Não passa de um néscio e nem deixa de ser presumido,
Petulante, vaidoso e oco, pois o fátuo no fundo é um louco;
Não conhece nem o fatímida, o descendente de Fátima, filha
De Maomé, cuja descendência se formou a tribo dos
Fatímidas, que constituíram o império do Magrebe, em Marrocos;
É assim que quando escrevo, mesmo ao não atingir a grandeza
De quem escreve de verdade, dispo-me da roupa e do terno e de todo
Vestuário e do fato da farpela e da fatiota e nu, feito
Um idiota, que não sabe coisa e nem ação feita; e que
Não sabe o que é real, não entende um acontecimento
E sem sucesso, não dá conta nem de um rebanho pequeno; e
Com efeito só entende de intestino e de barriga de animais.


Konstantinos Kaváfis, O Deus abandona Antônio;
Publicado: BH, 050402013.


Quando, à meia-noite, de súbito escutares 
Um tiaso invisível a passar 
Com músicas esplêndidas, com vozes - 
A tua Fortuna que se rende, as tuas obras 
Que malograram, os planos de tua vida 
Que se mostraram mentirosos, não os chores em vão. 
Como se pronto há muito tempo, corajoso, 
Diz adeus à Alexandria que de ti se afasta. 
E sobretudo não te iludas, alegando 
Que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou. 
Como se pronto há muito tempo, corajoso, 
Como cumpre a quem mereceu uma cidade assim, 
Acerca-te com firmeza da janela 
E ouve com emoção, mas ouve sem 
As lamentações ou as súplicas dos fracos, 
Num derradeiro prazer, os sons que passam, 
Os raros instrumentos do místico tiaso, 
E diz adeus à Alexandria que ora perdes.



Konstantinos Kaváfis, À espera dos bárbaros;

Publicado: BH, 050402013.


O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
E de coroa solene se assentou
Em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
O chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
Um pergaminho no qual estão escritos
Muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
Usam togas de púrpura, bordadas,
E pulseiras com grandes ametistas
E anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
De ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
Tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
Derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
E aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
E todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
E gente recém-chegada das fronteiras
Diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.



Konstantinos Kaváfis, Ítaca;
Publicado: BH, 060402013.



Se partires um dia rumo a Ítaca, 
Faz votos de que o caminho seja longo, 
Repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
Nem o colérico Posídon te intimidem; 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento, se sutil 
Emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
Nem o bravio Posídon hás de ver, 
Se tu mesmo não os levares dentro da alma, 
Se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais, com que prazer, com que alegria, 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
E belas mercancias adquirir: 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, 
E perfumes sensuais de toda espécie, 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrina 
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim, 
Rico de quanto ganhaste no caminho, 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
E agora saber o que significam Ítacas.



Nenhum comentário:

Postar um comentário