segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Não tenho mais lugar para esconder-me; BH, 03040902014.

Não tenho mais lugar para esconder-me,
Tiraram de cima de mim os céus
E o chão de debaixo dos meus pés;
Não tenho mais loca,
Gruta, ou caverna,
Tiraram meu corpo do local;
E vi-me fora do núcleo
E da placenta;
E vi-me a nadar na areia,
A morrer sufocado,
A padecer afogado,
Com os pulmões empedrados,
O organismo desolado;
Migrei errante pelo universo,
Forasteiro a ser recebido nas cidades fantasmas;
E os habitantes vinham dar-me as boas-vindas:
Os ciscos do lixo levado pelo vento,
As palhas e as folhas secas arrastadas de lá para cá;
A poeira e as sombras,
Os recantos abandonados;
Senti-me expulso do paraíso,
Sem cometer nenhum pecado
E todos condenaram-me:
Pedi pão,
Deram-me pedras;
Pedi água,
Deram-me vinagre;
E cobraram-me milagres,
Transformar venenosas cobras,
Serpentes vis,
Em beija-flores,
Em bem-te-vi;
Está aí a desgraça,
Gritam-me;
Está aí miséria,
Uivam,
São tuas,
Transforme-as em obras-primas;
És artista,
És senhor de dons,
Transforme-as em obras de arte;
E cala-te,
Quando tiveres um trunfo,
Ouviremos-te cantar em triunfo,
Longe disso,
Dá vida a esse teu lixo.

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