terça-feira, 27 de setembro de 2016

Não desejo uma mulher e um ouro e um capital e um tesouro; BH, 0240902016.

Não desejo uma mulher e um ouro e um capital e um tesouro 
E desejo um amor, um estouro, uma boiada disparada, uma
Avalanche de pedras vivas; não desejo o de comer, não
Desejo o de beber, nenhum prazer, multidão, religião,
Legião, salvação; o que queres dar-me, é o que não 
Queres dar-me e para mim, tanto fez, ou tanto faz, ter 
Ou não ter, ser ou não ser; para quem leva tudo o que 
Tem, aplausos, para quem não é ninguém, nem nada 
Para levar tem, nem corpo, aplausos também, amém; há
Muito tempo não leio um livro, desconjuro, quê isso? e 
Nem escrever mais, escrevo nas lascas do tempo e 
Não canto, num canto, uma canção, perdi a voz no 
Fundo da garganta do desfiladeiro, joguei nas Termófilas
O corpo inteiro; com saudades das falésias, com saudades
Dos despenhadeiros, das pedreiras de pedras lascadas,
Dos cometas errantes, dos universos ciganos; quem tem 
Uma lágrima para emprestar-me? meus olhos secaram,
As hortas morreram, não reguei mais nenhum deserto;
Preciso duma coriza, uma saliva, algo para umedecer o 
Meu olhar; e no dia em que voltar a verter uma lágrima,
Serei o homem mais rico do mundo, com muito fundo e 
Nenhuma rasante e ao ir adiante, encontrarei os 
Caminhos de lâmpadas e com os pés de luzes, as 
Obras de letras, as artes de palavras e enfeitarei-me
Igual a um louco, que despe-se nas encruzilhadas e 
Nu, enfrenta o futuro, seguro na mão mais súbita,
Dalgum fantasma mais súbito do limbo mais distante.

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