quinta-feira, 7 de novembro de 2024

o sal grosso do suor do meu corpo de ogro

o sal grosso do suor do meu corpo de ogro
abasteceu o mar morto que ficou mais
morto ainda igual ao lago morto que se
transformou o meu coração couraçado
encouraçado que torpedo nenhum levou a 
pique o que já estava destroçado o sangue
salgado a carne seca charque carne de sol
defumada maturada tudo carne morta já de
muitos anos de pântano de brejo de lodo de
lama de areia movediça piche donde ao me
ver morto por cima d'água do mar morto
gritaram está a andar sobre as águas meu
fantasma sorriu meu leviatã levitou gargalhou
o fauno a névoa enganou o olhar traidor não
era orvalho não sereno não era neblina não
era garoa era brisa maresia era fuligem de
queimadas treblinka eram bolas de mofo era
fogo-fátuo era gás de cadáveres era luz de 
estrela que morreu de lúcifer antes de ser 
expulso do céu agora o mundo acabou todos
os oceanos estão mortos todos os corações
salgados entupidos com sangues engordurados
sangue de sebos de bois de carneiros de bodes
agora acabou a aurora não se conta mais a hora o
tempo a demora frustradamente demasiadamente
densamente percebeu-se que tudo era nada que
nada era tudo quem ficou satisfeito ficou quem
não ficou satisfeito não ficou

BH, 0100902024; Publicado: BH, 9701102024

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