quarta-feira, 1 de abril de 2026

não aprendo até hoje não aprendi

não aprendo até hoje não aprendi
nem no futuro aprenderei que as
coisas estão no universo só que 
preciso aprender das leis universais
dos princípios das virtudes das
relações estelares das interações das
galáxias dos intercâmbios entre os
infinitos aglomerados de estrelas de
constelações porém meu bruto coração
não é fruto não é fruta pão é pau é
pedra é torrão não me deixa ver além
do meu nariz não me faz dar um passo
à frente de todos os meus passos
quando vejo caminhei em círculos
andei apara atrás dei marcha à ré
agourei minha mãe meu pai não saí
do lugar comum fechei todas as portas
os portais as janelas me isolei no visgo
da resina me colei com os pés presos na
cola veio um físico amigo cortou minha
força de gravidade mesmo assim não
levitei era pesada demais a minha
consciência que me fazia inconsciente
tinha a alma na umidade tinha o ser no
breu tinha o espírito de porco espinho a
espinhela caída o quebranto minha avó me
apareceu numa aparição de assombração
rezou ladainha num canto da cozinha
acordei atônito a falar esperanto

BH, 020202026; Publicado: BH, 01°0402026'

a pimenteira à entrada do barracão

a pimenteira à entrada do barracão
da minha avó à direita de quem
chegava à esquerda de quem saía
olhava-me quando aparecia para
visitá-las menino nada sabino nada
ladino nada sandino nada saladino
minha avó escolhia a pimenta mais
bonita mais vermelha dava-me de
presente fazia-me comer a pimenta
na hora não faz mal se não comer
os sabiás vão comer vão acabar
com todas sempre gostava de ir
menino paladino ao barraco em
cima do barranco onde minha avó
morava com a mãe o marido césar
o filho lourenço a pimenteira na
porta do lado de fora à esquerda
de quem saía à direita de quem
chegava tinha sempre uma puta
para ser benzida rezada bolinada
aos risos cochichos comichões
cócegas arranhões tinha sempre
o pote com água potável fresca
talhas cheias de tralhas jarras
vasos penicos bacias gamelas
tachos fogão de barro branco à
lenha onde acendia-se cigarro
de palha na brasa pinguinha
na moringa fumo para mascar
bananas na garrafa para fazer
vinagre era só sorte tudo era
usado para espantar o azar

BH, 020202026; Publicado: BH, 01°0402026