quinta-feira, 1 de novembro de 2018

JOSÉ IGNÁCIO PEREIRA, O POETA DO CÉU AZUL; Reza; BH, 070502010.

Camponesa ao filho:
Ô Zé,
Vai lá no corguinho
E traz um pouco
D'água na garrafa
Da santa.
Hoje tem reza
E nóis precisa
De água benta.

Palavras não têm poder não transformam-se; NL, 0240502008; Publicado: BH, 070502010.

Palavras não têm poder não transformam-se
Em nada a não ser em bobajadas nada
Mais do que bobajadas deixa de ilusão de
Que a fé remove montanhas ou de que a
Montanha não vem a Maomé Maomé vai a
Montanha a fé passa tu passas Maomé passa a
Montanha fica lá no mesmo lugar até o
Fim dos tempos a não ser que seja formada
Por um minério nobre caro aí então será
Transportada transformada nas indústrias é
O capital o progresso o mercado que ditam
A regra devastar em nome do desenvolvimento
O que Deus criou o homem põe abaixo numa
Ida numa vinda de vento as palavras são vãs
Todas metem-me raiva às vezes ira
Rancor destilam minha cólera fazem-me
Digerir o meu fel descaracterizam-me causam-me
Pânico fazem-me ferver de ódio são todas enganadoras
São todas mentirosas nada será dado nada será
Acrescentado não têm combustão não têm
Substantivos não são verbos só adjuntos
Adjetivos desclassificadores a língua
Temos a língua o idioma que dizem que é
A riqueza de um povo para que? o povo
Vive com fome de letras de palavras não
Tem pão não tem arroz com feijão então o
Povo come a língua come o idioma deixa
De existir como povo não precisa falar não tem
Em que opinar para reclamar da dor bastam
Duas letras o a e o i para chorar não precisa
De palavras apenas de lágrimas para rir bastam
O r o i ou o r o i o a porém o povo não
Tem do que rir tem do que chorar
Do que se lamentar no resto é melancolia
Vaidade que se aprecia na elite na burguesia
No povo nada se tem a apreciar a não ser  na
Hora de eleger os abutres do poder os ratos que vão
Roer as entranhas da nação as aves de rapina que
Denigrem a nossa geração os vermes predadores que
Nos tiram do sério acabam com a nossa razão

Quando será que poderei falar; NL, 0110402008; Publicado: BH, 080502010.

Quando será que poderei falar
Com intuição dizer com convicção
Sou um poeta ou exclamar com toda
Empolgação enfim sou um poeta
Mas por outro lado como fazer poesias pois se sei
Que de manhã encontrarei inúmeros
Seres humanos a dormir nas calçadas debaixo dos viadutos ou
Das marquises? é aí que aparece toda a minha
Incompetência é aí que sinto toda a minha
Ineficiência demonstro toda inércia sei
Que minha poesia não tirará ninguém
Das ruas nem dará um lar a alguém sei
Que um poema não vale a pena para quem não
Tem casa tem fome tem sede mas mesmo
Assim para não pensar em mim nem ser
Por ambição apesar de toda desigualdade entre
Os seres humanos gostaria de saber quando será
Que poderei registrar o epiteto de poeta?
Quando terei a alcunha de algo que faça
Referência a um ser de qualidade? pois
Um poeta sem qualidade também não tem
Significado sentido direção
Quando será que serei necessário útil neste
Infinito universo de versadores de prosadores
De bardos? quando será que terei autonomia
A sensação de ser um homem livre que vive em
Liberdade que exerce de fato a soberania a
Cidadania? continuo a ver mendigos pelas
Ruas a indiferença da elite a insensatez da
Burguesia a obtusidade do rico a estupidez
Da classe política continuo a ver a cegueira do
Povo porque que teimo em ser poeta se 
Não sei nem ser ou existir faço o uso fruto
Da irresponsabilidade? sou irresponsável aos
Extremos do limite extrapolo o senso da paciência
Não abrigo em meu coração um único fator
Que exale gratidão não tenho o direito de
Querer ser um aedo com lucidez de poeta

Vamos ver o que é que sai; NL, 0310302010; Publicado: BH, 080502010.

Vamos ver o que é que sai
Donde se espera que não saia
Nada todos olham dizem desse
Mato não sai coelho desse
Buraco não sai tatu nesse
Rio não se pesca peixe vamos
Ver o caso minha gente o que
É que sairá deste bardo renegado
Desta alma de vate aflita e deste
Espírito em conflito do maior
Acelerador de partículas construído
Espera-se que saia o boson de
Higges a chamada partícula
De Deus que provará a matéria
Escura etc formação da massa
Cósmica etc tal aconselho
A esperarem algo daqui também
De repente podem ser surpreendidos
Da ostra não sai a pérola a
Abelha não faz o mel a flor
Produz o pólen? deste ser mal
Iluminado um ectoplasma pode
Fluir ou um espírito se materializar
Num soneto psicografado ou numa
Poesia sublimar vamos ver no
Que é que vai dar têm males
Que vêm para o bem bens que
Vêm para o mal não esqueçamos
De lembrar que todas as águas dos
Rios  um dia desembocam no mar
As lágrimas são para os lenços
O choro para consolar nasci
Para consolar a quem chora
Obter a esperança de aprender a amar
A ensinar a quem não sabe

Quando um dia sucumbir; NL, 0250202010; Publicado: BH, 080502010.

Quando um dia sucumbir
Deixar de ser este ser sorumbático
Este Rimbaud meditabundo este
Mentecapto poético energúmeno
Socrático poucos raros amigos
Sentirão falta de mim levarei
O silêncio a surdez a cegueira
Não deixarei nada por herança
Quem quererá letras? quem quererá
Palavras? todos estão com os farnéis
Abarrotados de textos de frases
Adotarão símbolos falarão por sinais
Muitos dirão rimas nunca mais
Versos sequer cobertos de ouro além
Disso em papel vagabundo deixados
Por esferográficas baratas guiadas
Por mãos psicopatas comandadas por
Mente esquizofrênica psicótica que
Teimam quando tudo está fora de moda
Ultrapassado que ninguém liga
Teimam em empanturrar o
Cotidiano com palavreado insano
Quem quererá? quem se habilitará?
Dizer que leu o que o maníaco escreveu
Que se sentiu evoluir que algo
Mexeu dentro de si ou que uma luz
Nova surgiu além da rotina?
Quem vasculhará um pensamento
Que surgiu talvez antes do big bang?
Quem se perderá nestes labirintos
Mentais com o minotauro no seus
Calcanhares falta a sua Ariadne
A lhe guiar com o fio ou o herói
Teseu que no sonho não virá?

Fernando Pessoa visitou-me; NL, 0250202010; Publicado: BH, 080502010.

Fernando Pessoa visitou-me
Falei para Pessoa dá-me
Uma noção elevada das coisas
Passes-me uma das tuas estrelas para
Que possa amarrar nela minha
Carruagem fazer a viagem através
Do infinito sou pesado igual a
Um granito não voo por sopro próprio
Dependo imensamente dum
Gênio que teve tantas mentes tantos
Espíritos tantos astros celestiais ao
Teu inteiro dispor dependo dum
Gênio que viveu tantas vidas
Morreu tantas mortes continua
Vivo no sul no norte na noite
No dia na chuva na estia
Venhas com teus fantasmas ocultos
Teus castelos medievais tuas
Naus misteriosas elevar-me à
Condição de ser à beira do teu Tejo
Faças-me visitar a Lisboa do teu
Tempo sirvas-me a dobrada à
Moda do Porto que eu seja
Também uma ovelha do teu
Rebanho tu o meu guardador
Meu cão guia meu pastor do aprisco
Pessoa ria de mim zombava
Deixa de ser pequeno vai crescer
Tudo valerá a pena é o
Que quero meu Pessoa um
Dia inspirar-me também em tuas
Fontes sorver de tuas águas
Mananciais cristalinas crescer ser
Uma das estrelas de tua constelação

Estou com fome meu amor não come; NL, 0240202010; Publicado: BH, 080502010.

Estou com fome meu amor não come
Estou com sede meu amor não bebe
Beijos estou com frio meu amor não
Aquece meu corpo no calor sinto
Arrepios calafrios me percorrem as
Costas sinto o corpo suar em bicas
Minha coluna treme não me
Sinto firme em cima dos pés minhas
Pernas fraquejam querem dobrar-se
Derrubar-me ao chão não bebi
Hoje latejo meu coração de
Lajedo nenhuma libido tórrida esfarelada
Para cada lado que olho enxergo o
Vazio um oco dentro doutro oco na
Pedra dentro do estômago amolo a faca
O bisturi que cortará a carne volto
A não sentir os sentidos volto-me de
Costas ando em círculos ao contrário
Anti-relógio não percebi o tempo passar
Enruguei-me todo encovei-me me
Vi um camelo uma única corcova
Um dromedário o deserto à minha
Frente era infinito não tinha uma
Caverna para depositar meus ossos
Meus olhos eram areia inclusive as
Lágrimas como chorar com fome
Faltou ter a força do amor para forçar a
Vida? como chorar com sede não tendo saliva
Para beber dos beijos dos lábios da mulher
Amada? deixei a pele escaldada
Não plantei rimas colhi versos
Não encontrei o remédio minha
Vida continuou no chão apelei
Para o veneno do escorpião