sexta-feira, 25 de novembro de 2022

nome do pobre é problema

nome do pobre é problema
nome do rico é felicidade
outro nome do pobre é fome
outro nome do rico é mesa farta
deus do pobre é deus dará
deus do rico é deus mercado
polícia do pobre é o teje preso
polícia do rico é em que posso ajudar ao
distinto cidadão?
sina do pobre é pagar imposto
sina do rico é a sonegação
outros nomes do pobre são beltrano
fulano
sicrano
outros nomes do rico são doutor senhor
cavalheiro magnata
por aí vai até nunca mais
pobre só tem deveres
rico só tem direitos
garantias
pobre até faz o bem sem olhar a quem
rico toma até de quem não tem bem
pobre só existe para existir o rico
rico existe para fazer o pobre não existir
pobre não tem nem sombra
água fresca
rico tem maracutaias
mordomias
a burguesia
a elite
a plutocracia
pobre é bastardo
rico abastado
dai ao pobre o que é do pobre o nada
dai ao rico o que é do rico o tudo até o pobre
pobre sobrevive de esmolas
de restos
o rico vive de heranças
festanças
gastanças
vida do pobre é tempestade
vendaval
vida do rico é bonança
carnaval
pobre rói osso com a corda no pescoço
pobre é só trabalho sem diversão
rico ainda faz do pobre um bobão

BH, 060202022; Publicado: BH, 02501102022

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

vem de lá uma agulha de pedra

vem de lá uma agulha de pedra
que chegou num raio duma tempestade
de trovão
de tarde
a meninada ficou a imaginar
a decifrar
a conjecturar que
a pedra era um raio
que o raio era uma pedra
que a pedra era uma agulha
cada um com uma pedrada
na cabeça rachada
que pedra
que nada
que raio
que nada
que agulha que nada
que meninada
que nada
que raio
parta num parto
a meninada encantada na enxurrada
que abria valas nas via
nos morros
nas encostas
as ruas enlameadas
os cachorros molhados
eletrizados arrepiados
a sacudir os pingos nos is
as galinhas nos poleiros
os galos nos terreiros
cada quintal um viveiro universal
com fauna
flora
mundo real a ser explorado
por expedições de fenícios a descobrir
riquezas egípcias que os tios traziam
de viagens ao nilo
ao mediterrâneo
às tumbas dos faraós
às pirâmides
suas assombrações embalsamadas
caravanas de camelos
dromedários com os tesouros que
ficaram guardados nos templos dos tempos
das cristaleiras
dos armários

BH, 0100802022; Publicado: BH, 02401102022

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

ai usas muitas letras muitas palavras aí

ai usas muitas letras muitas palavras aí
aí pareces até um mocorongo genocida que
disse uma vez que não gostava
nem lia livros pois livros eram muitos cheios
de muitas letras
de muitas palavras em páginas repletas
de coisas escritas aí
ai poderias escrever menos frases aí
ai que fazes da vida?
não custa nada perder um tempinho
bem devagar a ler umas laudas
escritas por um velho
que não tem mais nada a fazer na vida
a não ser cronicar
prosear aí
ai se diminuires os períodos
as sentenças
os versos
provérbios ninguém ficaria
tão cansado assim para ler uma poesia aí
ai teus pensamentos me doem
teus argumentos não têm fundamentos
teus fragmentos perderam filamentos
te tornam um balde vazio
ou uma moringa à míngua
ou uma jarra que mesmo vistosa uma negra
elegante não a equilibra na rudia
em cima da cabeça esbelta de rainha
de países mais nobres d'africa aí
ai mal consigo interpretar um haicai
ou um versículo bíblico aí
ai imagina então uma parábola parabólica
cheia de metáforas
de linguagens
de discursos figurativos
iguais aos do maior poeta conhecido
jesus cristo aí ai

BH, 0170802022; Publicado: BH, 02301102022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

o coração é capenga só bate dum lado

o coração é capenga só bate dum lado
justamente para o lado de dentro que
é o lado aleijado
o coração é perneta só pula com
uma perna só a parecer um saci pererê
não é coração que suporta rojão
não aguenta um tranco bem dado
não sustenta um trampo para a sobrevivência
é um coração vagabundo de cachorro vira-latas
de cão sem pedigree
de gato que cruza estradas bêbado
de madrugada
é um coração vilão que qualquer puta
o leva pela mão
o arrasta nas sarjetas
nas valetas
nas valas a inferno aberto
nos guetos
nos esgotos esgotados
de tão coração escroto
se perde nas periferias
nas freguesias dos aglomerados das favelas
foge das polícias nas adjacências
para não ser mais um caso esquecido pelas
estatísticas
para não ser mais uma vez humilhado
ou enfim ser assassinado
é um coração de preto fujão desesperado
por que quer ser amado mas como
quer ser respeitado mas
o racismo estruturado
quer ser preservado mas
não tem alicerce
não tem constituição na construção
nasceu na destruição
nasceu na ruína
é um coração de doido doído dolorido
sem analgésico
não tem vacina
não tem remédio
só tem medo
não tem história
só uma herança maldita com engulhos
sacos sem blandícias
sem adornos
com confetes
serpentinas
nos bailes dos inferninhos
saco de pancadas
nas mãos dos leões de chácaras
volta ao jazigo moído
um olho roxo posto para fora
um nariz chato bem mais achatado
um beiço grosso bem mais engrossado
chora num canto um lixo amontoado

BH, 050502022; Publicado: BH, 02201102022

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

é uma guerra entre pai e eu

é uma guerra entre pai e eu
é uma guerra surda
é uma guerra cega
é uma guerra muda
em suma
é uma guerra fria
só não esquenta devido
a intervenção de mãe
eu pai não nascemos
um para o outro
sempre quando posso
quero pegá-lo à unha
quando não fica esperto
acaba por levar umas
outras
fico mais chato quando
aperta a depressão
fujo para o meu quarto escuro
isolo-me
não quero saber de nada
quem chega perto
acaba por levar um safanão do nada
sem dó
mãe é que é o elo
é como se fosse uma escrava minha
que me dá banhos
limpa os meus pés
corta minhas unhas resignada
como a mulher que lavou os pés de alguém
com as lágrimas
enxugou com os cabelos
achei até bonita essa colocação de submissão
uma coisa que não sou
é submisso
só se for com muita força
ou à base de sossega leão
fora disso o meu mundo não cai
sei que ninguém quer saber de mim
das minhas coisas mas
é por culpa de mim mesmo
é que não aceito presenças
nem carinhos
nem amor
ninguém tem consciência da minha existência
não conto nas estatísticas
também mando todo mundo se foder
por qualquer motivo
ou sem motivo não importam a ocasião
a motivação
às vezes até conforto-me quando capto por
alto que um tal de bolsonaro
é presidente do país
pelo que ouço falar do cara
parece que é pior do que sou
isso é um alívio para mim

BH, 0220502019; Publicado: BH, 01801102022

agora não vejo mais o sol

agora não vejo mais o sol
agora não vejo mais a lua
nem as estrelas
até júpiter
vênus
já sumiram das minhas madrugadas
quase manhãs de manhãzinhas
agora não posso mais ficar bêbado
como gostaria para parir poesias
todos os santos dias
os profanos também
agora são só dilemas
não posso mais dar vidas a poemas
é que o hormônio testosterona
não destila mais nos desfiles
dos desfiladeiros virginais
é que a adrenalina
não entra mais em erupção
a fazer pulsar o coração
e a libido esfriou
apagou o fogo do tesão
a brasa do tição que virou carvão
o carvão que era brasa virou cinza
agora jeremias é só lamentações
sem salmos de davi
sem profecias de absalão
penso que também
sem a longevidade de matusalém
nem oração para dizer amém
emparedado a degredado
ando descuidado desgarrado
fico mais calado mesmo sem estar
sob baioneta calada de baixo calão
ou de lâmina de facão mas
sem ter nada para falar ao sol
sem falar à lua
ou a vênus
ou a júpiter
só este boneco de defunto mudo
que perdeu a ternura
à boca voraz da sepultura
a querer devorar carne
em avançado estado de putrefação

BH, 030502022; Publicado: BH, 01801102022

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

de férias da vida porém faz frio às voltas da mesa da cozinha

de férias da vida porém faz frio às voltas da mesa da cozinha
luto contra os jogos mentais
as confabulações espirituais
busco confusões aleatórias
distantes da consciência
lá fora de mim o mundo vive
a chuva parou
só as vibrações naturais teimam em lembrar
que estou também vivo apesar de velho
alquebrado
faz tempo que não pego num livro
pergunto para quê?
tanta gente que pega em livros
levou um fascista ao poder
fico triste com esta alusão
um país que era de ordem progresso
referência de nação
dum dia para o outro
virou um país de desordem regresso
regredimos
ao fascismo literal
ao racismo estrutural
à homofobia genuína
elogios aos torturadores
louvações aos ditadores louvamos aos
misóginos
agressores de mulheres
crianças
compactuamos com os estupros
a pedofilia
a prostituição infantil
sem deixar de frequentar as igrejas católicas
evangélicas em convivência
conivência com esse lado sujo da humanidade
agora será um trabalho árduo
hercúleo para retirar os loucos
suas loucuras do comando da nação
onde estávamos com a cabeça?
quando o povo não pensa o país padece
pagará caro por este erro histórico
o de ficar do lado errado da história
já começaram a aparecer as falcatruas
as mentiras do clã oficial com suas corrupções de corrompidos
de corruptos corruptores
os tráficos de influências
os nepotismos cruzados
os ditos apoiadores de tais farsas
se veem no mato sem cachorro
não têm onde enfiar a cara
morrem de vergonha
de desgostos afogados nos esgotos por
tantos descalabros com o povo
principalmente o povo trabalhador brasileiro
que não merecia tantas tiranias vilanias

BH, 0160502019; Publicado: BH, 01701102022