quinta-feira, 7 de agosto de 2025

quando te vejo igual água entro em ebulição

quando te vejo igual água entro em ebulição
meu vulcão em erupção meu coração em tal
pulsação meu carvão em combustão meu vil
corpo todo em incêndio farol de milha tição
em fumegação lenha boa para defumação só
não posso te ver que sinto comichão à urtiga
coceira de cansanção pela pele pelada póros
em liquefação perco sólido perco gasoso
perco até pastoso perco em qualquer estado
da matéria escura ou clara tua presença
reverbera em qualquer estação primavera
verão outono inverno do ano terreal lunar
ou o doutra dimensão espacial se estás
comigo sou o dono da bola controlo toda a
situação danço conforme a música dou
murros em ponta de faca pego em fios
desencapados dirijo na contramão não tenho
olhos para mais nada és a minha única visão
se tivesse sete vidas as sete depositaria em
tuas mãos não quero mais nenhuma vida
além da tua a não ser a minha para poder te
oferecer sei que é pouco pelo muito que
fazes por mim para merecer não mereço
nem viver mas vivo por ti por ter o teu ser o
único ser entre os seres vivos que sabe me
fazer sentir ser viver pois se navegar é
preciso viver não é preciso se não for guiado
pôr teu coração em sensação em emoção

BH, 090702025; Publicado: BH, 070802025.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

não posso fazer nada pois tenho que fazer meus poemas

não posso fazer nada pois tenho que fazer meus poemas
que não servem para nada pois não posso ser nada nem
um heterônimo tenho que ser meus poemas minhas poesias
para que tanto nada então? a vida não é nada até mesmo
para quem tem tudo que porém no fim não pode levar nem
a si mesmo chega de cobrar ao falar em tanto nada mas
que é nada pode falar em alguma outra coisa? quem é
nada pode ter somar dividir multiplicar alguma coisa?
só diminuir nem vida acrescenta para viver o que é nada
não pode ter nem de comer nem de beber a não ser se for
álcool destilado desdobrado misturado rabo de galo coquetel
molotove tnt de manhã é que se ver o resultado do
arrasa quarteirão o tremor das mãos as palpitações
do coração as depressões os sentimentos guardiães dos
pesadelos dos terrores suores que ensopam camas lençois
fronhas travesseiros sou cego de nascença nem na sofrência
enxergo alguma luz no fim do túnel o trem quando me
atingiu estava com o farol apagado morri desesperado
não havia outro jeito para morrer só morre diferente
quem não faz gesto de gente não tem sentimento nem
sentido ou direção isto é nada em nenhuma dimensão

BH, 0110702025; Publicado: BH, 050802025.

deixai envelhecer curtir igual ao vinho na pipa

deixai envelhecer curtir igual ao vinho na pipa
de carvalho a cachaça no barril de amburana
o whisky no tonel de bálsamo usai todas as madeiras
nobres no processo jequitibá ipê tapinhoã grápia
freijó deixai maturar defumar tal a carne a linguiça
no pau defumador em cima do fogão à lenha da cozinha
de minha avó menino não põe água na moringa
cuidado com a pinga pura não mistura vai estragar
pinga é coisa sagrada só não se pode é abusar
ou se ver até bode preto no altar o padre rouco
pároco não vai gostar apesar de também tomar umas
antes da missa rezar esse vigário padre junta com o
sacristão aí então só estalar de língua é pinga
com limão a mulher o sacristão arruma escondida
na sacristia antes do fim do dia de noite rola a folia
pega essa oferta na caixa de esmola cala a boca da
vadia já bebeu demais pode bagunçar a orgia seu
vigário não é bobo nem otário não comete crime
igual ao padre amaro só toma umas outras escondidas
no armário deus perdoa quaisquer desvios de conduta
não serão umas recaídas profanas chamuscar
no fogo do inferno as batinas santas do santo irmão

BH, 0150702025; Publicado: BH, 050802025.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

JOHN LEE HOOKER:


 

de repente desperto para uma nova era

de repente desperto para uma nova era
as crianças agora dormem em paz na terra
os homens acabaram com as guerras o sol
continua nascente poente nas serras não se
fala mais em fome sede infelicidade tudo se
encerra dos céus não caem mais bombas a
arder os seres vivos todas as armas atômicas
nucleares foram desativadas as pálpebras de
todos pesam com o sono da inocência os
cílios as pestanas entrelaçam-se só se pode
enxergar do amor do perdão as centelhas
sob as sombras das sobrancelhas já a
maldição dos malditos as malvadezas dos
malvados as maldades dos males dos maus
foram todas ao chão bem enterradas em
covas profundas o planeta respira numa
atmosfera renovada o ar não é mais
rarefeito poluído pesadão encardido os
pássaros voam livres das gaiolas viveiros
arapucas alçapões a flora está abençoada a
fauna resguardada ninguém mais agride
ninguém todo mundo acordou vivo no
paraíso terreal real como se estivesse sido
arrebatado ao celestial à essa nova vida de
sonho de criança de mulher no embalo do
ato do gozo do amor que regalo para o
regaço sagrado a mulher no seu devido
lugar tal santa num altar deusa num andor
inviolável intocável só a servir ao amor ou
musa dalgum poeta louco sempre apaixonado

BH, 090702025; Publicado: BH, 040802025.