domingo, 5 de abril de 2026

a tua morte foi um bem não vais mais viver

a tua morte foi um bem não vais mais viver
a atrapalhar a vida de ninguém ou a
constranger alguém diante dos
semelhantes agora todos estamos
livres de ti não serás mais uma carga
pesada às costas doutros nem do
governo nem do estado nem da
sociedade morreste como um
condenado à morte na primeira
consulta foi lido o veredicto sem
apelação tem que abrir a barriguinha
aqui ali mesmo ficaste não voltaste à
casa nunca mais te vi a não ser nas
minhas divagações nas minhas
reminiscências intermitências nas
aparições nas assombrações visagens
que imagino ver pelos antigos cantos
onde ficavas encostavas marcavas
marcas da tua cabeça das tuas costas
das tuas mãos até nos meus ombros
sinto quando encostas como encostavas
antigamente agora todos estamos
aliviados sou o único que persisto nas
lamentações nos remorsos nos
arrependimentos pois se continuasses a
viver atrapalharias o sistema colocarias
abaixo as estruturas abalarias as igrejas
não dava mais para continuares a viver
todos decidimos que tinhas que morrer
morreste mártir herói sei como ainda
dói em mim a cruz que trago às costas
a arrastá-la pesada pela estrada fora
pelos trinta seis sóis cravados no
calvário onde faço questão de está
pregado por cravos ensanguentados

BH, 0290102026; Publicado: BH, 050402026

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