segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Nunca me curarei dos meus males; BH, 03001002016.

Nunca me curarei dos meus males, e os 
Meus males não são nem tão males assim: 
Não são cravos nas palmas das minhas
Mãos, nos peitos dos meus pés, não são 
Coroas de espinhos na minha cabeça, 
Marcas de ralados nos joelhos e cotovelos,
Por quedas devido ao peso das cruzes e 
Não são feridas de lanças ou de relhos e
Açoites nas costas; meus males não são
Males de santos, são males de humanos e 
Qualquer um outro suportaria meus males, 
Curaria-se deles rápido, e os superariam,
Só eu que não posso superá-los? não 
Posso suportá-los e nem curá-los? nem 
Quero acreditar em mim; precisaria de 
Um médium para psicografar-me, para 
Ver quais são as causas destes males tão
Bobos, tão tolos, e eu a fazer-me de 
Sofredor; será que precisaria de um 
Pajé, um vodu, um xamã? para acordar
Um outro ente amanhã? passa boi, passa
Boiada, montes detrás dos montes, águas
Debaixo das pontes, ventos nos moinhos,
Birutas e cataventos, zurros de jumentos
E digo ao mundo que não aguento, carregar
O mundo nas costas, quando não carrego,
Nem um saco de cimento; uma raiz, uma
Semente, se tudo pesa-me neste chão de 
Vidente; e teimo curar loucura com 
Aguardente, teimo curar coração com 
Religião, curar dor com oração, e são só
Males de antão, que não enchem um vão,
E quero encher as mãos e faço questão
De dizer que não são males de são, e que 
Na verdade, nem tão males são, são males
Vãos e eu a chorá-los em cachoeiras e 
Cascatas, a derramar baldes no quintal
E os vizinhos a perguntarem: qual mal? és 
Mesmo um cara de pau, de vidinha surreal.  

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