domingo, 21 de agosto de 2016

A cada dia que passa escassa a vida fica; BH, 0200802016.

A cada dia que passa escassa a vida fica, 
A cada dia que passa; e o que é, o que 
Existe, é só a morte aos olhos mortos das
Palavras mortas dos mortos; e cada palavra
Morta é formada por letras mortas; e a 
Palavra dita, já nasce morta, depois que 
Foi dita e todo que dita uma palavra é um 
Morto; as estrelas mais estrelas, os sóis 
Mais sóis, as luas mais luas, os homens mais
Homens morrem; ou dormem, ou fingem-se
De vivos, de acordados; têm pesadelos
Terríveis e cantam que sonham e sofrem
E dizem que o sonho acabou, quando nunca
Sonharam; não reagem à infelicidade, 
Visitam igrejas, prostram joelhos, postam
Mãos em orações e os ossos são jogados
Nos lixões; não são mais aqueles ossos
Sacros, raros, de caveiras fossilizadas, de 
Esqueletos lavrados pela lua e ressequidos
Pelo sol; e da carne, nem se fala mais da 
Carne, num mundo sobrenatural vegano, de
Fantasmas, zumbis, ectoplasmas eletrônicos; 
E da voz, nem se fala mais da voz, a voz é 
Morta, como a carne é morta, a voz não 
Ecoa como o som nos sombrios; e o som 
Também é sombra, ondas nas pedreiras,
Anda nas pradarias, voa nas falésias, margeia
Os paredões; e das cordas vocais, fizeram
Forcas para enforcar com sufoco, uma voz
Que dizia-se poética; só vagava de vaga em 
Vaga a transpor vagalhões, a ressuscitar 
Poesias, poemas mórbidos, a impedir o
Féretro fatal da antologia; valeu-se, alguém,
De uma alavanca, outro de uma pedra, mais 
Um de um átomo,  moveram o universo de 
Lugar e a morte insistia em ficar lá, a fazer a 
Cada dia que passa, a vida ficar mais escassa.

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