terça-feira, 30 de agosto de 2016

Quem vai primeiro não interessa a morte; BH, 0280302016.

Quem vai primeiro não interessa a morte
Quando passa o cerou, não olha o pescoço; todo 
Morto morre duas vezes: morre uma vez quando 
Nasce e morre outra vez quando morre; morto,
Só vou ao enterro de quem for no meu; morto,
Deixo que os mortos enterrem os seus próprios 
Mortos; e não choro a morte de um morto,
Quanto mais a morte de um vivo; e nestas 
Reminiscências de morto, avalio quem vale mais,
O vivo, ou o morto; e penso que o morto vale
Mais do que o vivo, o vivo não vale uma vida,
Não vale um centavo furado e nem um favo 
De mel curado; o morto vale uma eternidade,
Uma posteridade, uma imortalidade; o morto
Vale uma lembrança, uma memória, uma 
Recordação, toda uma herança tida das 
Tranças e da trama universal; e o vivo? 
Quem acredita no vivo? e todo vivo inveja 
Um morto e quer ser um morto na intimidade;
E quais são os nomes dos vivos e os nomes 
Dos mortos? os nomes dos vivos são mortos, 
E os nomes dos mortos são vivos; os vivos 
Partem-se em mil pedaços, os mortos, se 
Partem-se em um único átomo e causam o 
Caos; o vivo não é nada, não presta para nada,
O morto é matéria de obra-prima, de obra de 
Arte, é poesia, é poema; o vivo é elegia, é 
Póstumo, fúnebre, é féretro, funesto, é esquife,
É tudo que é morte; o morto é eterno, é vida 
Perpétua, é o que não acaba mais; o vivo é 
Desprezado e desperta orgulho, soberba, 
Ambição e é desprezível; a morte não quer o 
Vivo, a morte quer o morto, para a morte o 
Vivo é morto e o morto é vivo; e quantos anos
Resta-nos de vida? se tivemos toda uma vida 
Para sermos vivos e não fomos, agora, que estamos 
Perto da morte, é que não seremos vivos nunca.

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