sábado, 6 de abril de 2013

Nietzsche, No curso de minha viagem.

No curso de minha viagem empreendida través das numerosas morais,
Delicadas e grosseiras, que reinaram e ainda reinam no mundo, encontrei
Certos traços que recorrem regularmente ao mesmo tempo e que estão
Ligados uns aos outros: tanto que no final adivinhei dois tipos fundamentais,
Dos quais se desprendia uma distinção fundamental.
Há uma moral de senhores e uma moral de escravos: - acrescento desde
Agora que, em toda civilização superior que apresenta caracteres misturados,
Se pode reconhecer tentativas de aproximação de duas morais, mais
Frequentemente ainda a confusão das duas, um mal-entendido recíproco,
E por vezes sua estreita justa posição que chega até a reuni-las num mesmo
Homem, no interior de uma só Alma.
As diferenças de valores no domínio moral surgiram, seja sob o império
Que ressentia uma forma de bem-estar a tomar plena consciência daquilo
Que a colocava acima da raça dominada - seja naqueles que eram dominados,
Entre os escravos e os dependentes de todos os níveis.
No primeiro caso, quando são os dominadores que determinam o conceito
"Bom", os estados de alma sublimes e altivos são considerados como o que
Distingue e determina a classe.
O homem nobre se separa dos seres em que se exprime o contrário desses
Estados sublimes e altivos: despreza esses seres.
Cumpre observar em seguida que, nessa primeira espécie de moral, a antítese
"Bom" e "ruim" equivale àquela "nobre" e "desprezível".
A antítese "bom" e "mau" tem outra origem.
Desprezam-se o covarde, o temeroso, o mesquinho, aquele que não pensa
Senão na vantagem imediata; de igual modo, o ser desconfiado, com seu
Olhar inquieto, aquele que se humilha, o homem-cão que se deixa maltratar, o
Adulador mendigo e sobretudo o mentiroso: - é crença essencial de todos os
Aristocratas que o comum do povo é mentiroso.
"Nós os verídicos" - esse era o nome que se davam os nobres Grécia antiga.
É evidente que as denominações de valores foram primeiramente aplicadas
Aos homens e mais tarde somente, por derivação, às ações.
É por isso que os historiadores da moral cometem um grave erro ao começar
Suas pesquisas por uma pergunta como esta:
"Por que elogiamos a ação que se faz por piedade?"
O homem nobre possui o sentimento íntimo que tem o direito de determinar o
Valor, não tem necessidade de ratificação, estima que aquilo que lhe é
Prejudicial em si, sabe que se as coisas são honradas é ele que as honra, é o
Criador de valores.
Tudo o que encontra em sua própria pessoa, ele o honra.
Semelhante moral é a glorificação de si mesmo.
No primeiro plano, encontra-se o sentimento da plenitude, da potência que que
Transbordar, a felicidade da grande tensão, a consciência de uma riqueza que
Gostaria de dar e se expandir.
O homem nobre, ele também, vem em auxílio dos infelizes, não ou quase não
Por compaixão, mas antes por um impulso que cria a superabundância de força.
O homem nobre presta honra aos poderosos em sua própria pessoa, mas com isso
Honra também aquele que possui o império sobre ele próprio, aquele que sabe
Falar e calar, aquele que tem prazer em ser severo e duro para consigo mesmo,
Aquele que venera tudo aquilo que é severo e duro.
"Wotan colocou em seu peito um coração duro", assim se lê numa antiga saga
Escandinava, palavras realmente saídas da alma de um viking orgulhoso.
De fato, quando um homem sai de semelhante espécie é orgulhoso por não ter
Sido feito para a piedade; é por isso que o herói da saga acrescenta:
"Aquele que, quando jovem, já não possui um coração duro, jamais o terá!"
Os homens nobres e ousados que pensam dessa forma são os antípodas dos
Promotores dessa moral que encontra o indício da moralidade na compaixão,
No devotamento, no desinteresse; a fé em si mesmo, uma altiva hostilidade e
Uma profunda ironia diante da "abnegação" pertencem, com tanta certeza, à
Moral nobre como um leve desprezo e uma certa circunspecção com relação
À compaixão e ao "coração quente". -
São os poderosos que sabem honrar, essa é uma arte, o domínio em que são inventivos.
 O profundo respeito pela velhice e pela tradição - essa dupla veneração é a base do
Mesmo direito - a fé e a prevenção em favor dos antepassados e em detrimento das
Gerações futuras são típicas na moral dos poderosos; e quando, ao contrário, os
Homens das "ideias modernas" que acrditam quase instintivamente no "peogresso" e
No "futuro", perdendo cada vez mais a consideração pela velhice, mostra já
Suficientemente com isso a origem plebéia dessas "ideias".
Mas uma moral de senhores é sobretudo estranha e desagradável ao gosto do dia
Quando afirma a severidade de seu princípio, que não se tem deveres senão para com
Seus iguais; que a respeito dos seres de classe inferior, com relação a tudo que é
Estranho, pode-se agir à sua maneira, como "o coração mandar" e, de qualquer
Mameira, mantendo-se "além do bem e do mal": - pode-se, se se quiser, usar aqui de
Compaixão e daquilo que a ela se liga.
A capacidade e a obrigação de usar amplo reconhecimento e de vingança infinita -
Somente no âmbito de seus iguais - a sutilidade nas represálias, o refinamento na
Concepção da amizade, uma certa necessidade de ter inimigos (para servir de algum
Modo de derivativos às paixões como a inveja, a agressividade, a insolência e, em
Suma, para poder ser um amigo verdadeiro): tudo isso caracteriza a moral nobre que,
Já o disse, não é a moral das "ideias modernas", o que a torna hoje difícil de conceber,
Difícil também de desenterrar e descobrir. -
Mas é coisa bem diferente com a outra moral, a moral dos escravos.
Suponhamos que os seres sob servidão, oprimidos e sofredores, aqueles que não são
Livres, mas incertos de si próprios e cansados, que esses seres comecem a moralizar:
Que ideias comuns encontrariam em suas apreciações morais?
Provavelmente gostariam de exprimir uma desconfiança pessimista contra a condição
Humana, talvez uma condenação do homem juntamente e de toda sua condição.
O olhar do escravo é desfavorável às virtudes dos poderosos: o escravo é cético e
Desconfiado e sua desconfiança é fina com relação a todos os "bens" que os nobres
Veneram, gostaria de se convencer que, mesmo lá, a felicidade não é verdadeira.
Ao contrário, apresenta à plena luz as qualidades que servem para amenizar a
Existência daqueles que sofrem: aqui o vemos prestar honra à compaixão, à mão
Complacente e segura, venerar o coração ardente, a paciência, a aplicação, a
Humildade, a amabilidade - de fato, essas são as qualidades mais úteis, são
Praticamente os únicos meios para aliviar o peso da existência.
A moral dos escravos é essencialmente uma moral utilitária.
Chegamos no verdadeiro lar de origem da famosa antítese "bom" e "mau": no
Conceito "mal": - se inclui tudo aquilo que é poderoso e perigoso, tudo o que possui
Um caráter temível, sutil e forte e não desperta nenhuma ideia de desprezo.
Segundo a moral dos escravos, o "homem mau" inspira o temor; segundo a moral dos
Senhores, é o "homem bom" que inspira temor e quer inspirá-lo, enquanto o "homem
Mau" é o "homem desprezível".
A antítese atinge seu auge quando, por uma consequência da moral de escravos, uma
Forma de desdém (talvez mais leve e benevolente) acaba por ser ligada mesmo aos
"Homens bons" dessa moral.
De fato, o homem bom, segundo a maneira de ver dos escravos, deve ser em todo caso
O homem inofensivo.
Ele é bonachão, talvez um pouco estúpido, em resumo, é um bom homem.
Em toda a parte onde a moral dos escravos chega a dominar, a linguagem mostra uma
Tendência a aproximar as palavras "bom" e "tolo". -
Última diferença fundamental: a aspiração à liberdade, o instinto de felicidade e todas
As sutilezas do sentimento de liberdade pertencem à moral e à moral dos escravos tão
Necessariamente como a arte e o entusiasmo na veneração e no devotamento são o
Sintoma regular de um modo de pensar e de apreciar aristocrático. -
Agora se pode compreender, sem mais explicações, porque o amor como paixão - é
Nossa especialidade européia - deve ser necessariamente de origem nobre: sabe-se
Que sua invenção deve ser atribuída aos cavaleiros-poetas provençais, esses homens
Magníficos e engenhosos do "alegre saber", aos quais a Europa deve tantas coisas e quase ele própria.

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