segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Morrerei sem ser sarado; BH, 01501102016.

Morrerei sem ser sarado, curado, mas, também, 
Para quê morrer com boa saúde? e morrerei 
Esquecido, pois, nem eu lembrarei-me de mim; 
E é bom morrer assim, com a certeza de não 
Ter muitos anos para viver-se; e é ótimo morrer
Sem ter nada: já não tenho mais cabelos, nem 
Dentes e vistas, e em muitos lugares do corpo,
Nem pele; e já não tenho mais amor, paz e 
Satisfação, só canseira e enfado de fim de vida;
Preocupa-se, ao morrer, quem tem muitas 
Coisas, e terá que deixar tudo aqui; a graça de
Quem não tem nada, como não tenho, é que 
Não deixa nada, nem a vida, lembranças, 
Recordações, memórias, nostalgias, saudades;
Até tentei curar-me, mas, malgrado meu, ficava
Com mais ressaca, do que com cura; não ficava
Sarado, restabelecido, revigorado, ficava 
Cansado, esgotado, sem sangue para verter,
Sem suor para molhar a camisa e sem lágrimas,
Sentidos, emoções, tristezas ou alegrias; se 
Pudesse dizer alguma coisa para alguém, diria, 
Cura-te a ti mesmo; e, quem sou eu para dizer 
Isto, se não sei nem dizer alguma coisa para mim,
Quanto mais para alguém? e se tentasse dizer,
Ouviria de volta, não sabes de nada, e queres
Dar uma de falastrão? ora, enfia a tua língua em 
Algum orifício da tua alma, do teu corpo, ou do 
Teu espírito; e bem feito para mim, não cuidei 
Da minha vida, não aprendi a viver e nada posso
Querer passar a outrem; pouparei os ouvidos de
Todos e seguirei o conselho, enfiarei a minha 
Língua no buraco do tatu.

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