domingo, 27 de dezembro de 2015

Ainda não descobri a roda; BH, 050802013; Publicado: BH, 02701202015.

Ainda não descobri a roda
Se a tivesse descoberto talvez não seria
A descoberta contundente que um
Inventor alega ao descobrir algo
A pior das emendas inda não
Descobri o eixo para que serve o
Eixo há quem entra no núcleo
Celular à base duma organização
Põe abaixo a mais sólida estrutura
Há quem ergue quem derruba quem
Constrói quem destrói de gatinhas
Com gestos ridículos de gaudério
Engatinho nas minhas ações não movo
Uma pedra certa do lugar da última
Vez que movi uma pedra pus abaixo
Toda a pedreira paralisei-me desde
Então como um paralítico de tão
Envelhecido que fiquei taxavam-me
Como se fosse do período neolítico
Não há como fingir-me de moderno
De atual de evoluído chamo a atenção
Pela deslocação por estar tão fora do tempo
Que oculto sou notado ausente sou percebido
Neutro não saio incólume como se
Estivesse impregnado duma fragrância
Que identifica-me de longe não
Uso perfume de forma alguma não
Uso desodorante não creio que o
Odor seja por faltas para evitar estas
Digressões não sairei mais do casulo
Não serei mais afronta deixarei
Tudo guardado do lado de dentro

Victor Hugo, Desejo.


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar
E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo
Desejo depois, que você seja útil


Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.
Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada
Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem
Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar
Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar
E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Daqui do murundu não se ver; BH, 050802013: Publicado: BH, 02501202015.

Daqui do murundu não se ver
A sorte doutro lado da fronteira
Há o muro depois a muralha
Além a cordilheira o mar
Daqui do topo a vista prolonga-se
Perde-se até a noção as coisas
Confundem-se como algo que
Queremos dizer embaralhamos
O calor faz vibrar a paisagem
Os morros são de gelatina os
Aventureiros César Alexandre
Faziam a sorte venciam o azar
Os acomodados esperam que o
Universo faça a sorte para eles
Querem que o rio seja raso que as
Águas sejam tranquilas que os
Mares não sejam bravios os ventos
Não sejam fortes os sedentários não
Querem mudar o mundo para não
Ter que sair do lugar detestam
Revoluções rotações translações
Aliam-se alienados à força da
Gravidade não levitam
Chumbam-se ao chão enraízam-se
Nas rochas teimam que nada
Muda enquanto tudo se movimenta
Dum lado para outro na verdade
Das verdades nada é a mesma coisa
Igual normal mesmo que teimemos
Não nos mover um segundo adiante
Quem nos garante que somos os
Mesmos quem nos confirma

Ficarei horas aqui com esta vara; BH, 020802013; Publicado: BH, 02501202015.

Ficarei horas aqui com esta vara
De pescar na mão não pescarei
Nenhum lambari quanto mais um
Tubarão do tubarão sou a isca
Sou a caça a comida houve
Quem teve sonho maior do que
O meu houve obstinado que
Perseguiu baleias cachalotes orcas
Foi derrotado perdeu barco
Tripulação armamento vida tento
Pescar um peixinho o mais
Insignificante que seja nem
Precisa ser dourado nem precisa
Ser colorido só um peixinho de
Beira de Rio Santo Antônio ou
De beira de Rio Todos os Santos
Mas preciso de pelo menos um
Peixinho não é possível que terei
Que passar o resto da vida aqui
Sem pescar nada não quero
Acreditar que voltarei para casa
Com o meu aquário vazio se
Pelo menos encontrasse Jesus
Pelos meus caminhos como
Alguns pescadores encontraram
Lançaram as redes ao mar veio
Tanto peixe que quase rompia-se a
Rede ou afundava-se o barco
Jesus ia pegar um peixinho para
Mim não deixaria o meu aquário
Vazio assim meu anzol sem utilidade
Minha vara à toa bem que Jesus
Poderia encontrar-se comigo
Jesus é um bom pescador
Conhece a manha das águas
Sabe até andar por cima delas

Meu tempo de ociosidade é imenso; BH, 01º0802013; Publicado: BH, 02501202015.

Meu tempo de ociosidade é imenso
Meu tempo é um poema infinito minha
Vida é uma poesia eterna tento fazer
Poesias poemas do tamanho do meu
Tempo é a justificativa que encontro
Quando reclamam do tamanho dos
Escritos que deixo se fosse um ser
Ocupado que trabalhasse que fosse
Obrigado a ser responsável a pensar
Logicamente não teria tempo nem
Para descansar preguiçoso inimigo
Do trabalho sedentário o que de
Menos pensativo que encontro que
Não estressa não enerva é o de
Encher linhas de papel com letras
Palavras retiradas de lavras abandonadas
Que não dão mais trabalho garimpo
Mineração aí o entulho gerado tende
Acumular-se lixos para todo lugar
Poeiras ciscos cinzas ao redor vira
Um sítio paleontológico um depósito
Arqueológico com restos de ossos
Velhos por todos os lados a preguiça
Não deixa-me arrumar nada jogar fora
O que não presta espanar a poeira
Varrer a sujeira mesmo para debaixo
Do tapete fico até com vergonha
Quando recebo uma visita que quer
Até ler algo mas quando ver o tamanho
O acúmulo desiste na primeira linha
Leva a mal não deixa para outra ocasião
Outra hora mais aprazada aí faz
Um assim mais jeitosinho passa
Para mim que depois leio

Reparai que a cada dia que passa; BH, 01º0802013; Publicado: BH, 02501202015.

Reparai que a cada dia que passa
Fica mais impossível viver
Quando vem a noite os sonhos
Não a acompanham mais vêm
A insônia os pesadelos reparai
Que poucos nos alegramos todas
As tragédias desgraças desastres
Compartilham o nosso tempo não
Há mais cultura que nos seja
Agradável não há mais sabedoria
Com quem possamos dividir a
Inteligência foi expulsa do nosso
Convívio temos por companhia a
Violência desenfreada a leitura da
Onda de crimes roubos assaltos
Os vídeos das execuções dos
Arrastões dos sequestros o
Pânico é pregado livremente
Para beneficiar os grupos que
Nos controlam nos exploram
Sobrevivem do nosso pânico
Continuaremos atados às embiras
Presos aos elos algemados
Acorrentados continuaremos
Com a pseudo liberdade a falsa
Democracia com a certeza de
Que só quem detém o poder é
O que pode alguma coisa o povo
Não passa do detalhe de
Sustentação de massa de manobra
De ser cada vez mais chamado
A sustentar o estado a burguesia
A elite enganado iludido
Volta à casa todo dia no peito
A angústia na face a agonia

Nunca contei uma história quem; BH, 01º0802013; Publicado: BH, 02501202015.

Nunca contei uma história quem
Contavam histórias eram as minhas
Avós meus avôs mais certamente
Minha avó Felismina meu avô Donato
Nunca rezei uma reza rezadeiras
Também eram minhas avós sabiam
Rezas para todos os males davam
Certo não era igual hoje com
Gritarias gesticulações imprecações
Minha avó rezava com um balbucio
Não entendia nada benzia-me
Com um sussurro que parecia um
Chiado um zumbido soturno dava
Certo hoje é uma loucura só com
Muito pragmatismo evangelhos de
Resultados que não dão resultados
Entre os tempos de hoje os tempos
Das minhas avós dos meus avôs da
Minha mãe desprezo os de hoje
Fico com os doutroras não esqueço
As carpideiras benzedeiras com as
Suas preces milagrosas seus terços
Credos pais-nossos ave-marias
Os pozinhos as raízes as folhas
Os matos os galhos os ramos as
Arrudas as garrafadas os remédios
Caseiros para queimaduras as
Crianças que não têm avós tias
Nas vidas delas não têm infância
Mas só servem se forem avós avôs
Tios tias dos meus tempos de
Infância das antigas que sabiam
Cantigas cantos histórias casos
Causos que não acabavam mais
Fora as travessuras que me
Ensinavam coisas doutro mundo