quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

sou da antiga de mente de antigamente

sou da antiga de mente de antigamente
antepassada antecedente ancestral
sou da antiga ultrapassado retrógrado medieval
quero impedir abortos de estupros
quero expor vítimas ao escárnio
achincalhar quem sofre racismo
quero ser cristão mas quero
armas nas minhas mãos
esculachos ódios iras raivas
quero ser chamado de pessoa do bem
ao ser misógino xfóbico preconceituoso
quero desprezar as leis de newton
a teoria da evolução da espécie em pró da
criação antivacina ciência negacionista
perdi de vista os tempos nos quais defendi
a terra plana sem me ruborizar de vergonha
sem me intimidar
fico até admirado por não ter remorso
ou consciência pesada
ou sentimento de culpa
ou depressão por tanto mal que causei à
nação com a minha religião
o meu pastor me fez desprezar a cultura
a arte
o semelhante
não aprendi a amar ninguém
nem como a mim mesmo pois
defendo o garimpo predatório na amazônia
em reservas indígenas
defendo queimadas para beneficiar o agronegócio
defendo os venenos dos agrotóxicos em
benefícios dos lucros
não me incomodo nenhum pouco pela vida
dalgum morto
ou a destruição das serras sagradas pelas
mineradoras a usar a água dos mananciais
dos santuários
ou pelas barragens que soterraram quase
quinhentas pessoas vivas
ou pela pandemia que já matou
quase setecentas mil vidas importantes
não movi nenhum nervo do rosto
realmente sou o máximo em referência
para a humanidade abominar
no que é de mais moderno
registro tudo no meu caderno

BH, 0260602022; Publicado: BH, 040102023

entocado intocável lobo da estepe

entocado intocável lobo da estepe
a uivar para a lua
de longe os ventos respondem
as folhagens
os gravetos que gravam nos ciscos que
são sonetos
os riachos sorrisos de rios que riem
os regatos miam em ré
os ribeirões sombrios
os açudes sossegados mansos
os espelhados caminhos prateados
a noite segue inerte para quem não a
conhece mas vibra para quem é de fibra
tem cordas de violinos cavaquinhos violas
ou violões
poetas vilões roubam riquezas da noite
engravidam a madrugada que dá à luz
ao dia na estrada
vampiro o poeta foge para o esconderijo
rijo dorme teso como se fosse morto
cadáver roto que ninguém quer encontrar
em nenhuma encruzilhada para
encomendar
ou rezar uma missa de corpo ausente
ou fazer uma oração
ou uma prece pueril que seja para que
o defunto não peleja nas brenhas por onde
tem que andar a catar grãos de poeiras para
fazer picumãs
forrar os forros
os assoalhos das casas velhas
tudo é velho quando o poeta é velho
por mais que façam uma boa maquiagem
o presunto parecerá vencido
com jeito de carne estragada

BH, 0100802022; Publicado: BH, 040102023

resquícios com vestígios de vertigens de mim

resquícios com vestígios de vertigens de mim
aquela montanha é minha não preciso
transpô-la sou aquela pedra no meio do
caminho não necessito arredá-la do meu
universo que me pertence
autista severo possessivo possesso não o divido
com ninguém nem com os deuses
nem com os anjos
nem com os demônios das minhas
adversidades
detalhes de retalhos de mim
das incongruências da minha vida
das reminiscências da minha morte
premonições dos meus sonhos
dos meus pesadelos
do meu destino cruel
malgrado meu que malogrado
não sou um bem-aventurado
não fui bem-vindo à minha aventura que
é um precipício aberto numa fenda
duma rocha maciça de matéria escura
ou dum abismo inoxidável debaixo da ponte
de corda bamba
de pinguela de teia de aranha que
oscila na imensidão ó coração de cordeiro
ponha a cabeça no cepo
o carrasco quer descer o machado
ó sombra do que fui outrora na aurora
o ocaso me devora nos meus restos mortais
ó estrelas apagadas que
como sou a luz já é extinta
ó cosmos tão infinito quanto a minha inexistência
ó palavras fenecidas
ó vãs esperanças de ter atenção
do azul do céu azul
onde ter o que tem esse pássaro que voa
não se importa com o que tem 
leva-me minhas cinzas cativo
o vento açoita-me
dispersa-me como uma relva daninha seca
ou uma palha no redemoinho
ó penugens do que era
ó harmonia da filarmonia da sinfonia
dessa orquestra universal que não tive

BH, 0200502019; Publicado: BH, 040102023

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

faças alguma coisa para a sociedade mas o quê?

faças alguma coisa para a sociedade mas o quê?
faças alguma coisa para a comunidade mas o quê?
ora já sei entrarei numa academia
malharei a bunda
inflarei as nádegas
bombarei de glúten os glúteos
terei centenas de centímetros de rabo raba
milhares de visibilidades likes curtidas
compartilhamentos
mostrarei as coxas
a barriga malhada de tanquinho
os braços injetados
as costas largas saradas mas
que farás em benefício da coletividade?
as academias estão abarrotadas
as bibliotecas vazias
virarei lutador de programas apelativos
ganharei cinturões
ou participarei de confinamentos em casas
ou fazendas
ou de supostos perdidos pelados em matas a
vencer limites desafios
virarei celebridade
serei famoso convidado de honra
de eventos festas banquetes
estarei em alas de vips
com paparazzis aos meus pés
luzes de spots de holofotes
milhões de cliques de máquinas
fotográficas
ou de celulares de última geração
farei comerciais
anúncios em tvs
jornais
estarei em todas as plataformas
não haverá um que não terá inveja de mim
orgulho
quererá fazer o que fiz
serei referência
serei exemplo de meritocracia
quebrarei paradigmas
serei candidato a algum cargo eletivo
o povo me amará
serei bajulado
laureado
farei palestras de como vencer na vida
pelos próprios esforços méritos

BH, 050502022; Publicado: BH, 030102023

agora que temos na presidência da república

agora que temos na presidência da república
federativa do brasil um presidente
homofóbico racista misógino o que será
daquele brasil cristão republicano
democrático?
o que será do país trabalhista
trabalhador adepto do trabalhismo
com um governo subserviente ao capital
entreguista ao mercado
antinacionalista?
a nossa juventude que já não tinha
perspectiva de futuro agora se ver às voltas
com os ataques à educação à saúde
sabotagem às ciências ao desenvolvimento
com uma equipe administrativa que quer
acabar com as aposentadorias
com os aposentados
nada mais barra a destruição da cidadania
o acinte à soberania
o achincalhe ao povo com o fim dos
direitos sociais o vilipêndio aos cofres
públicos tomados de assaltos por uma
família de maníacos milicianos desesperados
que querem se perpetuar no poder
para isso cooptaram o executivo
o legislativo o judiciário
os meios de comunicação
os militares polícias federa
civil militar guarda municipal
todos atônitos com as correntezas de
benesses não enxergam o saco de maldades
contra o povo mais humilde
os desprivilegiados
os mais vulneráveis
mata-se preto pobres
índios sob às vistas das organizações de
controle nacionais
internacionais que até condenam mas
nada podem fazer já que a burguesia
a elite os rentistas só têm a lucrar com tais
descalabros assim sustentam a plutocracia
abraçam a aristocracia
mandam às favas os escrúpulos numa
repetição cruel da história mais recente do brasil
só o povo em massa mesmo
unido à juventude rebelde
à classe trabalhadora
aposentados podem colocar um freio
nessas diligências desgovernadas
precisamos ser rápidos antes que seja
tarde demais ao nosso país

BH, 0240502019; Publicado: BH, 030102023

cadê a inspiração que pensei que tivesse

cadê a inspiração que pensei que tivesse
cadê a meditação a concentração?
cadê as coisas que pensei que me engrandeciam?
a poesia
o poema
o soneto do qual sou neto
cadê a lucidez de espirito a consciência?
cadê a luminância a intuição?
cadê a percepção a fé
a coragem a audácia a ousadia?
cadê os dons?
pensei que era cheio de dons universais
dons espirituais
que nada nunca passei dum reles mortal
enganador enganado fingidor fingido
contumaz mentiroso que quanto mais
pensa em falar a verdade mais mente
escancaradamente
cadê a mente iluminada privilegiada?
observa que não passou
duma velha criança a fazer velhacarias
de velhacos
patifarias de patifes
cadê a velhice sadia
de mente sana in corpore sano?
se só o que faz é um aqui jaz num epitáfio
numa sepultura solitária de solitária duma
prisão de alta periculosidade cujos
prisioneiros são todos mortos vivos
vivos mortos zumbis modernos de vodus
sem sonhos
tudo que tocam viram pesadelos
não saem dos labirintos
das desistências
das inconlusões
latejam nas maldições das maldades eternas
nas estigmatizações
nas tatuagens dos tempos
nas falas dos ventos sem respostas para os enigmas
sem resultados para os mistérios
sem soluções para os problemas
sem luz para os olhos
sem tato para os dedos das mãos
sem sentidos
sentimentos
são tempestades de tormentos

BH, 0100102022; Publicado: BH, 030102023

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

aquela montanha é minha mãe não pariu um rato

aquela montanha é minha mãe não pariu um rato
quando aquela montanha não era minha mãe
minha mãe é aquela estrela que não apaga o
brilho mesmo com o passar do tempo da
eternidade junto com o tempo da imortalidade
ainda acompanhado com o tempo da posteridade
a luz o brilho daquela estrela só aumentam vão
deixar para trás o infinito que galopa à
velocidade da luz para tentar alcançar dimensão
tão incalculável num complô se juntam todas as
dimensões a estrela se transfigura num
complexo composto que parece ser um
aglomerado de bilhões de estrelas é só a minha
mãe a me ensinar a álgebra a aritmética
a matemática as genealogias dos fenômenos
as genialidades das genealogias as conjecturas
das coisas com suas causas efeitos as
fenomenologias dos espíritos sigo minha mãe
montanha sigo minha mãe estrelas aprendo
cada vez mais pois estamos juntos em espírito
em verdade em almas em entidades chega
sempre para mim com seus conselhos
cósmicos suas orações de tempestades
solares seus salmos de furacões universais
seus hinos de louvores que ecoam nos vácuos
tubulares são ouvidos por distâncias mais
distâncias de anos-luz a derrubar desfiladeiros
paredões a liberar a luz da liberdade no mais
opressor pensamento que queira a mortalidade

BH, 0210102022; Publicado: BH, 020102023