domingo, 24 de julho de 2016

Que queres tu de mim se nada tenho; BH, 090702016.

Que queres tu de mim se nada tenho 
A oferecer-te, nem vontade? queres ânimo, poder,
Potência e sou um deus falido e não posso
Nem comigo mesmo; mas, se quiseres alguma
Coisa de mim, tenho para oferecer-te, não
É muito não, não é nada, mas, posso oferecer-te;
Nada quero de ti, vil mortal, alma mórbida,
Espírito abalável, ser quebrantado, tudo
Que tens é descartável; certo, tenho carne, não
É de primeira, mas, é carne, tenho sangue,
Sangue venoso, contaminado, mas, é 
Sangue, tenho pele, músculos, nervos, 
Ossos, tutanos, medula; não alimento-me 
Disso, alimento-me de almas nobres, 
Espíritos elevados, seres iluminados, entes
Entendidos, entidades geniais, desprezo todos
Os tipos de comidas orgânicas e inorgânicas;
Se ainda tivesses sabedoria, discernimento,
Inteligência, poderias ajudar-me e serias
O único caso de um mortal a ajudar a um deus;
Mas, és tão reles que, nem a um deus
Moribundo igual a mim, és capaz de salvar;
Também já tive, outrora, o que os deuses 
Tiveram, fui quase um semideus e pelo visto,
Percebo, que estamos os dois no mesmo barco,
Que mais parece uma canoa furada; e não
Faças a mim mais orações e não faço-te
Mais orações, fiquemos combinados assim; sou
O único deus que não deu certo e que tem 
A certeza que vai morrer; sou o único 
Mortal ao qual um deus pediu ajuda;
E ambos já tivemos poder de vontade, poder
De potência, poder de querer e hoje, somos
Só dois velhos decrépitos, senis, caquéticos,
Cheios de lamúrias, a aborrecer outrem
Com lamentações; se cada um ficasse
Quietinho no seu canto, um a morrer lá,
Outro a morrer cá, mas, estamos sempre 
A incomodar um ao outro: siameses. 

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