domingo, 26 de fevereiro de 2017

Não sonho para não ter que acordar; BH, 0250202017.

Não sonho para não ter que acordar,
Sair do mundo onírico,
Fugir do universo utópico;
Então deixai-me lá,
A fingir que existo nesta treva fria,
A passar por um tição de fogo,
Uma pira olímpica,
Um archote de guerreiro,
Um ânimo de gladiador,
Uma disposição de soldado romano;
E a enganar,
Que este bloco de gelo,
Este urso polar,
Não sou eu no meu subterrâneo,
Na minha caverna de homem pré-histórico;
A minha ignorância só não me mata,
Porque já sou um morto
E não se pode morrer duas vezes;
E faço tudo o que todos os estúpidos fazem
E ajo de acordo com a unanimidade de todos os idiotas;
E só quando sonho,
É que posso sentir,
Que sou um ser real,
Livre do animalesco,
Distante da selvageria,
Da carnificina adiposa;
E carrego nos olhos aquele medo eterno de acordar
E carrego no sangue a frieza do réptil que não sabe amar;
E peço,
Não acordeis este corpo morto,
Não aticeis esta alma apagada,
Este espírito pessimista,
Que não vê perspectiva de otimismo em nada,
Nem nos céus e nem na terra;
Deixai este refugiado à deriva em alto-mar,
Não jogueis uma corda, 
Uma boia,
Uma catraia sequer,
Onde possa se agarrar;
É morrer afogado nas próprias lágrimas de lamentações e fim;
Nada mais resta a fazer desta carcaça humana,
Deus deu-lhe uma pedra,
Pulverizou-a e nem aproveitou a poeira,
Para camuflar-se no pó;
Virtual,
É um camaleão de simulacros,
Esconde-se no sono para passar a impressão que sonha,
Que é vivo,
Pois dizem que os sonhos nunca morrem,
Então,
Quem sonha também não morre nunca;
Deixai este falsificador na sua fingida dor,
Puxai as cortinas das janelas,
Acobertai os aposentos,
Acorrentai o sol,
A lua,
Os ventos.

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