segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O poeta como não é nada sempre pede; BH, 0190202017.

O poeta como não é nada sempre pede 
Para si alguma coisa: uma gota d'água ao
Oceano, uma pedra a uma pedreira, um
Grão de areia a uma duna; e ser ineficiente,
Quer ser eficiente, na construção de 
Pirâmides, morros, montanhas, cordilheiras
E muralhas; e cego, gosta de olhar as coisas
Bem de longe, de preferência, do infinito; é
Invisível, imperceptível, anônimo, alheio, 
Faz de tudo para chamar a atenção do 
Semelhante: reverência aos ventos, falas
Com as estrelas, encanta-se com cantos de 
Grilos, coaxar de sapos, casas adormecidas,
Ruas desertas, bater de asas de borboletas,
Joaninhas, gafanhotos e esperanças; passa
Horas a observar calangos, urubus e 
Gaviões em voos e deslocamentos de 
Nuvens; caçador de eclipses, mistérios e 
Sigilos, nunca revela o que encontra e 
Quando revela, mente na fonte, na semente,
Na célula; salvador de besouros, endeusa
Louva a deus e encena louvações à 
Libélula; e foge das gentes, das coisas 
Das gentes, para as coisas das aparições,
Das assombrações e fantasmagóricas; 
Teimoso, não faz orações e nem se declara
Ateu, esconde-se de cruzes nas encruzilhadas
E de igrejas nas esquinas, refugia-se em 
Cemitérios, obituários, ossários e sepulcros;
Esquisito, estranho, detesta tudo que gostam
E gosta de tudo que detestam; arredio, engole
A própria língua e só fala as palavras que não
Possuem letras, ou que só os mortos entendem.

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