sexta-feira, 4 de julho de 2014

Corra minha pena por este papel e veja o que podes fazer por mim; BH, 0401002008.

Corra minha pena por este papel e veja o que podes fazer por mim;
Doa-me o teu sangue e injeta em minhas veias vazias a tua tinta essencial;
Faça esta transfusão de sangue e salva este cão danado, sedento e
A morrer; corra, minha pena e ao morrer, dá-me a tua vida, a minha já
Não vale mais a pena, nada, pois nem uma simples poesia, é capaz de
Costurar; embrenha numa mata e não sabe mais sair, cai numa
Ribanceira e fica lá estendida, a esperar chegar alguém à beira do
Barranco; e é só o calango quem vem olhar e ficar a balançar a cabeça
E o resto a deixar para lá; o sol passa e nem sequer dá um bom-dia e
Ao chegar a noite, a lua nem vem; minha pena querida, destá, assunta,
Espia um tantinho e fala para mim: ô, esse menino, faz assim não,
Estouvado, falar para mamãe que fiz xixi na cama de novo; sonhei que
Estava na casinha, na privada e deu no que deu e quando acordei, vixe
Nossa Senhora, mamãe vai me bater, não tem jeito, vou apanhar de novo,
Bem feito, quem mandou mijar na cama? viajei no tempo e no espaço,
Viajei na era e entrei pelo cano; fui tomar banho no rio, mamãe não
Queria, tinha medo que morresse afogado e no entanto, morri de tantas
Outras maneiras, nestas inúmeras vidas de asneiras; oh, seu estúpido,
Olha o carro, vai atravessar a rua sem olhar? acaba por ser atropelado
Por um carro guiado por um maluco, ou um bêbado qualquer; bem, minha
Pena, já fizeste a tua parte, me aturaste nesta noite calorenta, onde ninguém
Mais me aguenta e és a minha única companhia neste papel creme, neste
Muro de lamentações, nesta fuga do racional para o irracional, da realidade
Para a falsidade e da consciência para a inconsciência; ai, como dói o meu
Dodói, é um velho coração, que trago aqui guardado dentro deste peito
Inusitado; qualquer dia para e aí, vou para o beleléu; e fica esta pena vazia,
Estas palavras ocas e vãs, este papel coadjuvante, que não é nobre e nem
Principal; e estas letras irregulares, quem um dia, na minha pós-história,
Quererá decifrá-las? são letras rupestres, cuneiformes, são letras rústicas,
Do tempo das cavernas, do dilúvio e das placas de argilas em que foram
Relatadas a destruição de Sodoma e Gomorra; são letras achadas em
Grutas, em ruínas de cidades devastadas por vulcões e em outras
Civilizações afundadas por águas de mares e oceanos; já não dizem mais
Nada estas letras teimosas, que não querem parar de preencher as lacunas
Brancas deste papel que nem um papiro não é; não é nem um manuscrito
De sábios, de sacerdotes, de filósofos, de sátrapas, escribas, profetas;
São letras dum mortal talvez já até morto, não é um discípulo, tenho certeza,
Não traz uma mensagem, ou uma profecia, ou a resposta dalgum oráculo;
Não traz esperança, ideal, ou ideia, não traz um pensamento revolucionário,
Ou um teor visionário; traz um pedaço de carvão para riscar o chão, uma
Vara para atravessar o rio e um cajado para se consolar na presença dos
Lobos das estepes e tem que abrir os olhos por onde andar; por que
Senão tudo faltará debaixo dos pés e nada respaldará o caminho seguido
Por veredas da justiça; basta, não quero mais que corras assim, creio que
Já estás cansada, já verteste muito sangue e continuo sedento; sou um
Vampiro bebedor de sangue de penas, ainda mais penas assim iguais a ti,
Que se deixam manipular por um maluco qualquer; basta, não sangres mais,
Não sei mais do que sou capaz, perdi o sonho e vago neste pesadelo; não
Sou modelo de comportamento e nem exemplo de ser humano, não sou
Grato, não trago virtude e não tenho o hábito da educação; não sei
Agradecer e esqueço de todos que me fizeram o bem e só me lembro de
Quem me fez o mal e cobro de todos a quem fiz alguma coisa e sei que
Nunca fiz nada para ninguém, nem para a raça humana; basta, já matei-te
Várias vezes, estás a chorar entre os meus dedos, a jorrar e a doar-me os
Teus últimos suspiros de vida e ainda não estou satisfeito; a noite não
Terminou e o vampiro só se recolhe ao romper da aurora, tem medo do dia
E do canto dos pássaros, tem medo da vida e gosta do cheiro da morte,
Tem medo da sorte e corre para os braços do azar; só sabe matar, não sabe
Amar, não sabe ter paz; amanhã estarás jogada num canto, este papel no
Fundo dalguma gaveta de cômoda esquecida nalgum lugar; estas palavras
Estarão envelhecidas e estas letras roídas pelas traças e pelas baratas e eu
Devorado pelos vermes, mais que porém, tudo esteja aqui escrito.

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