terça-feira, 31 de março de 2015

Não estou com vontade; BH, 02901202012.

Não estou com vontade, mas é porque
Não nasci com vontade e nem nasci;
Quem nasce, tem vontade de nascer e
Ânimo, quem nasce tem potência de
Poder e poder; não quis nascer com
Querer, não sei porque e não fui eu
Quem quis nascer; alguém quis por mim,
Alguém quis um espermatozoide, alguém
Quis um óvulo, só eu que não quis nada;
E agora quem está aqui a pagar o pato
Por tudo sou eu, o único que estava
Fora de tudo, da história, dos atos, dos
Gestos, dos jeitos; o único que não quis,
Agora é obrigado a querer violentamente
Tudo; e é obrigado a querer até a
Salvação, quando quer desesperadamente
A perdição; E torno-me insociável com os
Associáveis, torno-me ruide e sem
Gentileza; com educação de colonizado,
Cultura de colonizado, ninguém quererá
Que eu seja clonado, duplicado; se um de
Mim, é um chute no saco, dois de mim,
Seria o quê? moeram-me como se eu
Fosse café torrado, socaram-me no pilão,
Com a mão, como se eu fosse assim uma
Espécie de grão; e sou é uma graúna, uma
Gralha, uma tralha, uma talha da minha
Avó, cheia de geringonças dela; minha
Avó, que levo o destino dela, não teve
Nem o direito de morrer, e eu?

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