domingo, 17 de agosto de 2014

Deixarei o meu cadáver; BH, 0170802014.

Deixarei o meu cadáver,
Não tenho espírito
E nem tenho alma;
Homem nenhum tem alma,
Homem nenhum tem espírito
E nem sentido;
Deixarei o meu cadáver,
Para um bom uso;
Não deixarei letras,
Não deixarei palavras;
Homem nenhum tem letra,
Homem nenhum tem palavra;
Deixarei o meu cadáver,
Para um mau uso;
Não tenho sentimentos,
Não tenho virtudes;
Homem nenhum tem sentimento,
Homem nenhum tem virtude;
O cadáver de El Cid ganhou uma guerra,
Porque o meu cadáver não pose ganhar uma vida?
Ou ganhar uma morte?
E se for um cadáver com sorte,
A sorte que não tive na vida
E o azar que não terei na morte?
Deixarei o meu cadáver,
Nada mais tenho para deixar;
Desfilem-no pelas ruas em carro aberto,
Ergam punhos cerrados,
Desfraldem bandeiras,
Bandas de música,
Comoções populares
E impopulares;
Ergam meu cadáver como troféu,
Não deixarei mais nada;
Façam dele uma fumaça,
Uma fumaça de Caim;
Marquem-no com cicatrizes
E tatuagens
E parecerá ter algum valor de virtuoso;
Deixarei o meu cadáver,
Sozinho pode virar uma página,
Completar uma jornada
E pôr fim à uma história,
Que pode ser o começo;
Deixarei o meu cadáver
E não como derrota,
E sim por prêmio de uma vitória.

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