sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Alameda das Princesas, 756, 2; BH, 030802012.

O sol do sertão queimou minhas retinas e
Elas não viraram mar, nunca e inclusive
Para chorar, era uma absurdidade, faltava
Água para lágrimas; e chorava então,
O que chora todo sertão: vento acompanhado
Com tempestade de areia, espinhos de
Cactos, flores de palmas, raízes de mandacarus,
Desertos de rios temporários, rastros de cobras,
Pegadas de lagartos, ferrões de escorpiões;
E chorava tudo que era seco, como a música
De Sérgio Ricardo, na trilha sonora de Deus e o
Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; e
Chorava tal qual o enterro do sertanejo que
Não teve choro e nem vela e nem ladainha;
Um choro de poeira, de ossadas de bois,
Outros bichos ressequidos nas estradas; um
Choro marcado no compasso dos pés
Descalços, outros calçados com alpercatas,
Nas procissões pelos caminhos de terra
Batida; o sol queimou as fontes de água
Da minha fronte; e tive que beber suco
Gástrico, pancreático e bílis; tive que beber
Fel felpudo, arsênico e cicuta; e não pude
Mais embriagar-me como gostava antes; o
Sol fez com que as minha taquaras
Rachassem e pocassem, em fogos de
Artifícios, sem noites de São João; e posso
Ficar na chuva que encha todos os oceanos,
Mares; posso ficar na chuva dia e noite, o
Barro é tão tórrido, tão denso de coeso,
Que a água não penetra; e continuo seco,
Árido, sertão agora, não só nos olhos,
Mas em todas as moradas dos meus recônditos;
Sertão no espírito, na alma, no ser, sertão no
Corpo, deserto no coração, mar nunca não.

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