sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Portugal, 2949, Hangar 77, 9; A correnteza; BH, 0270702012.

A correnteza arrasta-me, como se levasse uma flor seca,
Uma flor morta; a correnteza, de roldão, de borbulhão
Em borbulhão, leva-me pelas enxurradas da vida; e

Como sacolas de lixo, cachorro morto, de lado para
Outro e sempre para baixo, sou jogado, a rolar ladeira
Abaixo; a correnteza, sem dó, faz de mim graveto, eu,

Que fazia nela barquinhos de papel; e no meio de
Entulhos, restos, sobras, lodo, lama, seixos, água
Barrenta, uma hora venho à tona e sem demora

Afundo, misturado com detritos, também trazidos pelo
Furor da correnteza; esperava a chuva só no nascer do
Sol, mas veio antes, veio na noite e continuou na

Madrugada e pegou-me, embalde, ladeira corredeira,
Enxurrada ligeira, com jeito de cachoeira; e vi muitas
Outras flores mortas serem arrastadas juntas com juncos,

Ramos, ramas, raízes, troncos, pedaços de pau; a
Correnteza não ouve suspiros, soluços, sussurros, não
Ouve choros, clamores, prantos, lamentações; a

Correnteza não ausculta corações e o meu, que é
Coração de mãe, é arrastado como se fosse um objeto
Descartado e mesmo que queira privilégio, não há

Privilégio; tudo é lixo, o luxo é lixo, todos são lixos e a
Correnteza não para, nem no fim da chuva, leva ainda
Algum tempo para se desfazer da impetuosidade; leva

Algum tempo para recompor, hidratar, serenar a
Adrenalina, restabelecer a libido, recompor o
Testosterona; a correnteza é locomotiva desembestada

Morro abaixo, sem freio e sem condutor e acorrentado,
Arrasta um corpo, advinha quem é o coitado?
A correnteza levou.

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