sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Não servi meu sangue.

Não servi meu sangue, porque
Meu sangue não serviu, era
Sangue de ser vil; contaminado,
Se alguém o bebesse, morreria
Envenenado; não fiz batismo
Com meu sangue, porque era frio,
E batismo tem que ser quente,
Como se fosse feito de fogo; não
Servi meu corpo, porque não
Era feito de trigo, era de joio,
E quem comesse desse pão,
Poderia morrer de fome, e
Quem bebesse desse vinho,
Poderia morrer de sede; não
Fui tentado no deserto, se era
O próprio deserto, de onde se
Desertaram todos os demais
Componentes da colmeia;
E o mel era amargo, era
Mel com gosto de lágrimas de
Crianças que não são amadas;
E o manjá era azedo, era
Feito de leite regurgitado
De bebês abandonados, em sacolas
De supermercados; e o maná  era
Salgado, feito do suor injusto
Dos escravos, das salivas ácidas
Das índias expulsas das suas terras;
Quero mascar meu pedaço de fumo,
E cuspir para os lados; quero beber
Minha pinga, e cuspir para os lados;
Quero fumar meu batuta, cheirar
Meu rapé, e espirrar aliviado.

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