domingo, 22 de junho de 2014

Empresarial Nicolau Jeha, 13; BH, 01201002012.

Ouço as vozes das vítimas dos sacrifícios,
Que foram jogadas dos altos dos abismos nos penedos,
Para acalmar a ira dos deuses;
Ouço os gritos dos cristãos que foram lançados às feras,
Nas arenas dos circos romanos;
Sinto o cheiro das carnes queimadas dos hereges,
Que não aceitavam o cristianismo,
Nas fogueiras da inquisição;
Perturba-me os choros dos pajés,
Dos curumins e das indiazinhas,
Pelos que eram mortos,
Por não aceitarem a catequese dos jesuítas;
E dilacera-me o martírio dos negros rebeldes,
Que eram dilacerados nos pelourinhos,
Ao relho das chibatas e chicotes dos seus senhores;
Ouço esses lamentos históricos dentro de mim
E não consigo viver;
Sinto as dores que as jovens negras escravas sentiam,
Ao serem estupradas pela casa grande na senzala;
Como posso abrir uma porta
E não pensar na Porta da Viagem Sem Volta?
De onde muitos partiram
E não tiveram o direito,
De nem dar uma última olhada na terra que pisavam 
E nos seus que ficavam na terra;
Jamais sairei desses porões de navios negreiros,
Continuarei com os lanhos,
As marcas dessas chibatas nas minhas costas;
Ouço esse burburinho histórico que sempre me envergonhará,
Sou réu confesso
E prisioneiro de todos esses crimes
E não cumpro nenhuma pena pelos meus delitos;
Ouço esses corações de atabaques e de tantãs 
E de tambores em suas últimas batidas;
E não é mais a batida de alegria,
As batucadas de louvores dos terreiros de macumba;
É a batida fúnebre,
O batuque do féretro;
É a batida de luto,
O luto pela história que não consegue se apagar.

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