quarta-feira, 4 de março de 2020

"Linhas Internas", RJ/SD, Dito poema; Publicado: BH, 040302020.

Vivo o poema
Entrego-me ao poema
E destruo-me pelo poema
Vivo no poema
Bebo pelo poema
Luto pelo poema
Morro pelo poema
E no entanto
Onde está o poema?
Bobagens e mais bobagens
Coisas inúteis
Coisas imbecis
E medíocres até agora
Sem vírgulas e sem rimas 
E sem acentos
E sem sinalizações
E digo
Que entreguei minh'alma ao poema
Mas que poema ingrato
Não fala nada que presta
Poema mudo
Poema surdo
Poema cego
Pema sem luz
E sem calor 
E sem vida
Comunista
Nazista
Antissocial
Sem educação
Incomunicativo
E chega o fim
O poema não sai
Vem a palavra fim
Todo mundo
Fica a saber
Que o poema acabou
Mas que poema?
Onde está o poema?
O poema está neurótico
Precisa dum psiquiatra
Então é isso
O poema está maluco
É por isso 
Que ninguém entende
O que o poema quer dizer
Talvez o poema
Queira falar de amor
Mas não sabe
E o amor também é tão difícil
E está tão longe
O amor também
Precisa dum psiquiatra
Ou melhor
Talvez seja o mundo
Que não entende as coisas
Coitado do poema
É uma pena
O poema ser fraco
E não ter amor
Talvez o poema até tenha
Vontade de ter amor
Mesmo um poema
Pode ter amor
E pode falar
Muito mais sobre o amor
E de paz
E de mulher
E de tudo
Afinal
Apesar de tudo
Um poema
Sempre é um poema.

Um comentário:

  1. Adorei, principalmente o final. Concordo que "Um poema/Sempre é um poema."
    No entanto, nós continuamos tentando definir o que é um poema.

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