quarta-feira, 30 de março de 2022

às vezes fico assim gentes parceiras parceiros de deus

às vezes fico assim gentes parceiras parceiros de deus
a procurar sem saber o que encontrar sabeis que é
como se o ar sumisse dos pulmões as nuvens do céu
da boca as palavras ficam mudas sem letras sem
formas sem fórmulas olho à procura dum olhar não
encontro nem mesmo um olho seco ou um olho de vidro
ou um olho grande ou um olho gordo ou um olho morto
de peixe cego ou um olho de assassino vago vazio no
vagão da locomotiva na contramão a luz no fim do túnel
é um outro trem que vem na minha direção o meu
comboio acelera cada vez mais agora fecho os olhos
para não sentir a colisão é tarde demais ou nunca mais
como cantou o corvo meus pedaços espalharam-se no
infinito nem gritei de dor pois não deu tempo de acionar
a minha voz que já estava sufocada enforcada nas
minhas cordas vocais nem urros nem sussurros nem
soluços nem suspiros só espirros de resfriados de
febres de calafrios arrepios no cadáver em cima da
lápide da campa de plataforma a sustentar pelas
pilastras veredas colinas de golan finquei o pé na
terra do pé de serra do meu espinhaço a medula
estremeceu o esqueleto o tutano correu de novo
no interior dos ossos como se os ossos fossem
pneumáticos o cadáver levitou como se leviatan o
sustentasse ou como se estivesse vivo com
frêmitos na pele de ser diáfano abriu a fímbria
da vida na atmosfera desapareceu no tempo

BH, 0190802019; Publicado: BH, 0300302022.

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