sexta-feira, 17 de junho de 2022

andei cego em plena luz do dia no qual nasci assombrado

andei cego em plena luz do dia no qual nasci assombrado
isso segundo o pai com o consentimento da mãe é a
primeira vez que ouvi falar que assombração nasce
assombrada nasci assombrado ao estranhar os seres
estranhos que me receberam quando saí das entranhas
cheguei do limbo um fantasma lindo com cara de
sobrenatural a expelir ectoplasmas por todos os furos da
alma o suor misturado me deixa um gosto salgado na
língua áspera a falar palavras incandescentes que
chegam a queimar as cordas vocais não chego a
nenhuma encruzilhada vivo a deixar restos de vida pelos
caminhos tortuosos que tenho que atravessar através
do universo com o lodaçal pela cintura a misturar com o
lamaçal do espírito que perdeu a genealogia a
genialidade luminosidade do ser nunca mais abri os
olhos devido o peso das pálpebras o chumbo dos cílios
o embaraço das pestanas segui corcovado apoiado no
cajado pelo vale da sombra da morte envolto na
penumbra o meu vulto arquejava com a vara um chiado
de velho chegou a tua hora fez-me arrepiar até os pelos
das solas dos pés

BH, 090802020; Publicado: BH, 0170602022

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