terça-feira, 21 de junho de 2022

meu coração não é meu pois é transplantado doutro peito ateu

meu coração não é meu pois é transplantado doutro peito ateu
é um coração carregado de sangue venoso sufocado de ódio
afogado de cólera de ira não irá muito longe neste destino
incerto tropeçará nas pedras deste caminho estreito mas meu
coração é um aleijão por dentro um capenga manco sem
muleta para coxo de bengala se instala em qualquer valeta
come em qualquer cocho pois é um coração de porco tem
gosto por qualquer esgoto não há nada que dispare este
comboio que descarrilhou na encruzilhada dos fantasmas das
assombrações dos vagões dos porões dos sótãos soltaram
minhas mãos me vi afundar num mar de bílis num oceano
gástrico arrotei amargo com amargor depois que vomitei azedo
de choco nada em mim era doce tudo era louco a mágoa só
aumentou quando a morte viu a careta da minha cara de
caveira de fóssil de esqueleto chorou como chora uma criança
desmamada de criatura sem criador da minha caveira de cara
risonha ria da morte bisonha eternamente enquanto cavalgava
meu cavalo do tempo meu coração dançava com o vento menino
redemoinho me elevei ao firmamento que se abriu receber-me

BH, 01601002020; Publicado: BH, 0210602022

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