sexta-feira, 24 de maio de 2013

E já parei de olhar para essas crianças que passam por mim; BH, 0180102000.

E já parei de olhar para essas crianças que passam por mim,
A estender a mão, a pedir uma esmola, um pedaço de pão;
Parei de olhar essas mães que não têm nos peitos,
O leite suficiente e necessário para alimentar o filho;
Não olho mais para os recém-nascidos que são
Esquecidos em sacolas de supermercados, ou em
Lixeiras de edifícios de luxo e escadas de incêndio;
E já parei de olhar para os menores de rua,
Os adolescentes delinquentes, maltratados,
Torturados e seviciados nas dependências da FEBEM;
Não olho mais para as crianças exploradas pelos pais
E pelo país nas frentes de trabalho escravo e nos meios
Dos catadores de lixo dos bolsões de miséria;
Parei de olhar para os meninos e meninas que vivem
Longe dos bancos e das merendas escolares;
Os Brasileirinhos da Rocinha, as Martas do Dona Marta e
Outros que são arrebanhados desde a tenra idade pelo tráfico
De drogas e o vício; não olho mais para eles, meus olhos são
Um deserto, meu olhar é uma pedreira de iceberg, um abismo
Entre meus olhos e o quadro atual que vejo;
Existem cordilheiras de montanhas e precipícios,
Morros e picos intransponíveis e já decidi:
Não passa mais pelo meu ângulo de visão,
O abuso sexual contra as crianças, a violência
E o extermínio, a agressão e o espancamento;
E já parei de olhar por essas vítimas desta
Sociedade desequilibrada e injusta;
Não olho mais para essas prostitutas infantis,
Agora quero olhar é para a burguesia política e religiosa,
Quero olhar é para a elite representativa;
Para o senado e a câmara dos deputados,
Quero olhar é para a sede da presidência da república
E a cúpula de ministérios que pululam na mordomia;
Quero olhar é para os banqueiros e empresários,
Os mega especuladores e os sonegadores impunes;
Só quero olhar agora é para a ciranda financeira,
Os navegadores na internet e seus derivados;
Os usuários da telefonia móvel e a modernidade,
Quero olhar é para o futuro e fazer igual ao
Representante do povo brasileiro, que disse na
Festa de fim de ano, que enquanto repórteres e
Fotógrafos apanhavam da polícia do exército, que
Deixasse isso para lá e falasse em coisas boas,
Que era época de festas e de comemorações;
Não quero mais olhar para quem ganha
Salário mínimo e é aposentado e vagabundo;
Só vou olhar agora para aquele que ri enquanto
Tira o solário dos trabalhadores e acaba com
A aposentadoria dos apsentados e vende
A preço de bananas as nossas riquezas e empresas e
Entrega os nossos minérios e as nossas energias;
E já parei de olhar por este povo que vive
Nas ilusão do carnaval e do futebol;
Não olho mais para este povo sem perspectivas,
Esperança e confiança e que tem que buscar
A fé e a luz na doação dos dízimos à
Igreja Universal do Reino de Deus;
Não olho mais para esses doentes que correm
Aos postos de saúde com receitas nas mãos
E voltam com as mãos vazias, sem os remédios;
Não olho mais para esses que vão às farmácias,
Que mais parecem supermercados e mercearias
De remédios e drogas, onde o paciente não tem vez;
Está nas mãos dos laboratóios das grandes
Multinacionais dos remédios, que nunca servem
Para aplacar a dor, ou curar as doenças do afligido;
E agora só olho para os chiques e famosos,
Os que vivem na mídia, da mídia e para a mídia;
Só olho para os sadios e bonitos, arianos e brancos
De olhos azuis e cabelos lisos e bem tratados;
E já parei de olhar para aqueles que sofrem,
Com o preconceito racial e sexual e social;
Parei de olhar para a população de rua,
Para os que vivem debaixo das marquises,
Sem tetos e sem um lar sem casa para morar;
E parei de olhar também para os que não têm
Terra para cultivar, só quero olhar agora é
Para os latifundiários, os madeireiros e os que
De motosserra em punho, põem abaixo milhares
E milhares de hectares de mata virgem;
Expulsam os índios das aldeias e reservas,
Tomam as terras dos agricultores pobres
E plantam maconha com o apoio do governo;
Governo que nunca tivemos, que sempre
Nos enganou e que nunca olhou para nós;
E já parei de olhar e agora só vou olhar,
Como se estivesse a olhar, para uma poça de vômito,
Um monte de fezes, um cadáver em decomposição;
Não olho mais para os problemas e os desequilíbrios
Sociais, olho agora para os causadores dos efeitos;
Olho agora para aqueles que concentram em
Suas mãos a renda e o dinheiro
E distribuem ao povo os restos das sobras
Das mordomias e dos banquetes e das orgias;
E lucram com a dor do povo, lucram com as lágrimas,
Com o choro e as lamentações, lucram com a fome,
Com a violência e a miséria, lucram com a desgraça,
A pobreza e o abandono, lucram com tudo e
Com as mazelas e as sequelas da seca e das
Enchentes e de toda a falta de estrutura que
Empurra o povo para o abismo sem fim;
Empurra o povo para longe do lazer e da felicidade,
Empurra o povo para a morte precoce;
Para a ignorância, a falta de educação,
Saúde e cultura e toda infraestrutura,
Que poderia deixar por herança, um pouco
De ar puro nos pulmões estourados, feridos
E manchados por toda poluição causada,
Por aquele que só sabe ver lucro e ganho,
Não sabe doar e nem ceder, não sabe oferecer;
E já parei de olhar, não quero ficar com pena,
Não quero ficar deprimido e nem me indignar;
Agora só vou olhar para quem não me olha,
Olhou para mim e não olho mais;
Vou virar o rosto para o lado e olhar lá do outro lado,
Virar a face ao avesso e vice-versa;
Se estiver na face direita, viro para a esquerda
E se estiver na face esquerda, viro para a direita;
Para mim já acabou esta angústia extrema,
Acabou esta agonia terminal e sem razão;
Em pior situação estão os leõezinhos,
Os filhotes que morrem de fome, ou devorados
E os passarinhos que caem dos ninhos;
Em pior situação estão os animais no
Meio das queimadas ambientais e assassinas;
E os peixes que estão encalhados nos rios que estão a secar,
Os peixes presos nas lamas e nas águas poluídas,
Sem o oxigênio para a sobrevivência;
Mudei o meu olhar para outra direção,
Para outra meta, outro rumo e situação;
Mudei meu olhar de mão, de sentido,
Não fico mais constrangido, compungido,
Abatido e desesperado, não fico mais renegado;
A querer e a cobrar soluções e resoluções,
A querer e a cobrar respostas e transformações; é
Deixar tudo como está e está bom demais,
Não me preocupo por não ser capaz e
Por ser incompetente e inoperante;
Não me preocupo se não vou avante,
Se não acredito e nem tenho fé;
A casa já caiu e o muro ruiu e a lava,
A lama do vulcão frio invadiu a sala,
O quarto e a cozinha e o quintal;
Não ficou nada para aproveitar,
A minha vontade era a de só tomar
Um banho para tirar a lama e sair
Nu igual São Francisco e ir para o campo,
Conversar com as pedras e os passarinhos:
Nada mais temos a falar com os vivos;
O que interessa agora são os mortos, os
Cadáveres e os defuntos, se não encontramos
Respaldo, e amparo no meio dos vivos,
Devemos procurar no meio dos mortos;
Os mortos têm a fazer que os vivos não fazem,
Pois os vivos estão mais mortos que os próprios mortos;
E pretendo sair do meio dos vivos,
E procurar uma oportunidade no meio dos mortos,
Os mortos não ateiam fogo em pessoas a dormir,
Debaixo de marquises, ou bancos de praças;
Os mortos não pleiteiam as aposentadorias dos aposentados,
Não abandonam crianças recém-nascidas,
Não fazem a guerra e nem fazem a intriga,
Não mentem e nem são falsos e ilusórios;
E já não quero mais estar no meio dos vivos:
Vivo trai e mente e engana e mata e rouba,
Vivo é a pior coisa que a humanidade
Deixou aqui na face da terra, vivo não presta;
Bom só quando está morto, não quero matar,
Não vou matar, mas com os chamados vivos,
E não pretendo mais viver, não pretendo mais
Ser vivo, agir igual ao vivo, fazer como um vivo;
Cansei de levar porrada e tapa na cara,
Cansei de levar botinadas e chutes na bunda;
Cansei de perder o vigor, e o brio por temor
E por pensar que como um vivo, 
Poderia chegar lá no destino da evolução;
Mas que nada, agora estou mais
Morto do que nunca e nem com o por favor,
E volto a pertencer e a respirar o mesmo ar,
Dessas pessoas que não sabem amar e nem
Viver a vida em paz e em harmonia;
E se depois que passar para o outro lado,
Para o lado dos mortos e não consegui
Escrever mais nenhuma frase de poema,
Vou arranjar uma pessoa para psicografar para mim
As minhas poesias e mensagens que não
Forem tão ruins e piegas e pobres;
Por isso que antes preciso enriquecer
O meu pobre e vazio espírito irrequieto;
Por isso antes preciso encher a minha alma,
Tirá-la do vácuo e da solidão e fazer
Com que do outro lado ela encontre,
O espaço dela, o respeito e a admiração que
Não recebeu em vida, aqui no espaço de cá;
E que lá ela ponha em prática e pense
Tudo que não pensou aqui e nem
Soube colocar em prática quando pensava;
Que lá a inteligência dela seja louvada,
Tanto quanto a sabedoria e o conhecimento;
E a mente que aqui nunca funcionou,
A memória que aqui só falhou,
E a lembrança que aqui nunca existiu,
Lá, juntamente com a expressão da alma,
Sejam sensacionais, colossais e maravilhosas
E a mandar frutos, flores, folhas, galhos através
Das mensagens do além do além do além,
Do mais distante confim do infinito, onde
Não se tenha conhecimento nem do conhecido
E o desconhecido seja a incógnita a desvendar;
Se falarem para mim que não adianta,
Que na hora agá fico com medo,
Que a coragem vai me abandonar
E que a covardia vai me entregar,
E digo, que podem falar, já sou surdo,
Não posso mais escutar, podem gritar;
Já não sou mais carne e nervos e ossos,
Já não sou mais um ente vivo;
Faço parte do mundo dos duendes,
Do mundo dos fantasmas e dos espíritos.

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