sábado, 11 de janeiro de 2014

Réquiem quantos poemas perdi na vida; BH, 0210902011; Publicado: BH, 0110102014.

Réquiem quantos poemas perdi na vida?
Infinitos; quantas poesias joguei
Fora dentro de mim? eternas; e
Quantas odes deixei de cantar? e elegias
Que deixei de chorar? incontáveis;
Pelas estradas do meu destino abandonei
Universos de letras e mundos de palavras;
Não choquei no meu ninho as sentenças
E as frases prediletas dos deuses; esqueci
Nos caminhos por onde andei, períodos
Imortais e orações sagradas e profanas;
E por estas imperdoáveis falhas fatais, a cada
Milênio, empobreço-me como um mendigo
E meu espírito envelheceu e não foi
Aceito nas modernas academias de ginásticas;
Meu espírito foi banido para as bibliotecas,
Exilado para as academias acadêmicas,
Para os depósitos de livros velhos e literaturas
Quinhentistas; minha alma foi enxotada
Para porões de museus e sótãos de pinacotecas
Antigas e jardins repletos de esculturas de
Michelangelo Buonarroti; e que tortura
Agora, para passar para esta folha de mármore
De Carrara, estas combalidas linhas pagãs;
Que pecado mortal cometo, ao moldar
Neste bronze frio, estes pensamentos pobres
Do classicismo que imortalizou Auguste Rodin;
Abortei todos os meus filhos em clínicas
Clandestinas, pois não soube ser uma mãe,
Igual a minha, que teve a sabedoria
De consagrar os seus; cego, o escuro me mete
Medo, o que não era para acontecer; tateio
E furo as mãos nos espinhos, perco as unhas
Ao tentar escalar os rochedos e esfolo as
Solas dos pés nos escolhos dos abismos; do
Sangue desta hemorragia, colori a paisagem
Mórbida, que a fresta da janela faz projetar
Nas paredes dos hospícios; e uno-me aos
Loucos renegados num coral bizarro a
Entoar este réquiem pelos corredores da trevas.

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