sábado, 9 de abril de 2011

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Magnificat; BH, 090402011.

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei.
O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossível de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde?
Como?
Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida,
Quem tens lá no fundo?
É esse!
É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma: será dia!

                                                                                      07/11/1933

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