Se os homens reservam sempre sua veneração e seu
Sentimento de felicidade para as obras da imaginação e da
Ideia, não é de espantar se, diante do oposto da imaginação
E da ideia, sintam frieza e desprazer.
O arrebatamento que se manifesta ao menor passo à frente,
Seguro e definitivo, que é feito no conhecimento, no ponto
Em que ora estamos na ciência, é frequente e quase universal
- Mas suscita provisoriamente a incredulidade de todos aqueles
Que se habituaram a não se arrebentarem senão abandonando a
Realidade, mergulhando nas profundezas da aparência.
Acreditam que a realidade é feia:
Não pensam que o conhecimento da realidade, mesmo a mais
Feia, é bela e que aquele que conhece muito e frequentemente
Acaba por estar longe de achar feio o conjunto da realidade
Que lhe proporcionou tanta felicidade.
Haverá então algo de "belo em si"?
A felicidade daqueles que conhecem aumenta a beleza do mundo
E torna mais ensolarado tudo o que existe; o conhecimento não se
Limita a envolver as coisas com sua beleza, mas a introduz, de uma
Maneira duradoura, nas coisas; - possa a humanidade do futuro
Testemunhar em favor desta afirmação!
À espera disso, lembremo-nos de uma velha experiência: dois homens
Tão essencialmente diferentes como Platão e Aristóteles se puseram
De acordo sobre o que constitui a felicidade suprema, não somente
Para eles e para os homens, mas a felicidade em si mesma para os
Deuses das últimas beatitudes: eles a encontraram no conhecimento,
Na atividade de uma razão exercida que descobre e que inventa
(E de modo algum na "intuição", como fizeram os
Teólogos e os semi-teólogos alemães, de modo algum na visão, como
Fizeram os místicos, e mesmo de modo algum no trabalho, como fizeram
Todos os práticos).
Descartes e Spinoza pensaram o mesmo: como todos eles devem ter
Desfrutado o conhecimento!
E que risco havia para sua honestidade de se tornarem assim louvadores
Das coisas.
René Descartes (1596-1650), filósofo e matemático francês; entre suas
Obras, Discurso do Método, e As Paixões da Alma.
Baruch de Spinoza (1632-1677), filósofo holandês de origem portuguesa;
Entre suas obras, Tratado Para a Reforma do Entendimento.
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