sexta-feira, 8 de abril de 2011

O melhor de um poeta popular, AA; BH, 080402011.

Um urubu pousou na minha sorte!;

Amo o coveiro - este ladrão comum que arrasta a gente para o cemitério!;

O beijo, amigo, é a véspera do escarro;

Comi meus olhos cru no cemitério;

Homem, carne sem luz, a tua própria boca te maldiz;

Os defuntos então me ofereciam num prato de hospital, cheios de vermes,
Todos os animais que apodreciam!;

Já o verme - este operário das ruínas - anda a espreitar meus olhos para roê-los;

Fetos magros, ainda na placenta, estendiam-me as mãos rudimentares!;

Não sei por que me vêm sempre à lembrança o estômago esfaqueado
De uma criança e um pedaço de víscera escarlate;

O corvo que comer as suas fibras há de achar nelas um sabor amargo!;

Há de engolir, igual a um porco, os restos duma comida horrivelmente azeda;

Podre meu pai! E a mão que enchi de beijos roída toda de bichos, como os queijos;

Acostuma-te à lama que te espera!;

É a morte - carnívora assanhada -, serpente má de língua envenenada,
Que tudo que acha no caminho, come...

Queria ser, numa última cobiça, a fatia esponjosa de carniça que os corvos
Comem sobre as jurubebas.

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