sábado, 9 de abril de 2011

Paul Verlaine, Arte Poética; 090402011.

A Charles Morice

Venha a Música acima de tudo,
E por isso prefira o Verso ímpar
Que mais leve pelo ar se dissolve,
Não tendo em si nem peso nem pose.

E não deixe você de escolher
Com certo engano as suas palavras
Nada melhor que a canção grisalha
Que o Indeciso ao Preciso incorpora.

São belos olhos atrás de um véu,
Ao meio-dia o tremor da luz,
E, num céu apagado de outono.
A confusão azul das estrelas.

Pois queremos ainda a Nuance,
Não a Cor, a nuance somente!
Oh! Somente a nuance conjuga
O sonho ao sonho, a flauta ao clarim!

Fuja de longe à Verve assassina,
Ao Riso impuro e Espírito cruel,
Que entristecem os olhos do Azul,
Vil tempero de baixa cozinha!

À eloquência, lhe torça o pescoço!
Você faz bem, mostrando energia,
Em tornar mais sensatas as Rimas:
Sem cuidado, onde irão se esbarrar?

Oh! quem dirá os males da Rima!
Que negro louco ou menino surdo
Nos forjou esta jóia barata
Que sob a lima soa balofo?

Agora e sempre domine a música!
Que seja o verso a coisa ligeira
Que, a alma deixando, voa à procura
De outros amores e de outros céus.

Seja teu verso a boa aventura
Solta ao vento vivaz da manhã
Que tecende a erva-doce e hortelã...
E tudo mais é literatura.

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